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O que é o sistema endocanabinóide?

Hoje sabemos que a maconha é uma espécie de chave, que abre um minúsculo equipamento de células espalhadas pelo nosso corpo inteiro e bota para funcionar essa engrenagem

Israel é um país cheio de lugares sagrados, que atraem peregrinação. Por exemplo, em Jerusalém, em meio aos corredores labirínticos do Hospital da Universidade Hebraica, fica uma salinha pequena, entulhada de livros, onde, aos 89 anos, o químico Raphael Mechoulam segue trabalhando todos os dias. Fui lá numa manhã de quinta-feira, juntar-me à aglomeração de médicos, cientistas e ativistas do mundo inteiro que todos os dias se enfileiram em frente a sua porta em busca de conselhos, palavras de sabedoria, apoio e, quem sabe, uma selfie.

por Denis Russo Burgierman*,
na Época

Antes de Mechoulam, ninguém sabia absolutamente nada sobre como a maconha agia. Havia uma tese, meio absurda, de que ela tinha um efeito “não específico” — não agia num lugar definido do corpo, apenas espalhava mal-funcionamentos onde tocasse. Era um “tóxico” — uma substância que dá uma envenenada em tudo ao seu redor. Foi esse pensamento que deu fôlego para teorias inventadas, como a de que maconha matava neurônio. Fazia sentido: se é um veneno, deve matar.

Hoje, em grande medida graças a mais de meio século do trabalho de pesquisa de Mechoulam, sabemos que não é nada disso. A maconha não é um veneno que incapacita — ou mata — as células. Ela é uma espécie de chave, que abre um minúsculo equipamento de células espalhadas por nosso corpo inteiro e bota para funcionar um negócio chamado sistema endocanabinoide.

Esse sistema é uma das coisas mais importantes de nosso organismo — do organismo de todos nós (não só dos maconheiros). Os especialistas estão percebendo que ele é um ajuste fino das nossas células, presente no corpo inteirinho, em especial nos lugares onde as coisas mais complexas são feitas: o cérebro, o sistema imunológico, os nervos. Sua ação é muito complicada, e também muito sutil — opera num nível para lá de microscópico. Mas parece claro que seu papel é fazer microajustes nas coisas — modulação, como dizem os cientistas. A longo prazo, modular é fundamental para continuarmos vivos — é o que evita que os pequenos desajustes aos quais estamos todos sujeitos cresçam como bolas de neve e acabem nos matando.

O químico Raphael Mechoulam, em 2000 Foto: Dan Porges / Getty Images
O químico Raphael Mechoulam, em 2000 Foto: Dan Porges / Getty Images

Também no laboratório de Mechoulam, nos anos 80, descobriu-se que várias de nossas células, não só as do cérebro, possuem receptores — fechaduras — que são abertas pela chave química do THC. A partir daí, a ciência foi deparando com um imenso iceberg escondido abaixo da superfície. Ao estudar receptores acionados pelo THC, grupos de pesquisa do mundo todo foram percebendo que, além do THC, há centenas de substâncias que acionam esses receptores, várias delas presentes na Cannabis (como o CBD, também isolado pelo grupo de Mechoulam), e outras produzidas por nosso próprio corpo, como é o caso da anandamida (descoberta adivinha no laboratório de quem), nossa maconha interior.

O campo científico inaugurado por Mechoulam hoje é vastíssimo e vive um momento de grande empolgação. Há milhares de cientistas no mundo inteiro tentando entender a ação do sistema endocanabinoide. Tudo indica que sua capacidade de modulação esconde o segredo de — prepare-se para isso — todas as doenças crônicas que nos afligem. Afinal, doenças crônicas são problemas de modulação. Câncer é multiplicação celular desmodulada, doença autoimune é sistema imunológico desmodulado, depressão, ansiedade e tudo mais de crônico entre nossas orelhas é ação cerebral desmodulada, doenças neurodegenerativas são morte cerebral desmodulada, dor crônica é dor desmodulada, e posso continuar por muitos parágrafos.

Veja bem, não estou dizendo aqui que a maconha seja necessariamente remédio para todas essas doenças — nem que o uso equivocado de maconha não possa desmodular, em vez de modular. Mas parece evidente que o sistema endocanabinoide está no centro de basicamente todas as doenças que ainda nos preocupam no século XXI. E também que estamos tratando errado boa parte dessas doenças — tentando lidar com seus sintomas, com remédios que acabam causando outros problemas, em vez de lidar com a causa, que é modulação. Isso é bem incrível, considerando-se que até outro dia nem sabíamos que esse sistema existia. A maioria de nós nem o estudou na escola, de tão recente que sua descoberta é. Mesmo entre os médicos, há muitos que não têm ideia do que se trata — os mais desinformados dizem que esse negócio nem existe. É curioso que só tenhamos descoberto sobre esse sistema tão fundamental e tão sutil por causa de uma planta que, ao longo de milênios de evolução, encontrou a chave dessa nossa porta secreta.

Tenho encontrado muita gente pelo mundo que está cultivando linhagens específicas deCannabis em casa, escolhidas sob medida para a modulação da qual necessitam. Em Israel, por exemplo, visitei uma sobrevivente de câncer cujo caso é inacreditável para os médicos, e que comanda seu próprio tratamento a partir de um vasto jardim. Em São Paulo, pretendo ir nos próximos dias à casa de um paciente de esclerose múltipla, grande produtor de cannabis, que usa para extrair óleos ultraconcentrados, com resultados dos quais os médicos igualmente desacreditam. Outros modulam seu humor, sua cognição, sua ansiedade, sua atenção. Alguns cientistas estão sonhando com um futuro no qual há informação abundante sobre como modular o sistema endocanabinoide, e cada pessoa sente-se capacitada para cuidar de sua própria saúde, com orientação de profissionais cujo foco é dar autonomia para os pacientes.

Mechoulam torce o nariz para esse sonho. Ele não defende a maconha, não acha que a Cannabis guarde milagre algum, não embarca na empolgação com as coisas que ele próprio descobriu. “É só uma planta”, ele me diz. E é por frases como essa que tanta gente peregrina à sua sala minúscula, em Jerusalém.

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