Home Mais Psicodelia Sexo químico: o que faz a pessoa só transar sob efeito de...

Sexo químico: o que faz a pessoa só transar sob efeito de drogas

Você já deve ter ouvido a expressão “sexo, drogas e rock and roll” como afirmação relacionada a uma vida desregrada e comportamento de liberdade e rebeldia. Eliminando o “rock and roll” da equação, eis a definição de um comportamento sexual alvo de preocupação de especialistas: o sexo químico, chemical sex ou chemsex, em inglês.

por Nathália Geraldo
no UOL

O termo significa transar sob o efeito de substâncias psicoativas — ou seja, que agem no sistema nervoso central — tanto para ampliar as sensações eróticas, quanto para que a relação sexual dure mais. Por essa razão, especialistas explicam que o comportamento é comum em festas sexuais ou sessões de sexo em grupo.

A prática coloca o indivíduo em situação de duplo risco, como explica o psiquiatra Saulo Ciasca, psicoterapeuta especialista em sexualidade humana, identidade de gênero e orientação sexual. “A pessoa está exposta tanto ao risco do uso da droga quanto a de ter sexo vulnerável”.

“Tesão aflora, experiência de êxtase”, diz publicitária

A publicitária Fernanda*, 31 anos, é adepta do uso de maconha e de LSD para transar com sua parceira, Paula*, assistente social, 34 anos. “Descobrimos isso por acaso, há uns três anos. Com a maconha, ficamos mais sensíveis ao toque e, assim, o tesão aflora”, explicou para Universa. “O doce (LSD) traz outra sensação: o corpo fica mais sensível, o sexo dura mais e temos uma experiência de êxtase, em transe mesmo”.

Ela descreve a mudança que sente em seu próprio corpo durante o sexo químico. “Sinto meus músculos muito mais relaxados com a cannabis. Já com o ‘doce’, eles ficam mais rígidos, então o contato entre a gente precisa ser um pouco mais forte”.

O chemsex é um comportamento sexual mais difundido fora do Brasil do que por aqui. O primeiro estudo sobre o tema, por exemplo, foi promovido pelo London School of Hygiene & Tropical Medicine, em 2014, do Reino Unido.

Primeiros estudos foram feitos entre homens gays e bissexuais do Reino Unido - CarlosDavid.org/iStock
Primeiros estudos foram feitos entre homens gays e bissexuais do Reino Unido Imagem: CarlosDavid.org/iStock

Na publicação, os pesquisadores apuraram inicialmente que o comportamento é mais comumente identificado em homens gays e bissexuais. Tratando o tema como caso de saúde pública, a entidade disse que a associação direta entre uso de drogas e transmissão do vírus HIV entre homens que se relacionam com homens pode ser “subjetiva”, mas levantou que “homens que usam uma variedade de drogas durante o sexo tem maior probabilidade de relatar o envolvimento em comportamentos de risco de transmissão do HIV do que os homens que não o fazem”.

Drogas, mistura com Viagra e ‘sexctasy’

Entre as drogas mais comuns, foram citadas a mefedrona, GHB/GBL (ou ecstasy líquido), cristal de metanfetamina, quetamina e cocaína. Todas são drogas psicoestimulantes.

Ecstasy (que, para os adeptos da prática, dá origem ao termo ‘sexctasy’), maconha e a mistura de drogas com Viagra — que pode levar a infarto fulminante, como pondera Saulo Ciasca — também são tipos de substâncias comuns entre praticantes do sexo químico, em busca de mais prazer.

Álcool em doses menores, para desinibir e despertar o desejo sexual, ou em doses maiores, “que podem debilitar a percepção de risco, gerar depressão, e em alguns casos, até problemas de ereção e dificuldade de orgasmo feminino e masculino”, diz Ciasca.

Por alterarem o nível de consciência e o funcionamento cognitivo da pessoa, há a associação dessa prática com os riscos de se fazer sexo desprotegido, explica o psiquiatra.

“Via de regra, todas acabam delimitando a percepção de risco da pessoa, que acaba se expondo a situações que a deixam vulnerável”, explica o psiquiatra. “Estamos falando de doenças, infecções sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, e também de componentes emocionais. As pessoas podem se machucar ao fazer coisas que, se estivessem sóbrias, não fariam”.

Saulo aponta ainda que o uso das substâncias psicoativas com Viagra é uma prática preocupante.

“Nenhum médico recomenda o uso de qualquer droga, porque, de fato, não é saudável. A junção da substância com o remédio, porém, pode provocar insuficiência cardíaca, infarto fulminante, arritmia. A pergunta que fazemos é: será que vale a pena usar mesmo assim?”.

Se o comportamento começou a ficar popular entre homens, hoje já se expandiu para experiências heterossexuais, segundo o psiquiatra Marco Scanavino, coordenador do Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e de Prevenção aos Desfechos Negativos Associados ao Comportamento Sexual, do Instituto de Psiquiatria da USP.

“Ao praticar sexo químico, a pessoa pode desenvolver uma preferência muito forte por fazer sexo sob efeito da droga, e começa a ter dificuldade de se engajar na relação sexual sem o uso disso”.

Há vários fatores relacionados ao comportamento sexual de risco, baseados nos estudos iniciais. “Há uma associação a pessoas que tenham sofrido abuso sexual na infância, que tenham elevados níveis de homofobia internalizado e que apresentem sintomas de depressão”, detalha Scanavino.

Sexo sóbrio

'Chemsex' pode expor praticantes a relações sem uso de preservativo - ComicSans/iStock
‘Chemsex’ pode expor praticantes a relações sem uso de preservativo Imagem: ComicSans/iStock

Preocupada com a popularização do chemsex entre pessoas da comunidadade LGBT, a Fundação LGBT, em Manchester, do Reino Unido, promove campanha de conscientização sobre redução de riscos entre os participantes e incentivo à prática do sexo sóbrio.

Entre as orientações de redução de risco para quem quer fazer sexo químico estão:

  • Ser assertivo a respeito do uso de preservativo na relação sexual;
  • Não compartilhar agulhas para injetar drogas, para evitar a transmissão de vírus HIV e outros vírus;
  • Tomar Prep (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV);
  • Fazer regularmente teste para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

Fazer sexo sóbrio, de acordo com a entidade, nem sempre é fácil para quem praticou o chemsex por muito tempo. Nesse caso, as dicas são:

  • Identifique seus gatilhos, lugares e pessoas que se associem ao desejo de usar drogas/álcool;
  • Explore o sexo por conta própria, pensando sobre o tipo de sexo que deseja e o que não deseja;
  • Fale sobre sexo em conversas sóbrias, escreva sobre sexo e se comunique com o parceiro sobre o tema;
  • Seja gentil e dê tempo para que a ‘transa sóbria’ se torne um costume na sua vida sexual.

*Os nomes da entrevistada e da parceira foram trocados por nomes fictícios, a pedido da fonte.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Ultimos posts

Fabricação e venda de derivados da cannabis entram em vigor no país

Entra em vigor hoje a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que regulamenta a fabricação, importação e comercialização de produtos derivados da...

“Maconha é coisa de velho”, diz Fernando Henrique Cardoso

No Brasil só não enxerga o que acontece quem não quer. A maconha ou as drogas mais pesadas não estão apenas na favela, mas...

Alerj aprova pesquisa e cultivo da maconha medicinal no Rio

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou a realização de pesquisa e cultivo científico da maconha por associações de pacientes. A votação,...

10 universidades pelo mundo que oferecem cursos focados em maconha

A maconha medicinal vem ganhando espaço em diversos lugares do mundo. De olho nisso, algumas universidades estão buscando capacitar seus estudantes para trabalhar no...

Se eu quiser fumar, eu fumo

Dizem por aí que coisa alguma acontece por acaso. Aliás, que o próprio acaso é algo irreal — mesmo que nós ainda não sejamos...