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Maconha é Doping?

Esses dias fui entrevistado pela Trip por um motivo intrigante: o flagra do skatista brasileiro Pedro Barros no doping com THC está inflamando discussões a respeito do conflito entre o lifestyle de esportes como o skate e surf, que acabaram de entrar nas Olimpíada e o próprio “espírito olímpico”, que norteia a ética dessas práticas competitivas. E agora, maconha é doping?

Fonte: Trip

Segundo a World Anti-Doping Agency (WADA) e Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), sim. Mas há quem discuta que talvez não, como me “instigou” o repórter da Trip. Veja a matéria completa aqui.

Como doping não é a minha praia, fiz o que qualquer um que se assume ignorante em algo deve fazer: estudar.

Pra resolver essa questão, fui atrás primeiro do posicionamento da WADA sobre o tema, óbvio, afinal, eles são a autoridade. Mergulhei no paper da Marilyn Huestis “Cannabis in Sport“, que é considerada uma das principais referências pela agência. Liguei pra conversar com um amigo que sabia que estava envolvido com a comissão de dopagem, e só depois fui tentar entender um pouco a polêmica em torno do caso do Pedro Barros, que aliás mora aqui bem pertinho de mim, em Floripa. Pra mim, o caso do Pedro é interessante, mas o que mais me motiva é o que está por trás, e a polêmica toda entre “cultura/lifestyle” e competição esportiva.

Antes de tudo, é importante entender o que se entende como doping (para qualquer substância), pra desfazer logo a ideia de “perseguição” da Cannabis, se é que alguém pensou assim. Só aprendi recentemente, mas doping não é só o que melhora a atividade física.

Os critérios do código de anti-dopagem são os seguintes: 

1) Potencial para melhorar o desempenho esportivo
2) Oferece risco de para a saúde do atleta
3) Viola os valores do esporte, aka, “espírito olímpico”

Isso foi novidade pra mim, e imagino que tenha sido pra você também. A ideia desse texto é justamente explorar um pouco mais o que aprendi sobre o tema, porque na Trip saiu só um recorte de minha opinião.

THC, CBD e não sei mais o quê

Então, sabendo o que é considerado doping, conseguimos conversar melhor sobre o assunto, não é?

Bem resumidinho, o paper discute que “THC e cannabis aumentam as respostas impulsivas, levando a mais comportamentos de risco, mas sem afetar a tomada de decisões. De uma perspectiva esportiva, sugere que fumar cannabis reduz a ansiedade, permitindo aos atletas um melhor desempenho sob pressão e um alívio no estresse experimentado antes e durante a competição. Além disso, os canabinóides desempenham um papel importante na extinção das memórias de medo ao interferir com comportamentos aversivos aprendidos. Atletas que passaram por eventos traumáticos em sua carreira esportiva poderiam se beneficiar de tal efeito” — como me instruiu o repórter Fernando “Pulga” Poffo ao me contactar para a matéria. Fui checar e a discussão da WADA é essa mesma.

Me causa uma certa estranheza a ideia de que há uma redução de ansiedade que facilitaria o desempenho esportivo, tanto é que foi essa a minha opinião que ficou como destaque na matéria. Pensando bem, ok, pode fazer sentido. Mas o que mais vejo nos relatos de esportistas não é sobre isso, e sim sobre os benefícios no pós-treino e a redução das dores. De toda maneira, o assunto é polêmico.

No congresso especializado sobre medicina canabinoide, CannMed 2017, assisti uma mesa redonda sobre esse tema com os ex-atletas de futebol americano da NFL, Eben Britton, Nate Jackson, Lance Johnstone e Ricky Williams. Você também pode assistir aqui, se tiver interesse. Essa discussão agora já se “espalhou” para o hockey (NHL), basquete (NBA), e as artes marciais, como o UFC. A principal alegação é a de que o relaxamento causado pela Cannabis ajuda no pós-treino como relaxante muscular, anti-inflamatório, sono, melhorando a recuperação do atleta. Alguns vão até mais longe e discutem o efeito dos canabinoides na prevenção de lesões cerebrais traumáticas, o que tem um fundo de verdade sim.

Indo aos pormenores desta discussão, há uma distinção clara em 3 fatores bastante pertinentes em relação aos canabinoides no contexto de doping:

– Quando (antes, durante ou depois da competição?)

– Qual (quais os canabinoides foram encontrados?)

– Quanto (quais os níveis encontrados no organismo do atleta?)

A lista de substâncias proibidas é atualizada frequentemente para acompanhar a evolução do esporte — e das técnicas de dopagem. A lista mais atual, publicada em janeiro de 2019 e disponível atualmente no site da WADA, mostra que os canabinoides são proibidos somente durante a competição. Isso é bastante interessante, ou seja, não exclui o uso em época de treino.

Importante: a proibição se restringe ao delta9-tetrahidrocanabinol (THC) e “preparações herbais” da Cannabis, ou derivados sintéticos que tenham efeito similar ao THC (canabimiméticos*). Atente-se que não há qualquer restrição ao uso do canabidiol (CBD), ou aos extratos de cânhamo. Obviamente desde que os níveis de THC contidos na preparação sejam abaixo do limite de detecção… isso costuma ser um desafio na maioria dos extratos de cânhamo “CBDs” atualmente comercializados no Brasil e exterior.

Além disso, uma questão importante: houve uma atualização bastante relevante nos níveis de metabólitos de THC aceitos na urina, e o limite de permissão hoje é 10 vezes superior ao que se utilizava no passado. Aumentou de 15 ng/ml para mais de >150 ng/ml na urina. Isso é muita diferença, particularmente porque há uma mudança qualitativa aí.

Abaixo uns gráficos bem interessantes pra quem quiser mergulhar no assunto mais cientificamente, mas, em resumo, usuários eventuais praticamente não correm risco de se serem pegos, e mesmo usuários frequentes que fizerem uma abstinência de pouco mais de 30 horas podem ficar sossegados. Dêem uma olhada no painel “Total THC-COOH” abaixo, que ele define a porcentagem de testes positivos. As linhas cheias (pretas) são de usuários frequentes e as linhas cinzas são de usuários ocasionais. Os limites que seriam acima da linha de corte do doping estão representados pelas bolinhas cinzas (para usuários ocasionais) e pelos losangos pretos (para os usuários frequentes). Ou seja, mesmo para usuários frequentes, a chance de estar acima do limite de detecção após fumar um baseado (no caso do estudo contendo 6.8% de THC) é de apenas 50%.

Na prática, a mensagem é a seguinte: a WADA não “tem nada contra” quem faz uso habitual de Cannabis, e quem sabe a questão de ferir o espírito olímpico não seja assim tão relevante — talvez até contradizendo a impressão que passei quando fui entrevistado para a matéria da Trip — afinal, pela minha interpretação, eles praticamente só vão pegar o atleta que estiver literalmente competindo “chapado”.

Convenhamos que realmente isso não é legal, nem aceitável. O atleta em competição não deve estar sob efeito de nenhuma substância que altera sua percepção, seu estado mental, etc. Pra fazer a comparação direta, imagina o camarada bêbado. No way, chega a ser ridículo. Pra maconha, a conclusão não poderia ser diferente, porque seria bastante incoerente.

Isso dito, há um posicionamento bastante contundente da Confederação Brasileira de Skate (exposto na matéria da Trip), na figura do skatista brasileiro Bob Burnquist, alegando que isso faz parte do lifestyle do skate e não pode ser recriminado. “Skate is not a crime” era uma frase que eu via frequentemente pixada nos muros quando eu era mais novo, e me remete a essa visão de “marginalizados” que o skate remete. A raiz é de um esporte urbano, ligado ao underground, e tem sua contra-cultura que deve ser respeitada… agora, virou um esporte olímpico, paciência. Quem quiser competir na Olimpíada vai ter que se encaixar nesse padrões. Se lá vie.

Isso dito, sempre haverá espaço pro freerider, e pros atletas que não almejam ganhar uma medalha olímpica, assim como no surf… Quem sabe no futuro vamos ter classes diferentes de atletas, não sei, haverá uma evolução. Só sei que hoje a regra é essa. E convenhamos, se é só em competição, não custa dar aquela “concentrada” um período antes… e fora da competição, faça o que bem entender.

Ah, mas e se o uso for medicinal… ? Aí pode, medicinal vale. Aparentemente não há qualquer problema se for um uso medicinal justificado, mesmo pro THC ou qualquer outra substância proibida. Pelo que aprendi com meu amigo da comissão anti-doping, já existe o mecanismo de AUT (Autorização de uso terapêutico), que o atleta pode solicitar e enviar à junta médica competente. Então, pra um uso medicinal de verdade, não há o que reclamar.

Entendo que só o fato de o doping por maconha não ser considerado quando flagrado fora de competição já indica uma predisposição para a tolerância. É só o meu palpite, mas a compreensão sobre este tema está avançando tanto que a fronteira do esporte é um reflexo da opinião que temos como sociedade a respeito da Cannabis.

E o Pedro Barros, que foi o ponto de partida disso tudo? Aparentemente uma amostra de urina coletada em uma festa de encerramento de um campeonato foi o estopim disso tudo. Segundo a matéria da Trip, há uma grande expectativa de que ele seja liberado apenas com uma advertência e que possamos contar com nosso campeão competindo pelo Brasil na Olímpiada. Se você não tem ideia de quem é esse cara, ou da importância dele pro esporte, check this out:

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