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Museu, Jantar e muito mais: Maconha no Uruguai

Morar no Uruguai e cruzar com turistas nas ruas é ter a certeza de que, em algum momento, terei de responder uma pergunta que é feita por dez entre dez visitantes: “como faz pra comprar maconha?”

“Então, veja bem?”. É assim que começo a resposta, seguida por uma explicação que, com o tempo e a prática, fui aperfeiçoando: “Turista não pode comprar maconha de forma legal aqui. O modelo de legalização é voltado para a população do país. Só quem é cidadão ou tem residência permanente pode adquirir maconha nas farmácias ou clubes canábicos”.

por Fabiana Maranhão
no UOL

Pense numa dó que dá ao ver as caras de decepção! Recentemente, me dei conta que é possível, sim, curtir a vibe canábica do Uruguai, mesmo sem poder comprar maconha legal. Claro que dá conseguir “porro” (como chamam aqui o baseado) no mercado clandestino, assim como no Brasil ou em qualquer outro país. Mas a ideia deste texto é mostrar outras formas interessantes de desfrutar da “brisa” uruguaia.

“Te invito”

Montevidéu cheira a uma mistura de ervas. O mate e a maconha, que têm em comum o fato de serem consumidas de forma coletiva. Difícil visitar o país e não ser convidado a tomar um gole de mate ou um trago de maconha.

Também acontece de gente daqui ir além de um “te invito” e chegar a presentear os turistas com algumas gramas da droga. Lembro de uma vez que um amigo fez um mix de indica e sativa (as duas espécies de maconha) e deu de presente a um casal de argentinos que se hospedou na minha casa via Airbnb.

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Museu da Maconha dá uma panorama da história da planta e de sua versatilidade de usosImagem: Fabiana Maranhão/UOL

O ato de compartilhar maconha não é considerado ilegal, já que não envolve dinheiro. Segundo a legislação, o Estado uruguaio detém o controle da produção, distribuição e comercialização da droga.

Para consumir legalmente a cannabis, existem três possibilidades: comprar em farmácias credenciadas, cultivar em casa, com limite de até seis pés da planta, ou fazer parte de um clube canábico, organização civil que tem autorização para produzir e distribuir maconha entre seus sócios. Em todos os casos, é preciso ter mais de 18 anos e fazer um cadastro.

Museu da maconha

Apesar de viver há quase dois anos no Uruguai, só recentemente visitei o Museu da Maconha, exatamente para escrever esta matéria. Cheguei a ser praticamente vizinha do espaço durante quase um ano, mas nunca me animei a ir.

Quem me guiou foi o idealizador e diretor do espaço, o engenheiro agrônomo Eduardo Blasina, que inaugurou o museu no fim de 2016 na mesma casa onde morou. Além da riqueza histórica, o museu expõe a versatilidade da planta.

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O agrônomo Eduardo Blasina montou em Montevideu em sua antiga casa o museu local da maconhaImagem: Fabiana Maranhão/UOL

“A planta serve como alimento, para fazer tecido, papel, plástico biodegradável. É uma planta que tem tantos usos que é até difícil de imaginar. Em geral, as pessoas só conhecem a cannabis como droga, que é uma visão muito simplista. Como sou agrônomo e gosto muito de plantas, queria mostrar que a cannabis era uma planta como tantas outras e que não há uma planta que seja ‘má’ e que tenha que ser proibida. Temos que conhecer as plantas e aprender a usá-las”, defende.

Como forma de mostrar isso, Eduardo montou na parte de trás do museu uma espécie de jardim botânico, com exemplares de vários tipos de planta, inclusive da cannabis. “Este não é um lugar para gente que fuma maconha; é um lugar para que quem fuma se sinta igualmente respeitado a quem não fuma, mas quer ter informações”.

O museu recebe em média 250 visitantes por mês, a maioria do Brasil. Uma das perguntas mais frequentes feitas pelos brasileiros é se o museu vende maconha. A resposta: não.

Restaurante canábico

No começo de abril, soube que tinha sido inaugurado havia poucos dias em Montevidéu o primeiro restaurante canábico do país, o Canna Burgers Drinks ou CBD, que também é a sigla para o canabidiol, um dos princípios ativos da cannabis. Pesquisei sobre o assunto e, mesmo sabendo que o CBD não dá “barato”, como ocorre com o THC (tetra-hidrocarbinol), componente da planta que é responsável pela “brisa”, fui ao local muito curiosa para saber o efeito que iria causar em mim.

Fui recebida pelos donos, Leandro Abelenda e Christian Scaffo, que me explicaram que, apesar de todas as comidas e até bebidas vendidas no restaurante levarem semente de cânhamo, planta da mesma espécie que a da maconha, a cannabis sativa, mas que possui um índice baixíssimo de THC, eu iria sair dali assim como entrei: sóbria.

Experimentei um suco de laranja, tangerina e gengibre adoçado com uma espécie de xarope feito à base de cânhamo e um sanduíche vegetariano que também levava a semente, tanto no hambúrguer quanto no pão. Como dizem aqui, a comida estava “muy rica”, mas nada de me deixar “alta”.

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Leandro Abelenda e Christian Scaffo abriram uma hamburgueria que usa e abusa do cânhamoImagem: Fabiana Maranhão/UOL

No lado de fora, os donos me convidaram para fumar um “porro” enquanto conversávamos. Eles contaram que a ideia do restaurante é uma continuação do trabalho que já fazem envolvendo a cannabis. Há cerca de um ano e meio eles criaram um clube canábico familiar, que se expandiu e hoje é uma organização com mais de 40 sócios.

Admirador das propriedades do cânhamo, Christian desenvolveu todas as receitas do cardápio do restaurante, que inclui sanduíches, sucos, milkshakes, brownies e cookies, tudo feito com a semente que ele chama de “a princesa das proteínas vegetais” por causa de suas propriedades.

“[Cozinho com cânhamo] pelos benefícios que ele tem: faz a pessoa se sentir bem, é cheio de proteínas, ômega 3, 6 e 9. É um ingrediente muito saudável e que traz muitos benefícios para a saúde”, defende Christian. Para que não reste dúvida, na parede do local, os sócios colocaram informações sobre as vantagens do cânhamo: rico em fibras, fonte de proteína vegetal, antioxidante e antiinflamatório.

“Está provado cientificamente que o CDB te faz feliz, te deixa mais tranquilo. A pessoa sai daqui com a barriga cheia e um pouco mais feliz”, dizem os sócios, aproveitando para fazer propaganda do espaço.

Erva-mate com cannabis

Para me concentrar enquanto digito este texto, bebo mate com cannabis. Já tinha ouvido falar dessa combinação, mas nunca havia experimentado.

Comprei 1 kg da erva (não havia em menor quantidade) de uma marca chamada Abuelita (‘vovozinha’ em português) em um grande supermercado de Montevidéu, na sessão onde há dezenas de marcas e tipos. Também é possível encontrar mate com cannabis em mercados de bairro.

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Versões de erva mate com cânhamo são vendidas em cadeias de supermercado e mercadinhos de bairroImagem: Fabiana Maranhão/UOL

A erva é saborosa e menos amarga, como costuma ser, em geral, o mate uruguaio. Depois de um tempo, comecei a me sentir mais “acordada” e focada, mas não eufórica. E a “lombra”? Nada. Isso porque a cannabis adicionada à erva é o cânhamo, que não tem efeito psicoativo. Caso contrário, não poderia ser comercializado no país porque a lei uruguaia proíbe a venda de alimentos e bebidas com maconha.

Um curso chapado de culinária

No Uruguai, não dá para comprar, de forma legal, comida feita com maconha, mas é possível aprender a como fazer em casa. Cursos e oficinas são oferecidos no país, tanto para grupos quanto de forma individual.

Participei de uma das aulas de um curso de culinária canábica de quatro semanas ministrado pelo chef Bruno Bukoviner, que ensina a cozinhar com maconha desde 2012. A turma era formada por cerca de 20 pessoas, entre homens e mulheres, jovens e também senhorinhas.

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O chef Bruno Bukoviner ensina há sete anos como usar a maconha nas mais variadas receitasImagem: Fabiana Maranhão/UOL

Antes de começar a aula, alguns alunos compartilharam com o grupo bolos e doces que haviam feito em casa, alguns produzidos com maconha, outros não. Experimentei um pouquinho de cada coisa, inclusive de um bolo canábico. Depois de cerca de 30 a 40 minutos, comecei a me sentir meio viajandona.

E foi assim que acompanhei parte da aula, na qual o chef ensinou o passo-a-passo de receitas doces. Todas elas são baseadas na manteiga canábica ou extrato obtido usando álcool. “O mais básico é aprender a extração dos canabinoides da planta, usando uma gordura ou álcool, para poder incluir na comida. Tendo cuidado com a temperatura e o tempo de cocção, é possível incorporar a cannabis em qualquer receita, incluisive brisadeiro. “Os canabinoides são substâncias presentes na planta, sendo o mais conhecido o THC.

Em suas aulas, o chef sempre chama a atenção para o cuidado que se deve ter com a dose usada para cozinhar, que vai variar tanto de receita para receita quanto em relação à pessoa que vai consumi-la. “A ideia é que a pessoa coma e sinta que ‘pegou’ de forma agradável, e não que passe mal, vomite”.

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Não é só gergelim e molho especial que esse sanduíche tem: cânhamo faz parte da receitaImagem: Fabiana Maranhão/UOL

Além do cuidado para não exagerar na quantidade de maconha na receita, Bruno dá outra dica: comer aos pouquinhos. “[Quando comemos] demora para fazer efeito, e dura muito mais tempo que fumar. Leva entre 20 minutos e duas horas para começar a fazer efeito, que pode durar até quatro ou cinco horas”. Se soubesse disso antes, certamente não teria passado mal, há uns meses, quando comi, de uma vez só, uma fatia grande de bolo canábico e, há uns anos, várias colheradas seguidas de “brisadeiro”. Preste atenção e tente fazer a receita abaixo:

Receita de manteiga canábica

Ingredientes:
10 gramas de flores de maconha
200 grama de manteiga
1 litro de água

Modo de fazer:
Escaldar as flores em água quente
Colocar as flores em banho maria junto com a manteiga e a água
Aquecer por 30 minutos em uma temperatura que supere 60°C, mas sem ultrapassar 75°C (controlar usando um termômetro de cozinha), mexendo de vez em quando
Coar usando primeiro uma peneira e depois um pano até tirar todo o líquido
Colocar na geladeira até que a manteiga se separe da água
Retirar a camada de manteiga e conservá-la na geladeira ou no frezzer por até um ano

Jantar canábico

Se você acha que não leva muito jeito para cozinhar ou simplesmente não quer ter que fazer sua própria comida com maconha, uma opção é participar de jantares canábicos promovidos por cozinheiros e cozinheiras que recebem gente em suas casas ou vão até a casa das pessoas para cozinhar.

Conheci a cozinheira paranaense Marcela Ikeda em uma feira gastronômica em Montevidéu. Só tempos depois soube que ela, entre outras coisas, promovia jantares canábicos.

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Esse brownie é feito com uma manteiga elaborada com flor da cannabisImagem: Fabiana Maranhão/UOL

Nos tornamos amigas, e recentemente ela me convidou para um jantar em sua casa, um apartamento antigo na Ciudad Vieja, bairro histórico da capital uruguaia, que ela batizou de Casa Larica. É nesse espaço onde ela mora e também recebe amigos e clientes para viver “experiências gastronômicas”.

A noite começou com música, vinhos, batatas rústicas com maionese de tougarashi (sete pimentas japonesas) e caponata com torradinhas de pão caseiro com manteiga canábica. Depois de muitas risadas e conversas, veio uma lasanha vegetariana de berinjela com pomarola caseira e bechamel (sem cannabis). E, por fim, de sobremesa, um brownie de biscoito Oreo, creme de amendoim e maconha.

Lembro de ter comido a fatia de brownie com um certo receio. Depois de quase uma hora, comecei a sentir o corpo todo relaxado e fiquei um pouco aérea, justo quando já estava indo embora. Fui para casa e tive um sono tranquilo e profundo.

O cardápio dos jantares que Marcela promove varia, mas o brownie está sempre presente. “Foi por onde eu comecei a cozinhar com cannabis”. Marcela lembra que o primeiro bolinho que fez foi com “prensado” (maconha forte, de qualidade duvidosa, produzida no Paraguai).

“Foi assim por um bom tempo. Eu vendia na praça, no parque. Aí comecei a ter acesso a flores [de cannabis], a estudar para fazer um brownie melhor. Então passei a fazer outras coisas e, do nada, organizei um jantar canábico. Comecei a fazer jantares na minha casa, como o que você foi, e agreguei a cannabis”.

Nem todos os jantares que Marcela organiza, seja na Casa Larica ou em outros lugares, são canábicos, mas o prazer que ela sente é parecido. “O que mais gosto é ver pessoas em volta da minha mesa, comendo felizes, conversando e se conhecendo. O dinheiro é massa também, mas, de verdade, é isso que me move”.

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