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Percepção dos profissionais de Saúde sobre Maconha

Como o histórico de uso de drogas ou a instituição em que presta serviço modificam a opinião de profissionais da saúde sobre o uso de cannabis

Alunos da Universidade de São Paulo (USP) publicam estudo sobre como se dá a percepção dos médicos e profissionais de saúde mental brasileiros a respeito da cannabis e seus usos. De acordo com o resumo da obra, “a percepção sobre a maconha entre profissionais de saúde mental é desconhecida no Brasil. Este estudo teve como objetivo comparar padrões de percepções e de conhecimento sobre maconha entre profissionais da área da saúde mental em três instituições de diferentes perfis”.

O trabalho conseguiu concluir que “a percepção sobre a maconha entre os servidores da saúde mental varia de acordo com a profissão e o local de trabalho”.

Entre os principais resultados, foi percebido que “psiquiatras tendem a discordar mais que os outros profissionais quanto à necessidade de tratamento para o uso de maconha e que a maconha traz prejuízos cognitivos”. Eles notaram também que os profissionais de uma instituição de encaminhamento religioso como o Hospital Nossa Senhora de Fátima “apresentam percepção mais favorável à proibição da maconha e valorizam mais os possíveis prejuízos associados ao uso quando comparados aos profissionais das outras duas instituições”, apresentaram.

Os alunos são da Faculdade de Medicina da USP, lotados no departamento de Fisiopatologia Experimental e de Psiquiatria. São eles, Patrícia Cruz, Luciana Cardoso e André Malbergier. Obrigado por escolherem estudar sobre o assunto e colaborarem brilhantemente com o avanço acadêmico nacional sobre a planta.

Introdução Completa

Atualmente, a maconha é a droga ilícita mais usada no Brasil e no mundo. Segundo relatório do órgão das Nações Unidas responsável pelo tema drogas, disponível em 2015, em torno de 181 milhões de pessoas (3,8% da população mundial entre 15 e 64 anos) usaram maconha no ano anterior à pesquisa1.

No Brasil, de acordo com o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, 7% da população adulta já haviam experimentado maconha na vida. No ano anterior à pesquisa, 3% da população haviam utilizado a droga. Quanto ao uso na adolescência, o estudo mostrou que 4% da população dessa faixa etária já haviam usado maconha pelo menos uma vez na vida. O uso no último ano foi relatado por 3% deles. Ainda segundo esse estudo, mais da metade dos usuários, tanto adultos quanto adolescentes, relataram consumir maconha diariamente2.

Nos EUA, onde o uso da maconha medicinal está cada vez mais difundido, a opinião médica sobre o assunto certamente foi alterada.

Em outra pesquisa com estudantes universitários no Brasil, os relatos de uso de maconha na vida, no último ano e no último mês foram de 26,1%, 13,8% e 9,1%, respectivamente3.

A maconha vem sendo alvo de debates calorosos sobre questões legais, políticas, sociais, médicas e terapêuticas no Brasil e em vários países do mundo46. Alguns países já descriminalizaram seu consumo7 ou a utilizam para fins terapêuticos. O Uruguai foi o primeiro a legalizar e legislar sobre o plantio, comércio e consumo da droga8.

O debate sobre o tema também vem gerando interesse crescente em estudar os potenciais prejuízos à saúde associados ao consumo de maconha. Os estudos na área destacam os prejuízos nas áreas psiquiátrica9(transtornos ansiosos, depressivos e psicóticos) e cognitiva10.

Apesar das evidências desses prejuízos, as percepções sobre o uso de maconha e suas consequências variam muito entre profissionais da área da saúde. Essa percepção tem grande importância, já que eles são responsáveis por participar da elaboração de políticas públicas, pelas intervenções terapêuticas e possíveis aconselhamentos11.

O número de estudos sobre as percepções e opiniões dos profissionais de saúde sobre o tema não parece refletir a sua importância. Muito poucas pesquisas sobre o tema foram publicadas.

Em um estudo pioneiro, na década de 1970, 45 médicos foram entrevistados e a opinião que prevaleceu foi a de que a maconha e o álcool são as drogas que acarretam menor prejuízo. Por outro lado, quando questionados sobre consequências psiquiátricas, a maconha foi considerada mais perigosa que o tabaco. Apesar disso, 71% não acreditavam que a maconha causasse psicose. Na opinião dos médicos entrevistados, a maconha seria uma droga que apresenta prejuízos nos aspectos social e psicológico, porém não seria alvo de grandes preocupações quando comparada às outras drogas12.

Outra pesquisa, realizada mais recentemente, com 303 médicos psiquiatras da universidade da Califórnia e clínicas afiliadas, mostrou que os médicos mais jovens, que já fizeram uso de álcool, tabaco e tranquilizantes, menos religiosos e politicamente mais liberais não viam problemas no uso da maconha e apoiavam a legalização. Por outro lado, os médicos mais conservadores apoiavam a sua criminalização13.

O fato dos médicos com diferentes características sociodemográficas terem diferentes opiniões pode indicar que elas podem estar mais baseadas em aspectos pessoais do que em conhecimentos técnicos.

No cenário atual de debates sobre a maconha e levando em consideração a existência de pouquíssimos estudos internacionais e a ausência de pesquisas no Brasil sobre esse tema, esta pesquisa visa avaliar a percepção sobre a maconha entre profissionais da área de saúde mental em três instituições de diferentes perfis na cidade de São Paulo, Brasil.

Nossa hipótese é de que fatores sociodemográficos e institucionais influenciam a percepção dos profissionais de saúde mental sobre maconha.

Principais Variáveis

Foi muito interessante perceber quais as principais variáveis modificam a opinião médica sobre a cannabis. Eles observaram, por exemplo, que o fator idade não influi muito na diferença entre opiniões. Já “profissionais com filhos” tendem a “concordar mais com a afirmação de que o uso de maconha pode ser objeto de busca de tratamento.

Aqueles que já tiveram contato com o uso de drogas são, de fato, aqueles parecer tem as respostas mais favoráveis e liberais quanto ao uso da erva. O que mostra, em números, que “o monstro é muito mais feio para quem nunca o viu”, ou seja, o preconceito é maior em quem não sabe o que é a cannabis.

E você, já conversou com o seu médico sobre maconha?

Um ponto importante do estudo é a análise cuidadosa que promovem em relação ao usuário de ganja, buscando compreender a essência do maconheiro. “No caso específico da maconha, os dependentes dessa droga têm algumas particularidades quando comparado aos outros dependentes. Eles mostram maior nível de ambivalência quanto aos prejuízos da droga e menor motivação para mudanças de comportamentos, além de referirem ter menos necessidade de tratamento. Quando eles têm contato com os profissionais de saúde, a abordagem destes mostra-se ainda mais importante para atraí-los para tratamento e estimulá-los a ter cuidados com sua saúde”, lembraram.

Ou seja, é primordial que o profissional de saúde esteja bem amparado para saber como lidar com informações sobre a maconha. De outra forma, o embate entre ideias do profissional de saúde e seus pacientes pode dificuldade, e muito, o próprio serviço de saúde.

Conclusões

“Este estudo evidencia que a opinião dos profissionais de saúde sobre a maconha e consequentemente sobre o usuário pode ser influenciada por variáveis pessoais como as sociodemográficas. Tal influência pode aumentar a chance de abordagens inapropriadas, gerando risco de prejuízos aos pacientes”, concluíram, em publicação no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, em dezembro de 2018.

Você pode acessar o estudo completo, clicando AQUI.

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