“Ser ou não ser, eis a questão”, essa frase célebre rompeu a barreira do tempo e se tornou um clássico. Shakespeare que me perdoe a paráfrase, mas para mim, em relação à erva, o negócio é “ter ou não ter”. Afinal, vale a dialética do bolo: ou você tem o bolo, ou você come o bolo. No nosso caso o verbo é outro, mas você já deve ter entendido.
Já teve em mãos um fumo tão bom que deu até pena de fumar? Isso aconteceu comigo e então um lindo camarão, resinado e muito cheiroso, acabou fincando no pote por pelo menos nove meses de cura. O tempo que o corpo humano demorar para gera uma vida, esse pedaço de vegetal custou para gerar uma brisa.
Quando se tem um fumo desse em mãos, você pensa qual será a data especial para queimá-lo. Como algum amigo especial? Sozinho ou acompanhado? Esperar para apertar esse para alguém que você considere um ídolo ou mostrar sua idolatria ao green tacando logo o bud na seda?
Nesse caso, mais do que nunca, é ter o bud ou fumar o bud. E numa quarta-feira fria, decidi que era chegada a hora dele. Segue, portanto, o relato enfumaçado dessa sessão degustativa canábica, escrita durante ato de sua apreciação. Sente só a onda:
Ao dichavar na tesoura o cheirinho que subiu foi de saudade. Adocicado, único, uma fragrância diferenciada e convidativa. Eu jamais deixaria alguém colocar um bud como esses no dichavador. Porque?! Quanto mais quebrados os tricomas e as flores, menos preservado estará o gosto do fumo.
Também fiz questão de não misturar com nada. O tabaco até é bem vindo, algumas vezes, mas para celebrar esse momento único realmente preferi só a erva. Zero por cento diluída. Purinha e extremamente venenosa – no bom sentido, claro.
Nos primeiros tragos a sensação de elevação ao exalar uma fumaça doce, de fazer adormecer as vias respiratórias. Se prender demais a tosse é certa. E o pior, é ótima. Talvez não para a saúde, mas para o efeito. Uma flor não ficou no pote por tanto tempo para ser apreciada com pressa, sem o trago amiúde de um bom apreciador.
Tive ideias, troquei-as. Ao invés de fumar sozinho, convidei minha companheira, que com alegria aceitou se deliciar com um cigarro tão especial. Uma das máximas do “Into The Wild”, filme indicado dessa edição, é a que apliquei com o bud: “A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”, e com a maconha isso é mais do que real.
Abstração. Profunda. Dificuldade leve de conduzir o texto e rotineiro pensamento de que provavelmente o editor vá cortar muitas dessas desvairadas linhas. Fumar e escrever é como conversar com o tempo. Fumaça ao vento e pensamento preenchendo o espaço físico de uma revista, datada para o sempre. Alguém lendo isso sabe lá onde. Uma mensagem na garrafa, jogada no oceano Brasil, escrita com a caneta de um bud com nove meses de cura… foi lida. Foi linda.
Mais um fino
E você acha que um camarão capa de revista dá um basedo só? Claro que não. Aproveitando o pedacinho da flor que sobrou, confeccionei um fino. Esse resolvi fumar sozinho, pois a alegria já está sendo aqui compartilhada no relato, portanto é, também, verdadeira.
Após devidamente alimentado, mas ainda com a cabeça nas nuvens, porque não acionar o digestivo? No PC, um amigo chama para o jogar online, mas recuso. Digo que tô trabalhando e ele me sugere momentos de lazer. Estou tendo. Provando uma especiaria como essas, ouvindo Nina Simone. E se alguém, por acaso, me perguntar como me sinto… a resposta só pode ser algo como “Feeling Good”, pesado demais, qualidade absoluta - inquestionável!
Agora já não tenho mais o bud lindo de outrora. Tenho, ainda a efêmera sensação da onda e o gosto (ainda na boca) de um sabor que transita entre doce e salgado. É a Big Buddah Cheese. Quer dizer, era. Pelo menos esse texto, essa revista, farão dele imortal. Que colheita!
Texto original da Hempada #03
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