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Sufismo: A religião mística do Islã que foi pioneira do Haxixe e do Café

Dançarinos, aventureiros, místicos, e pioneiros. São também religiosos e condenados como hereges.

Fonte: Aventuras na História

O Paquistão é um dos países mais conservadores do mundo. Bebidas alcoólicas são proibidas. A maioria das mulheres só sai na rua coberta por véus. O governo censura filmes e novelas, perseguindo até os mais suaves conteúdos sexuais. Mas em um dos mais importantes santuários do país – o Mausoléu de Abdullah Shah Ghazi, um santo muçulmano do século 8 -, o odor que permeia o ar durante as festas religiosas não é o de velas ou incenso. É o cheiro de haxixe. Nas noites de quinta-feira, o santuário, em Karachi, fica cheio de homens de solidéu e mulheres cobertas pelo véu islâmico que espalham guirlandas de flores sobre as lajes azuis do túmulo, entoando hinos ao som de tambores – enquanto os fiéis passam entre si cachimbos cheios de Cannabis sativa.

O mausoléu é um dos santuários mais importantes do sufismo – a vertente mística do islamismo que, com suas práticas excêntricas, desafia a imagem austera que o Ocidente tem do Islã. Em outras partes da Ásia Central, as festividades sufis envolvem não só o consumo de haxixe, como danças vertiginosas em que homens, mulheres e não muçulmanos se misturam em caóticos carnavais religiosos. A tolerância e o gosto pela perda coletiva de sentidos é um traço do sufismo desde seu surgimento, na Idade Média. Os sufis foram por séculos uma mistura de monges, santos, andarilhos, hereges, aventureiros e mendigos. Embora hoje a maioria dos adeptos se declare muçulmano devoto, os dervixes muitas vezes se defrontaram contra a sharia (lei religiosa islâmica) em sua busca pelo contato de primeiro grau com Deus. “Entre muitos intelectuais árabes, o sufismo é uma espécie de resistência à cultura oficial, à ortodoxia e à repressão do poder instituído”, diz Mamede Mustafá Jarouche, professor da USP e tradutor das Mil e Uma Noites para o português. “Os sufis praticavam o que em árabe se chama de batinismo – a crença interiorizada, a fé que está no âmago. Por isso, a ortodoxia islâmica muitas vezes os considerou heréticos.”

ÊXTASE MÍSTICO

Ao longo de sua história, os sufis pregaram não só a união entre o humano e o divino, mas também a convivência pacífica entre diferentes crenças. E de acordo com alguns relatos, deram outra contribuição à humanidade, sem a qual o mundo seria muito mais tedioso e sonolento: o café. Como você verá adiante, o espresso que bebemos todo santo dia surgiu como um anjo da guarda na busca do homem por Deus.

Não se sabe ao certo quem foi o primeiro sufi. Segundo lendas medievais, o sufismo começou no século 7, entre alguns dos primeiros seguidores de Maomé. Se os grandes líderes buscavam a criação de uma comunidade islâmica unificada – a umma -, os sufis preferiam a busca individual pela santidade. A marca dos primitivos dervixes era a opção por uma vida de simplicidade e meditação. Muitos vestiam-se apenas com túnicas de lã bruta – sinal de renúncia ao luxo e ao conforto. Em árabe, o nome desses trajes é suf – e daí surgiu a palavra tasawwuf, ou sufismo em português.

Desde o início, os sufis representaram um lado alternativo do Islã. Em vez da preocupação exclusiva com as leis religiosas, o essencial era o êxtase místico. “Quem conhece a si mesmo conhecerá Deus”, diz um antigo provérbio sufi. Outro ditado: “Um só minuto pensando sobre Deus vale mais que mil anos de orações”. Para os sufis, só Deus é real – o mundo que nos cerca é sonho e ilusão. Para se aproximarem da realidade verdadeira, muitos dervixes se retiravam para os desertos, vivendo como eremitas ou em pequenas comunidades. Atribuíam-se a eles milagres e proezas físicas. Alguns viviam como vagabundos e mendigos. Nesse e noutros aspectos, eram muito parecidos com os primeiros monges cristãos e com os faquires hindus.

O desprezo com que tratavam as convenções sociais os aproximava dos cínicos, filósofos gregos que renunciavam às hipocrisias da vida em sociedade. “Nos seus primórdios, o Islã encarava a diversidade de culto de forma pluralista, e, em muitos momentos, o sufismo transcendia os limites de sua própria religião”, diz o editor Sérgio Rizek, responsável pela publicação de clássicos do sufismo no Brasil. “Hoje, a religião sofreu uma guinada formalista, e existe a tentativa de sufocar a esfera da experiência pessoal, que escapa à sharia.”

Outra semelhança entre o misticismo sufi e o cristianismo é o culto de santos. A rigor, não existe canonização oficial no mundo islâmico – mas a aclamação popular, ao longo dos séculos, santificou muitos místicos sufis, cujos túmulos até hoje são visitados por milhares de pessoas.

EU SOU A VERDADE

As vidas desses santos formam um gênero à parte na literatura do mundo islâmico – com clássicos como o Memorial dos Amigos de Deus, escrito pelo persa Farid ad-Din Attar no século 12. As peripécias dos santos sufis, em muitos casos, remetem a outras religiões. É o caso de Ibrahim ibn Adham – místico nascido no atual Afeganistão, no século 8, cuja biografia tem semelhanças com a de Sidarta Gautama, o Buda. Ibrahim nasceu príncipe – sua família governava a cidade de Balkh ou Bactra – e renunciou ao poder após uma iluminação divina. Trocou seu manto dourado pela túnica de um pastor, passou o resto da vida peregrinando pelo Oriente Médio e – segundo os fiéis – realizando milagres.

O sufismo também tem um mártir crucificado: o persa Mansur Al-Hallaj, nascido no século 9. Após peregrinar à Índia e à China, onde entrou em contato com o hinduísmo e o budismo, foi viver em Bagdá, centro do mundo islâmico. Reuniu ao seu redor um grande grupo de seguidores – e levou tão a sério a união mística entre o humano e o divino que, durante um momento de transe, exclamou: Ana al-Haqq! (“Eu sou a Verdade”, em árabe). Al-Haqq, no entanto, é um dos noventa e nove nomes de Deus listados pelo Corão – por isso, Al-Hallaj foi acusado de heresia. Por ordens do califa Al-Muqtadir, foi amarrado a uma cruz às margens do Tigre. Em outras versões, ele foi queimado, após ser desmembrado a golpes de espada.

A partir do século 14, os sufis passaram a se organizar em confrarias, chamadas turuqem árabe e tariqat em persa. Muitas existem até hoje. Cada ordem sufi segue o ensinamento de um santo fundador – e as confrarias distinguem-se umas das outras pelas técnicas de meditação e contemplação. Além dos rituais muçulmanos – como as cinco preces diárias – os adeptos do sufismo praticam um rito especial, o dikhr. Em árabe, a palavra significa “lembrança” ou “invocação”. Praticada em grupo, geralmente ao som de tambores, flautas, sinos e outros instrumentos, a dikhr pode se resumir à repetição ritmada dos nomes de Deus. Em algumas confrarias, o ritual envolve danças – é o caso da ordem Mevlevi, da Turquia. Seus dervixes são famosos no mundo islâmico pela prática da sema – uma dança vertiginosa, em que os fiéis fazem giros de 360 graus ao redor do próprio corpo, durante vários minutos, ao som de músicas, hinos e versos do Corão.

Em algumas ordens, as técnicas de união com Deus são mais extremas. Em 1974, o antropólogo holandês Martin van Bruinessen frequentou cultos sufis no Curdistão – território habitado pela etnia curda na Síria, Turquia, Iraque e Irã. A experiência – descrita na obra Agha, Shaikh and State: On the Social and Political Organization of Kurdistan – contém cenas que, aos olhos ocidentais, podem ser chocantes ou inacreditáveis. Repetindo centenas de vezes a profissão de fé islâmica – la illaha illallah, “não há deus além de Deus” -, os dervixes entraram em um estado semelhante à hipnose, balançando as cabeleiras em movimentos circulares. “De repente, um deles se levantou num salto e apanhou um espeto com cerca de 40 cm de comprimento… Ajoelhou-se à minha frente e, abrindo bem a boca e jogando a cabeça para trás, enfiou o espeto na base da língua. Pressionou o cabo com força, até que a ponta apareceu embaixo do seu queixo”, escreve Bruinessen. “Cerca de cinco minutos depois, ele tirou o espeto da boca e fechou a ferida com o dedão. Não houve mais que algumas gotas de sangue. Poucos minutos mais tarde, ele estava tomando uma xícara de chá”.

Em rituais semelhantes, o antropólogo testemunhou sufis mastigando vidro, engolindo pregos, andando sobre espadas afiadas, bebendo inseticidas e agarrando fios elétricos – com direito a faíscas saindo das mãos. “Tudo isso era feito de forma brusca, sem preparação, e era evidente que não havia nenhum truque envolvido”, diz Bruinessen. Segundo ele, as automutilações não eram feitas como forma de mortificação ou tortura (os sufis pareciam não sofrer dor alguma), mas como demonstração de tawakkul – a confiança absoluta em Deus, um dos estágios mais elevados no “caminho místico” do sufismo.

Práticas como essas nem sempre são aceitas pelo Islã ortodoxo – até mesmo a dança dos dervixes mevlevi é considerada herética por alguns adeptos do salafismo, a vertente extrema da religião muçulmana (os talibãs do Afeganistão, por sinal, consideram qualquer música pecaminosa). Mas a prática que mais atraiu condenações foi o consumo de haxixe – hoje quase desaparecido no mundo islâmico, era um hábito comum na Idade Média. As bebidas alcoólicas são proibidas pelo Corão – mas o livro nada diz sobre substâncias como a Cannabis e seus derivados. Alguns historiadores árabes atribuíram a descoberta das propriedades alucinógenas da erva a um santo sufi, o persa Shayk Haydar. De acordo com textos medievais árabes, o dervixe teria colhido uma folha de haxixe durante um passeio por volta do ano 1115 do calendário cristão. Após mastigá-la, convenceu-se de que era uma dádiva divina e levou-a em segredo até seus discípulos: “Deus lhes deu o privilégio de conhecer os poderes desta planta”, teria dito Haydar, segundo um fragmento atribuído ao erudito egípcio al-Din al-Zarkashi, do século 14. “Quando a consumirem, suas preocupações se dissiparão e suas mentes ficarão mais nítidas. Cultivem essa planta e guardem seu segredo.”

PERSEGUIÇÕES

Os seguidores de Haydar passaram a cultivar haxixe – mas não guardaram o segredo. O haxixe se espalhou por todo o Oriente Médio. Era consumido de diversas maneiras: alguns tostavam suas folhas e as mastigavam com punhados de açúcar e gergelim, outros a usavam como ingrediente para tortas. Por fim, passou a ser fumada em cachimbos. Com o tempo, seu uso se tornou generalizado mesmo fora do sufismo. Mas a erva sempre ficou associada aos dervixes – tanto que um de seus apelidos medievais, em árabe, era “erva dos sufis”.

Outra inovação foi o hábito de beber qahwa – o café. De acordo com uma lenda, peregrinos teriam encontrado a planta em suas andanças pela Etiópia e Sudão. No século 14, o hábito de consumir os grãos de café se espalhou pelos mosteiros do Iêmen e do Egito. No início, os grãos de café eram mastigados. Depois, fervidos com água. Os sufis persas acrescentaram o último toque: os grãos passaram a ser torrados antes da infusão. Com o tempo, a beberagem passou a ser consumida em todos os países islâmicos. No século 17, foi levada à França por um embaixador do império otomano e logo passou a ser bebido por europeus ricos. Para satisfazer a sede europeia, o café passou a ser plantado nas Américas – eis como o misticismo islâmico influenciou a História do Brasil.

O haxixe e o café atraíram perseguições. Decretos religiosos proibindo o consumo da erva foram emitidos no século 13 no Oriente Médio.Em 1532, no Egito, beber café passou a ser crime passível de pena de morte. O haxixe desapareceu nos países de maioria muçulmana. Outras práticas também foram perseguidas – como o culto dos santos. Desde 2005, 209 pessoas foram mortas em atentados contra santuários no Paquistão. Especialistas garantem: acostumado a perseguições, o excêntrico misticismo sufi deve sobreviver à onda fundamentalista. “É uma pena que os radicais atraiam toda a atenção”, diz Nicholas Schmidle, da revista New Yorker. “O Talibã pode ter as armas, sim – mas o sufismo ainda tem as multidões.”

A EXPANSÃO DO SUFISMO

Não se sabe ao certo onde o sufismo surgiu, mas no século 8 o movimento já era forte desde o Egito até o Irã e a Ásia Central. Sua expansão para outras partes do mundo foi fácil. A tolerância religiosa pregada pelos dervixes transformou-o em um grande abre-alas do Islã. Para os sufis medievais, havia muitas rotas em direção a Deus. Um exemplo é o sufi indiano Shabaz Qalandar, do século 12, que pregou a convivência pacífica entre muçulmanos e hindus e atraiu seguidores de diversas religiões. O sufismo também entrou pacificamente entre as populações cristãs da Anatólia e do Cáucaso – regiões que acabaram se convertendo ao Islã por volta do século 13. O sufismo chegou até a China no século 17 – e até hoje é seguido entre a população da etnia uigur na província de Xinjiang, no noroeste do país. A tolerância dos sufis medievais em relação às crenças animistas africanas o tornaram popular em países como o Mali, a Somália e o Senegal. Hoje, contudo, o sufismo é perseguido em muitos países de maioria muçulmana. Na Arábia Saudita, onde o Islã nasceu, livros de autores sufis são proibidos. Na Somália, sufis já pegaram em armas contra o grupo fundamentalista Al-Shabab.

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