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Marcha da Maconha supera atos pró Bolsonaro nas ruas

Movimento popular pela legalização da maconha ganha as ruas de norte a sul do país e supera (e muito!) os atos pró-governo

por Cadu Oliveira
Ilustração: Felipe Navarro

Porque será que as mídias tradicionais anunciam a Marcha da Maconha de São Paulo dizendo “centenas” de manifestantes? Em verdade, o evento é gigante e foi muito maior do que os atos a favor do presidente Bolsonaro, embora não tenha tido a mesma repercussão midiática.

A sorte é que as próprias ruas se encarregam de registrar e distribuir suas atividades. Sendo assim, não há como negar nem calar a força desse movimento. Quem se reuniu à manifestação no vão do MASP, no último sábado dia 1 de junho, percebeu que a multidão passou fácil de centenas de pessoas.

“Foi a primeira vez que fui para a Marcha da Maconha de São Paulo. Nunca tinha visto tanta gente reunida para alguma manifestação desde quando lutamos contra o aumento da passagem em Porto Alegre. Eram milhares de pessoas de todas as partes do Brasil. Pessoas de todo o tipo! Jovens, idosos, mães e pais com seus filhos, gente descolada, gente engravatada. Mas apesar da grande quantidade de canais do YouTube e novas mídias, a mídia tradicional não deu as caras, ou pelo menos não vi nenhuma cobrir a Marcha”, avaliou Felipe Navarro, militante, desenhista e ilustrador do CannabiComix.

Com o passar dos anos, a Marcha de São Paulo foi crescendo cada vez mais. No entanto, o espaço nas coberturas dos veículos tradicionais não acompanhou essa evolução. Este ano, por exemplo, de acordo com o blog Alma Preta, estreou o Bloco Anti-Cárcere, composto por militantes, estudiosos, em parceria com a Associação de Amigos e Familiares de Presos.

O bloco acompanhou a Marcha entoando o lema: “toda prisão é uma prisão política”. E se for pensar a fundo, é verdade. Ou não precisa pensar, basta ver os números. Um levantamento recente, feito pela Agência Pública, divulgou que mais da metade das prisões por tráfico em São Paulo aconteceram por flagrantes com menos de 100 gramas.  E mais, que negros são processados com mais frequência e por menores quantidades do que brancos.

Como não perceber que isso é uma questão política? Enquanto a Marcha pede uma melhor resolução para a questão do tráfico de drogas, as passeatas a favor do governo querem o oposto, preferem investir em mais armas, violência, encarceramento ou internações compulsórias. Felizmente, se ouvirmos a opinião das ruas, a paz e o amor estão falando muito mais alto.

Todos querem a Legalização

Enquanto Dias Tofolli resolveu retirar o debate sobre a descriminalização da maconha do STF após conversas com Bolsonaro, a deputada federal Joice Hasselmann, do PSL, fez uma enquete destinada a seus 343 mil seguidores no Twitter perguntando o que achavam sobre o tema. Para sua surpresa, ao fim da votação mais de duzentas mil pessoas votaram e o resultado vencedor foi o “sim” em favor da descriminalização da maconha em junho, com 72% dos votos.

Mas se eles não escutam as opiniões das ruas e das enquetes, será que vão perceber que até dentro do próprio partido a ideia da legalização é inevitável? A deputada Carla Zambelli, do próprio PSL, manifestou que vai apresentar um projeto de lei na Câmara para legalizar a plantação de maconha para fins exclusivamente medicinais, tendo até convidado Marcelo Freixo, do PSOL, para dividir o projeto de lei.

Notando a onda Verde

O mundo inteiro está decolando na onda da legalização da maconha. Israel, França, Itália, Estados Unidos, Chile, México, dentre tantos outros. Porque o Brasil precisa assumir uma posição não só neutra a essa evolução, mais sim completamente contrária? A culpa não é só do governo vigente. Precisamos assumir, é também de todos nós. Necessitamos conversar mais sobre maconha, produzir ainda mais conteúdo sobre a conscientização a respeito da erva. Já estamos fazendo isso, claro. Mas aumentando essa militância informativa e cultural, há de chegar um dia em que os veículos de comunicação vão dar espaço devido a causa (ou não?). Nesse dia, farão coberturas mais profundas sobre a Marcha, pois até eles estarão cansados de viver em um estado de exceção em que todos passaram a ser vítimas.

A quem interessa minimizar a ação da Marcha? Quem defende a manutenção da proibição, não está, no fundo, defendendo a permanência do tráfico? O ministro da Cidadania Osmar Terra censurou uma pesquisa feita pela FioCruz sobre o cenário das drogas no Brasil. Segundo ele, existe uma epidemia de drogas no país, o que o estudo desmente. Ainda que houvesse um aumento do uso, não seria melhor aumentar a arrecadação de impostos e empregos, através da legalização, do que homicídios e prisões, através da política punitiva? A dúvida persiste: eles não entendem ou não querem entender?

************** Texto originalmente publicado no blog do Hempa na CartaCapital

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