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Maconha é remédio e um direito do paciente

O ceticismo, que em alguns casos é pura ignorância, pode custar caro para muita gente

por João Henriques / Ilustração: Felipe Navarro

Desconstrução é uma palavra da moda, mas um assunto muito sério. Desconstruir preconceitos de uma educação recheada de mitos e falácias é fundamental para, quem sabe um dia, estabelecermos uma cultura que respeite a diversidade do nosso povo. Um novo olhar sob a maconha faz parte deste desafio.

A cannabis ainda é vista de forma bem negativa por boa parte da população. O que mudou nos últimos anos foi o reconhecimento que esta erva tem importantes aplicações medicinais. Antes, o uso medicinal era visto até como “pretexto” de usuários para justificar o vício. Agora, após a repercussão da luta de famílias pelo direito de fazer um tratamento canábico, a maconha já pode ser prescrita por médicos brasileiros.

Neste ponto, voltamos a importância da desconstrução. No geral, a comunidade médica ainda é muito resistente a prescrição de maconha para pacientes. Além da negativa por valores morais (que não deveria acontecer, mas é uma realidade), outros fatores explicam este problema.

Nossos médicos passaram boa parte de uma longa formação acadêmica com pouca ou nenhuma informação sobre a aplicação terapêutica de plantas como a maconha. O que grande parte aprendeu trata apenas de aspectos relativos a dependência e uso abusivo de drogas.

Certa vez, ouvi uma médica descrente do potencial da cannabis debochar do potencial da maconha para tratar de um leque tão grande de doenças, que vai da epilepsia ao glaucoma.

De fato, um remédio que possa ser usado para diversas patologias é algo incomum na medicina moderna. A indústria farmacêutica nos oferece uma infinidade de pílulas de nome complicado e cada uma delas costuma ter uma função específica. Funciona assim há cerca de 100 anos e a desconstrução deste método não será fácil.

Os segmentos mais conservadores da categoria devem se assustar com o fato de a maconha ser um remédio que pode ser feito em casa. Isso explica a resistência contra a inclusão do cultivo caseiro na proposta de regulação da maconha, que atualmente está em debate na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Nos Estados Unidos, nos locais onde o uso medicinal já foi legalizado, surgiu a curiosa figura dos Hemp Doctors, que são médicos reconhecidos por prescrever terapias com cannabis. A receita médica é item essencial para quem deseja comprar maconha nos dispensários.

Mesmo com a proibição ainda ditando as regras no Brasil, já existem caminhos mais iluminados para quem busca na cannabis o alívio de alguma enfermidade. No Rio de Janeiro, o laboratório Farmacannabis, vinculado à UFRJ, realiza a análise de plantas cultivadas por pacientes, indicando a concentração de canabinóides da planta. Assim, torna-se possível saber aspectos técnicos do remédio, feito sem a dependência da indústria.

O ceticismo, que em alguns casos é pura ignorância, pode custar caro para muita gente. Cada dia que se passa com a maconha proibida perdemos a oportunidade de oferecer uma vida mais digna para quem pode encontrar, nesta poderosa erva, um pouco de alívio.

Continuar negando que a maconha promove o alívio é um ato de desumanidade incompatível com quem fez o Juramento de Hipócrates.

******* texto publicado originalmente no blog do Hempadão na Carta Capital

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