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O Segredo do Cânhamo

Fibra e sementes da maconha podem fazer papel, corda, tecido e até óleo combustível

por Cadu Oliveira / Ilustração: Felipe Navarro

Quando o maconheiro começa a falar sobre a versatilidade da planta Cannabis pode até parecer exagero. Mas acontece que, de fato, além dos usos medicinais e recreativos, a planta tem potencial industrial variado. Tudo isso porque na família tem uma matéria-prima bem versátil, mas pouco difundida entre o conhecimento popular. Hoje vamos falar sobre o cânhamo.

Trata-se da fibra extraída da cannabis. A substância é capaz de fazer tecidos, cordas, papel. Além disso, sua semente pode produzir alimento, combustíveis, resinas, cosméticos e óleos.

Os mais céticos e caretas podem logo perguntar: mas se é tão bom, porque não usam? E a resposta correta seria: Já usaram. Demais. Estima-se, por exemplo, que o cultivo de cânhamo em Portugal começou pelos idos do século XIV, justamente porque a fibra da cannabis foi matéria prima fundamental para a preparação do cordame de cabos e velas necessário para o advento das grandes navegações.

A prática de cultivar o cânhamo era tão comum para Portugal que a Coroa chegou a exigir que fossem criadas produções locais nas colônias. Isso resultou a criação da Real Feitoria do Linho Cânhamo no Brasil. Instalada a mando de Marquês de Pombal, então primeiro ministro do Império português, tem data de inauguração imprecisa, mas marcada por volta de 1783. O estabelecimento trabalhou (sob o regime de escravidão da época) e persistiu até 31 de março de 1824, ou seja, há exatos 195 anos atrás, o Brasil deixava de produzir a fibra.

Hoje em dia, uma simples busca pelo termo “cânhamo” no Mercado Livre pode render mais de 400 resultados de produtos feitos com esse material. Sua relevância no cenário da moda está crescendo a cada ano. Atualmente, o maior produtor do mundo é a China, seguido da França e Chile. No entanto, muitos outros países como Reino Unido, Canadá, Rússia e Espanha também mantem seus campos estratégicos de produção da fibra mais resistente do mundo.

Em 1941 o empreendedor visionário estadunidense Henry Ford concluiu o projeto do Hemp Body Car. Fruto de 12 anos de pesquisa, o carro era feito totalmente com um material plástico feito de cânhamo. E mais, o motor recebia energia através de um combustível a base de etanol de cânhamo, refinado com as sementes da cannabis.

“Por que utilizar as florestas que demoram séculos para crescer, e as minas que necessitam eras para se estabelecer, se nós podemos conseguir uma produção equivalente à das florestas e das minas com o crescimento anual dos cultivos de cânhamo?”, se perguntou o criador da gigante Ford, em meados do século passado. Mas se é tão bom, porque a gente não está dirigindo em carros de maconha, com combustível de hemp por aí?

Acontece que em 1937, enquanto o projeto ainda estava sendo realizado, o cultivo de cânhamo se tornou proibido em todo os EUA, juntamente com o primo hippie THC. Com isso, se tornou impraticável pensar um modelo de negócio industrial tendo como base uma matéria prima proibida. Em 2017 o investidor Bruce Dietzen mostrou ao público seu próprio carro feio de fibra de maconha. Ele chama o modelo de o “primeiro veículo carbono negativo do mundo”, já que até mesmo o combustível é a base de material vegetal. Parece resistente, veja só:

No total, Bruce investiu 200 mil dólares para ver a ideia sair do papel. No entanto, mesmo com todo investimento e beleza do protótipo, é necessária uma legalização a nível federal para que o cânhamo possa virar parte integral da indústria automotiva.

Maconha muito além da Fumaça

Estima-se que um hectare de cânhamo é capaz de produzir o mesmo que quatro hectares de eucalipto. No entanto, enquanto o tradicional leva anos para atingir a idade útil, a fibra da cannabis pode ser colhida em até três meses.

De acordo com cada strain (ou, em português, variedade) de maconha há como obter diferentes concentrações de THC. O tipo de maconha de onde se pode retirar o cânhamo, portanto, pode conter baixíssimas quantidades de teor psicoativo, ou seja, é possível produzir maconha que dê onda, mas dá papel, óleo, tecido, corda e etc.

A fibra do cânhamo pode ser até cinco vezes mais resistente que o algodão. E antes que que alguém pergunte porque não estamos vestidos com maconha, é preciso alertar sobre a ideia da “obsolescência programada” que atingiu também o universo das roupas. Porque a fábrica faria uma blusa para durar décadas se a opção menos durável é que vai demandar mais reposições?

Mas acontece que um segredo não pode ser guardado para sempre. Então, o que parece, é que a tecnologia de hemp é algo destinado ao futuro das grandes potências mundiais. Não à toa são elas que estão encabeçando o movimento de mudanças e gradativa legalização da maconha, cânhamo e toda família.

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