Home Colunas Chapa2 Vou apertar, e já vou ascender agora!

Vou apertar, e já vou ascender agora!

por S. M. Hermes

Conforme Italo Calvino, sobre sua obra O Visconde Partido Ao Meio (1952), “O homem contemporâneo é dividido, mutilado, incompleto, hostil a si mesmo; Marx o chama de ‘alienado’, Freud, de ‘reprimido’; um estado de harmonia antigo foi perdido, aspiramos a uma nova totalidade. Este é o núcleo ideológico-moral que eu queria conscientemente trazer para a história”. Ou seja, o que Calvino põe em “pauta, apesar das aparências, não é a luta entre o bem e o mal, mas a busca de uma integridade que supere as mutilações impostas pela nossa sociedade”.

“Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. ” – O Visconde Partido Ao Meio (1952)

Segundo Bakunin, uma das figuras mais influentes do anarquismo, “A liberdade do homem consiste tão somente nisso, de que ele obedeça as leis da natureza as quais ele próprio reconhece enquanto tais, e não porque elas foram impostas externamente sobre ele por qualquer vontade exterior, humana ou divina, coletiva ou individual”. Outros pensadores também chegaram a essa conclusão, de que a sociedade industrial literalmente escravizou a humanidade, tornando a liberdade algo ilusório.

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Eu mesmo, enquanto um usuário pesado de Cannabis (de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde)), as vezes questiono esse meu vício, até onde isso me faz bem, até onde isso me prejudica, etc. Isso, exatamente devido as implicâncias da vida em sociedade — que requer tanta dedicação (ou até mais) do que, por exemplo, uma vida em celibato — pois, somos julgados e cobrados a todo instante para que estejamos dentro dos padrões pré-estabelecidos socialmente: estude, arrume um emprego, se case, faça dívidas, não use drogas (ilegais), seja dócil, seja obediente, faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço e, não esqueça, seja feliz.

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Somos diariamente incentivados a vender nossas almas, a trocar nossa vida por papel, pela ilusão de estar usufruindo de qualquer coisa que é essencialmente nada. Sendo assim, fumar Cannabis, se tornou meu lenitivo as mutilações sociais das quais Calvino se refere, tendo minha preferência enquanto tratamento para tal problema.

“Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. […] Mas, agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. ” – O Visconde Partido Ao Meio (1952)

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