7 coisas que aprendi nas Marchas da Maconha (em 10 anos de presença)

Chapa2

hempadao 9 maio, 2017

No último sábado tive a oportunidade de ir pela 2a vez a Marcha da Maconha Curitiba e, antes de começar esse texto, aproveito para parabenizar todos e todas que fazem parte do movimento naquela cidade. Ao longo dos últimos 10 anos estive em Marchas em 9 cidades diferentes. Algumas vezes participando ativamente da organização, noutras auxiliando indiretamente e algumas, como na de sábado, só chegando no dia para ser mais para me expressar no espaço conquistado pelo coletivo local, legitimado ao longo de anos de trabalho. Cada evento é diferente do outro, mas em todos eles a diversidade de pessoas envolvidas é a característica mais marcante. Em todos os eventos de todas as cidades existe uma diversidade enorme de tipos de participantes. Existem os organizadores, que às vezes são mais sérios, politizados (seja partidariamente ou não), ou ligados a empresas, coletivos de ativistas e também têm os que atuam de modo mais lúdico, com artes variadas, poesia, música, etc; existem os que são preocupados principalmente com a questão medicinal, pacientes, familiares, amigos de pacientes e pessoas ligadas a associações de auxílio aos pacientes; há os que chegam no dia apenas para somar na passeata e não querem falar de luta pela legalização ao longo do ano, seja ela para fins medicinais ou recreativos, vendo a marcha apenas como um momento de expressão e liberdade para afirmar publicamente uma parte da sua experiência de vida como ser humano, da sua existência neste planeta que, em outros momentos e épocas do ano ele precisa camuflar ou esconder ao máximo.

por Sérgio Vidal (PHD em THC – tinyurl.com/sergiovidal)

https://www.facebook.com/Ganjagurubrasil

Fotos: http://www.facebook.com/somaconheiras

Neste dia, todas as expressões sobre a maconha são válidas e legítimas durante a marcha. É para isso que ela foi criada e é para isso que ela se reproduz: para ser uma intervenção no tempo e espaço onde variadas expressões sobre a maconha possam ser colocadas publicamente, de uma maneira que em outros tempos e espaços ao longo do ano não conseguimos expor. Como dizem por aí, se não for para causar eu nem saio de casa…

No sábado, durante a concentração pré-passeata, também um jornalista da Gazeta do Povo foi na Marcha da Maconha de Curitiba e, no dia seguinte, publicou o artigo que ele intitulou sobre “7 coisas que aprendi na Marcha da Maconha”, com base nos poucos minutos que esteve no evento e nas poucas pessoas com quem conversou superficialmente(https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10156660542454572&id=149698499571). Inicialmente fiquei bastante revoltado por conta da narrativa carregada de preconceito, mas depois pensei melhor e vi como na verdade o jornalista é apenas mais uma vitima do processo histórico de ignorância e desinformação sobre o tema. Inspirado nessa reflexão, usei o mesmo título da matéria dele nesse meu artigo e espero que vocês gostem da leitura.

1 ) Organizar Marcha da Maconha demanda muita dedicação, mas vale muito a pena

A primeira vez que me meti com ativismo político para organizar uma Marcha da Maconha foi em salvador, no início das Marchas em todo país e em 2008 e isso me rendeu um inquérito policial e uma acusação formal, que posteriormente foi arquivada. Os Ministérios Públicos de diversos estados brasileiros entraram com processos contra os organizadores das marchas acusando ativistas de envolvimento com o crime organizado. Em cada estado o processo foi diferente e, assim como eu, muitos ativistas foram reprimidos pela polícia, pela justiça, tiveram que prestar depoimento em delegacias, vencer processos judiciais, até que a questão fosse votada pelo supremo Tribunal Federal, em 2011, legitimando as manifestações em todo país. Todo esse processo me ensinou muitas coisas, entre elas que, ao contrário do que as pessoas falam no senso comum, os maconheiros são como qualquer cidadão brasileiro, mesmo desacreditados das vias políticas e judiciais, quando querem, organizam-se, vão à luta, conseguem levar questões sérias as instâncias mais elevadas da justiça do país e ainda ganhar os processos.

2) Ela não é só sobre Maconha, é sobre antiproibicionismo e abolicionismo penal também

Ao longo de 10 anos participando da Marcha da Maconha eu também conheci inúmeros especialistas sobre drogas, de diversas áreas do conhecimento científico e aprendi muito sobre diferentes temas relacionados. Aprendi principalmente que não é suficiente falar apenas de políticas sobre maconha, sem levar em conta sempre que a sociedade é plural e que as pessoas estão em contato com outras substâncias também. Além disso, a questão é muito mais ampla do que somente produção, venda, distribuição e consumo de uma ou outra substância. Quando questionamos o sistema proibicionista estamos nos referindo a temas muito mais amplos como o fim do encarceramento em massa, o combate as desigualdade sociais, dentre outras questões. Hoje o Brasil é um dos países com maior população carcerária do mundo, sem qualquer estrutura para receber o contingente atual e continuamos enviando milhares de pessoas para as cadeias diariamente, sem planejar ou aplicar qualquer alternativa de tratamento social que não seja a prisão. Sendo que a grande maioria das pessoas presas é por acusações de envolvimento com tráfico de pequena quantidade de drogas.

3) É também sobre racismo e seletividade punitiva!

Em 2009 uma cena me marcou muito durante um dos atos de manifestação da Marcha de salvador. Creio que atos semelhantes devam ter ocorrido em muitas marchas ao longo desses anos em todo país. Nós organizadores não fomos revistados pela polícia. Mas todo cidadão negro que chegava sozinho ou em grupo com amigos eram todos revistados. Esse, na verdade, é apenas um exemplo dentre os inúmeros de episódios de racismo expresso diariamente na aplicação das políticas de drogas brasileira que agride, encarcera, violenta os direitos de forma seletiva. As estatísticas de encarceramento, de agressões policiais, dentre outras revelam que a atual lei brasileira é aplicada de forma seletiva de acordo com os interesses dos agentes da lei, sempre num viés racista. Fora o fato histórico de que a Lei brasileira que proibiu a maconha em território nacional em 1932 foi totalmente criada baseada em argumentos pseudocientíficos de cunho racistas, que se fossem utilizados hoje em dia em qualquer ambiente acadêmico no país seriam por si só considerados ilegais de serem pronunciados em sala de aula por serem considerados crime.

4) É sobre a liberdade dos corpos e visibilidade das mulheres

Depois de alguns anos que as Marchas começaram a ocorrer dentro do movimento antiproibicionista surgiu uma corrente denominada Feminista Antiproibicionista que, entre outras coisas, defende a visibilidade das mulheres dentro do movimento, a igualdade de gênero e inclusão das especificidades relacionadas com as mulheres nas questões sobre políticas de drogas. Esse movimento de mulheres dentro do movimento antiproibicionista nasceu revelando que era urgente pautar questões próprias relacionadas com as mulheres e a realidade brasileira sobre drogas. Na última Marcha de Curitiba uma ativista fez uma fala muito importante destacando que quando a maconha for legalizada não é qualquer tipo de lei que vai ser boa, mesmo que esta libere a erva para consumo. Se for uma lei como a de bebidas alcoólicas atual, por exemplo, que permite a exploração da imagem do corpo das mulheres não será algo interessante. Em sua fala: “eu não quero meu corpo sendo usado para vender droga pra galera”. Eu concordo totalmente com sua afirmação e é muito importante saber que esse tipo de reflexão e atuação está ocorrendo e sendo reproduzida publicamente em diferentes marchas em todo país, nas chamadas Alas Feministas da Marcha da Maconha. Em muitos outros estados o movimento de feministas antiproibicionistas só vem crescendo e elas têm se organizado de forma até mais eficientes que os homens do movimento. As mulheres atualmente têm uma rede nacional conectada e em diálogo constante e foram responsáveis pela realização do primeiro encontro da Rede Nacional de Coletivos e Ativistas Antiproibicionistas ano passado, onde também ocorreu o primeiro encontro Nacional das Feministas Antiproibicionistas. Além disso tudo elas têm destacado e dado visibilidade a um fenômeno importante que não deve nunca ser esquecido, o fato de que o movimento antiproibicionista por si também está inserido na sociedade patriarcal e estruturalmente machista e que, portanto, em muitos espaços, tempos e através de indivíduos e grupos têm reproduzido também as perversidades do sistema do qual faz parte. E esse é um fato que merece constante vigilância e visibilidade de fato, se com toda essa luta quisermos, de fato, construir uma sociedade melhor e não apenas tornar a maconha legalmente disponível para consumo.

5) É sobre salvar vidas e melhoras condições de existência de bilhões de pessoas

Desde o começo da minha atuação como pesquisador e ativista sempre procurei estudar muito sobre o tema. Além da minha curiosidade natural, ter que constantemente responder a perguntas de pessoas em debates, palestras, aulas, em entrevistas em tv, rádio, jornal também me obrigou a estudar e manter sempre atualizado. Por isso, desde o início descobri a importância das propriedades terapêuticas da cannabis, conhecidas há milênios pela humanidade e só fui me aprofundando nos estudos de como a planta pode não apenas ajudar a curar doenças e tratar sintomas, mas servir como mais uma fonte nutricional bastante rica para os humanos e animais. Por isso afirmei ao jornalista da Gazeta do Povo que eu considero que ela é, antes de qualquer coisa, um sistema de medicamentos e matéria-prima para inúmeros produtos. Disse ainda que entre os seus muitos efeitos ela provoca sensação de prazer e bem estar em algumas pessoas, não em todas, e algumas dessas pessoas se beneficiam desse efeito colateral para curtir um momento de descontração, ou recreação, como preferir chamar, apesar de não terem qualquer doença, mas que essas seriam uma minoria no universo de pessoas que consumiriam a planta e seus derivados, pois, como disse, ela é principalmente um remédio. Porque afirmo que ela é principalmente um remédio¿. Porque hoje as pesquisas estimam que existam pouco menos de 200 milhões de pessoas que fazem uso recreativo de maconha, porém o número de pessoas doente em todo mundo que poderiam se beneficiar das propriedades terapêuticas e medicinais da planta para tratar doenças sintomas é muito maior que isso. Já com relação às propriedades nutricionais das sementes, que não contém princípios ativos e é ricas em proteínas e gorduras nobres, esse número é ainda maior já que virtualmente todos os mais de 6 bilhões de pessoas no planeta poderiam inserir alimentos a base de sementes de cannabis em suas dietas.

6) É sobre educação popular também!

Poderia citar muitos casos de como, ao longo desses 10 anos, as Marchas da Maconha me mostraram que todo esse movimento é também sobre educação popular, mas vou citar apenas 1 caso ocorrido também na Marcha da Maconha de Curitiba. Na fala da ativista que citei mais acima ela também destacou, direcionada para os homens ali presentes, que é importante sempre respeitar a decisão das meninas. “NÃO É NÃO, seja no caso da mina ester chapada, bêbada, ou sob o efeito de qualquer outra substância”. Esse exemplo, que busca transformar a cultura machista, infelizmente altamente popularizada, de que garotas que consomem drogas são algo fácil para abusos enquanto estão impedidas quimicamente de reagir, ou mesmo desacordadas, ocorreu em Curitiba, mas é constantemente repetido por diversas mulheres em diferentes cidades do Brasil, e precisar ser intensificado com urgência. É só um exemplo dentre muitos existente de práticas de educação popular que ocorreram nas diferentes marchas em todo país ao longo dos anos e esse tipo de atuação deve ser incentivado e reproduzido ao máximo, sobre variados temas relevantes relacionados direta ou indiretamente com a questão da maconha e outras drogas.

7) Que o trabalho só está começando, apesar de uma década de marchas

São 10 anos de Marchas da Maconha. É claro que elas tiveram, têm e sempre terão um papel fundamental dentro das mudanças sociais e políticas que estão ocorrendo no país com relação ao tema. Mas ainda temos muito caminho pela frente até educar toda a população a respeito do tema. Tomo como exemplo a abordagem jornalística da atualidade. Há 10 anos atrás os jornalistas não sabiam nada sobre o tema e não faziam a menor questão de saber. Pegavam nossos depoimentos e publicavam matérias sem se preocupar com a repercussão que teriam na opinião pública. Hoje o acesso a informações científicas é muito maior e a interação nas redes sociais mais rápida. Em poucas horas uma matéria jornalística mal escrita ou fundamentada em preconceitos ou informações equivocadas pode ser desmentida por comentários dos leitores e exposta ao ridículo. Dificilmente um jornalista se arrisca a produzir algum artigo ou conteúdo sem ter pesquisado antes sobre o tema. Mais que isso. Foram jornalistas os responsáveis por dar visibilidade aos primeiros casos de pessoas lutando para trazer extratos de cannabis legalmente importados através da ANVIA, que culminou com o movimento que acabou gerando o atual avanço na regulamentação da questão medicinal. Porém, ainda hoje, mesmo apesar de toda informação existente sobre o tema, de todo trabalho de conscientização e até do envolvimento de jornalistas no processo de regulamentação, muitas pessoas desconhecem sobre os reais efeitos da maconha quando usada como droga recreativa, ou dos seus potenciais terapêuticos. Mesmos nos países onde já há uma avançada regulamentação sobre a matéria as pesquisas estão apenas começando. O futuro ainda é totalmente desconhecido, tudo que sabemos é que devemos continuar trabalhando para educar as pessoas a melhorar a relação com esta plantar, seus usos e usuários, até que abandonemos a postura belicista e adotemos políticas mais maduras e eficientes. Um dia, quem sabe, todo jornalista, mesmo que tenha uma opinião radicalmente contrária ao uso recreativo da maconha, pense duas vezes antes sobre os impactos negativos que um artigo ridicularizando movimentos sociais podem causar, já que tudo que têm feito é realizar um trabalho de transformações sociais que vão beneficiar a vida de milhões de brasileiros.



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