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E o Mundo vai lentamente legalizando a maconha – Mas o Brasil não

Não há dúvidas de que a tendência mundial é no sentido de regulamentar cada vez mais usos da Cannabis. Mas há exceções

A tendência é muito clara: o mundo está a caminho de legalizar cada vez mais usos da Cannabis . A maconha está deixando de ser aquela droga simbólica, tão conveniente para as guerras culturais, que os políticos gostam de retratar como um inimigo demoníaco, para que eles próprios possam combater, fazendo pose de herói. Menos em alguns países mais atrasados, tipo as Filipinas. E o Brasil.

por Denis Russo Burgierman
na Época

A grande onda do momento são os usos medicinais, que estão sendo legalizados em basicamente todo o mundo desenvolvido. Um por um, 33 estados americanos (dos 50) já regulamentaram a produção e a venda de Cannabis para quem precisa, por razões médicas. No resto das Américas, Canadá, México, Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia, Peru, Jamaica também já fizeram o óbvio, dando a seus fazendeiros e empresários um mercado bilionário e a seus pacientes acesso a um remédio que parece ser muito útil para ansiedade, câncer, aids, Alzheimer, depressão, doenças autoimunes, esclerose múltipla, epilepsia, dor crônica, autismo e muitos etcéteras. Austrália, Nova Zelândia, Israel, África do Sul e praticamente toda a Europa também já deram esse passo. Mais recentemente, países com histórico bem conservador começaram a seguir o mesmo rumo: é o caso da Tailândia, da Coreia do Sul e do Zimbábue. No mapa-múndi dos países que legalizaram a Cannabis medicinal, as únicas ausências notáveis são a maior parte da África e da Ásia e um país grandão no meio da América do Sul: o Brasil. Os atrasados.

O Brasil parecia disposto a tirar um pouquinho desse atraso, com uma regulamentação bastante conservadora e insuficiente que a Anvisa vinha fazendo. Não mais, pelo jeito. O bolsonarismo notou, infiltrou a agência com um diretor bastante ideológico, que está bloqueando a regulamentação, para frustração inclusive de muita gente à direita do espectro político, como a pesselista Carla Zambelli e o general Villas Bôas, que sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa terrível, e que poderia ter uma vida bem melhor se vivesse em país menos atrasado, onde se pode comprar Cannabis . A senadora tucana Mara Gabrilli é uma que não se conforma com a absurdo: extratos de Cannabis são a única razão pela qual ela consegue lidar com as dores que a acometem e ir trabalhar.

Os usos industriais da Cannabis são ainda menos polêmicos que os medicinais. Para que proibir variedades da planta que nem sequer tem a capacidade de dar barato, porque são desprovidas de THC, o princípio psicoativo? Boa parte do mundo legalizou o cânhamo, que é como chamam a Cannabis sem THC, uma cultura bem lucrativa e cheia de usos, de alimentares a têxteis. Além de tudo, ela é ótima para regenerar o solo exaurido por outras culturas (o cânhamo cresce em poucos meses e pode ser picado e deixado no solo, enriquecendo-o de nutrientes, entre uma e outra safra de soja ou milho).

Nos Estados Unidos foi o governo Trump quem assinou a legalização federal do cânhamo, e o estado mais beneficiado foi o ultraconservador Kentucky, que agora está vivendo uma onda de prosperidade e compensando as perdas com a perda do mercado do tabaco. Até a China, um dos países mais avessos às drogas, abraçou o cânhamo: é o maior produtor do mundo.

O uso adulto, que alguns gostam de chamar de recreativo, caminha a passos um pouco mais lentos, mas ainda inequivocamente na direção da legalização. Por enquanto, só Uruguai, Canadá e 11 estados americanos legalizaram totalmente, sem que nenhum pesquisador sério registre grandes problemas. México, Luxemburgo e Nova Zelândia devem ser os próximos da lista.

Já o Brasil vem preferindo permitir que o crime organizado lucre com esse mercado, que comprovadamente não deixa de existir quando alguém proíbe. Traficantes suprem a enorme demanda de usuários adultos em busca de relaxamento e distração. Traficantes também – perante a lei – fornecem o remédio que salva vidas de crianças e idosos.

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