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Drogas de fundo de quintal se espalham e geram roleta russa para usuários

Drogas de fundo de quintal viram roleta russa para usuários no Brasil

TopCat, N-Bomb, Smile, K2 e Quad. Ecstasy e ácido genérico, maconha sintética, heroína artificial e mais uma miríade de estimulantes e alucinógenos que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Nos últimos anos, a vida do usuário de drogas sintéticas no Brasil (e no mundo) virou uma roleta-russa mais perigosa que a habitual.

Fonte: UOL

Com a proliferação de laboratórios de fundo de quintal pelo país afora e a descoberta de substâncias psicotrópicas em uma velocidade maior do que a capacidade das autoridades de identifica-las e proibi-las, hoje é difícil saber o que vai na droga contida naquela pílula colorida de formato engraçado. Dia sim, outro também, aparece uma novidade nesse mercado.

De 2014 até o final de 2018, Polícia Federal, Polícia Civil e Polícia Militar identificaram e apreenderam 209 novas drogas psicoativas em tentativas de traficantes de as trazerem ao Brasil ou já circulando nas ruas das principais cidades.

De acordo com o Relatório de Atividades 2017/2018 do Grupo de Trabalho para Classificação de Substâncias Controladas, concluído pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no início deste ano, a lista inclui também alguns medicamentos prescritos ou que entraram para a lista de substâncias controladas.

São consideradas novas drogas psicoativas as substâncias e compostos químicos que nunca antes tinham sido identificados e apreendidos sendo usados como drogas recreativas.

Também entram nessa lista substâncias que eram conhecidas anteriormente — como remédios de prescrição ou moléculas obscuras sintetizadas pela primeira vez nos anos 1950, 1960 e 1970 e nunca antes produzidas em larga escala, por exemplo –, mas que antes não eram usadas para “ficar doidão”.

Trata-se tanto de substitutos genéricos ou sintéticos para drogas conhecidas, como compostos que imitam os efeitos do ecstasy, da metanfetamina, da maconha e do LSD, por exemplo, até novas drogas de fato, vendidas nas ruas com nomes complicados como 25E-NBOH ou nomes comerciais como Spice, Smiles, N-Bomb e outros.

“São drogas que podem ser produzidas com estruturas simples, em praticamente um laboratório de fundo de quintal, um quartinho com poucos equipamentos e por pessoas com conhecimento técnico rudimentar”, afirma o delegado Rogério Henrique Rezende, chefe da Cord (Coordenação de Repressão às Drogas) da Polícia Civil do Distrito Federal.

Estevan Silveira/UOL
Imagem: Estevan Silveira/UOL

De acordo com o delegado, com um investimento baixo, algo entre R$ 30 mil e R$ 100 mil, é possível montar um laboratório caseiro de drogas. “Outra vantagem da produção de sintéticas para os criminosos é que a estrutura é fácil de montar e desmontar. Eles trocam de local constantemente e dificultam o trabalho da polícia.”

Ele usa de exemplo um caso em andamento na Cord, no qual um traficante preso pela polícia estava conseguindo sintetizar uma droga com efeitos parecidos com os do MDMA [principal composto do ecstasy tradicional] a partir de um dos ingredientes presente em qualquer xampu a venda nos mercados. “É uma situação muito difícil, neste caso estamos só encerrando o inquérito e já vamos notificar a Anvisa para incluir este componente na lista de substâncias controladas. Hoje é vendida pela indústria química sem restrições.”

Neste ano, a Cord já apreendeu o dobro de drogas sintéticas do que no mesmo período do ano passado. Até julho, foram seis laboratórios de fundo de quintal fechados só no DF.

Mais baratas, difíceis de rastrear e imprevisíveis

No caso das drogas “genéricas”, o objetivo de vendê-las no tráfico nacional e internacional geralmente atende a dois propósitos: possuem ingredientes mais baratos de produzir e obter do que seus similares tradicionais ou são novidades no mundo da química e não integram nenhuma lista de substâncias visadas ao redor do mundo.

“Ecstasy, por exemplo, é mais uma categoria de drogas sintéticas estimulantes e alucinógenas do que um composto específico”, afirma um traficante que concordou em conversar com a reportagem sem ser identificado. “Existem vários tipos de ecstasy hoje em dia, até com nomes e efeitos diferentes”, explica.

“A quantidade de substâncias diferentes tem crescido ano a ano, conforme as drogas sintéticas têm sido cada vez mais produzidas no Brasil. Até uns cinco ou dez anos atrás, todas as drogas sintéticas que rolavam no país eram importadas. Hoje, a maioria é nacional, feita em laboratórios caseiros sem controle de qualidade”, alerta o traficante.

Estevan Silveira/UOL
Imagem: Estevan Silveira/UOL

“A droga nacional é horrorosa no geral e tem efeitos colaterais bizarros e imprevisíveis. Eu sempre aviso meus clientes e procuro ter droga importada, que custa mais que o dobro do preço. Ácido de verdade, por exemplo, é difícil de achar. Só rola os N-Bombs, que são parecidos mas não são iguais.” , Traficante que pediu para não ser identificado.

Dados do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal, por exemplo, constataram que, de 2009 a 2012, 100% das apreensões de LSD [ácido lisérgico, uma droga alucinógena] eram, de fato, LSD mesmo. Depois do primeiro semestre de 2013, o número caiu para 50%. A outra metade das apreensões foi de genéricos, outras substâncias vendidas pelos traficantes ao usuário como se fosse LSD, mas não era.

Por exemplo o 25E-NBOH, que possui efeitos alucinógenos no organismo do usuário similares aos do “ácido” tradicional. A droga tem ganhado personalidade própria entre os usuários, é tanto vendida como se fosse LSD como com seu nome real.

Comprando no escuro

“Nas festas hoje em dia é complicado, a verdade é que você nunca sabe o que está tomando se comprar assim no escuro”, diz um advogado de 41 anos frequentador de festas de música eletrônica, onde as drogas sintéticas são muito comuns. “É por isso que eu e meus amigos sempre buscamos comprar com antecedência nossas coisinhas, de fontes de confiança. O mercado de ecstasy, ácido e afins virou uma terra de ninguém.”

A quantidade de novas drogas no Brasil nos últimos anos é tão grande que a lista de substâncias proibidas e controladas da Anvisa, que inclui todas as drogas ilegais, foi atualizada dez vezes com 37 novas substâncias no total, apenas entre os anos de 2017 e 2018.

Até o início dos anos 2010, as atualizações aconteciam esporadicamente. Ao ingressar na lista, a importação ou comércio destas substâncias passa a ser tratado com o rigor legal dispensado à cocaína e à maconha, por exemplo.

No final de julho, a Lista de Substâncias Entorpecentes, Psicotrópicas, Precursoras e Outras Sob Controle Especial da Anvisa possuía 657 substâncias.

Limbo jurídico

Antes da inclusão na lista, estas apreensões, sejam feitas em laboratórios, pontos de venda de drogas, casas noturnas ou na entrada no Brasil, caem em um limbo jurídico.

Em outubro do ano passado, a Polícia Civil do DF aprendeu 250 microselos de 25E-NBOH com um traficante de 18 anos que os vendia como se fossem LSD. Como na época o 25E-NBOH não constava na lista de substâncias prescritas da Anvisa, ele não podia ser acusado de tráfico de drogas.

O jeito para a polícia foi apelar para outro artigo do Código Penal, com uma acusação de crime contra a saúde pública e outras menores. A saída é cada vez mais usada nestas situações.

Em dezembro, o 25E-NBOH foi incluído na lista da Anvisa e agora qualquer atividade de produção, importação ou comércio da substância química pode ser considerado tráfico de drogas.

É um trabalho de enxugar gelo. Estima-se que uma nova droga surja no mundo por semana, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas). Muitas vezes, antes de serem proibidas, são vendidas até no comércio regular como sais de banho ou para outros fins.

Em 2017, o governo de SP chegou a editar uma portaria que eximia o Instituo de Criminalística de identificar drogas que não estejam na lista da Anvisa.

Desde pelo menos 2015, o prazo para a Anvisa incluir uma nova droga na lista de proibições varia de 45 a 60 dias, a partir da comunicação feita pelos órgãos policiais.

“Todos tomaram e só ela morreu”

Menos conhecidas e estudadas que as drogas tradicionais, as novas drogas ou drogas “genéricas” possuem efeitos adversos desconhecidos no organismo, o que aumenta o risco à saúde dos usuários. Não há parâmetros ou referências de controle.

“Esse talvez seja o aspecto mais preocupante deste fenômeno, que é mundial”, afirma o delegado Rezende. “Ano passado teve uma rave aqui em Brasília onde uma jovem de 20 e poucos anos morreu depois de tomar um comprimido, supostamente de ecstasy. Fomos investigar e descobrimos que ela chegou na festa e, com um grupo de amigos, comprou a droga de uma pessoa desconhecida. Todos os comprimidos pareciam iguais, todo mundo tomou. Só ela passou mal e morreu”, diz o delegado.

“Quando chegou o resultado da análise no Instituto de Criminalística, vimos que a droga dela estava mal manipulada, com uma concentração fatal de MDMA e outras substâncias químicas. Ela deu azar na roleta-russa”, conta o delegado. Segundo ele, a investigação levou a dois laboratórios de drogas sintéticas de fundo de quintal, fechados este ano pela polícia em Santa Catarina.

“É uma situação difícil até para o atendimento médico de emergência: quando é cocaína por exemplo ou outra droga conhecida, o médico sabe como proceder no caso de uma emergência. Quando é uma substância sintética desconhecida, não há como tratar uma overdose com eficiência.”, Rogério Henrique Rezende, delegado da Polícia Civil do DF

A psiquiatra Luciana Siqueira, chefe do ambulatório do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, especializada no tratamento de viciados em drogas, concorda. “É um problema, não só do médico administrar uma intoxicação, mas também de abstinência”, diz. “Existem protocolos estabelecidos para vários casos diferentes, mas quando não sabemos o que o paciente consumiu, o médico fica no escuro. Acaba atuando por semelhança, usando protocolos para sintomas semelhantes. Geralmente funciona, pode não funcionar”, alerta a especialista.

“Esse problema para os médicos é antigo e mais comum do que se pensa. Na pediatria, por exemplo, é normal pacientes que ingeriram substâncias de limpeza ou remédios dos pais por exemplo, e o profissional tem que lidar com isso”, afirma Luciana.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, estudos clínicos associam o uso de Spice e K2, por exemplo, variedades de maconha sintética, com o aumento no índice de esquizofrenia entre os usuários, principalmente os adolescentes.

O fentanil, poderoso analgésico hospitalar dezenas de vezes mais forte que a heroína e assim muito mais perigoso, começou a ser traficado nas ruas de diversas cidades dos EUA nos últimos anos em substituição à heroína. No início, começou a ser usado pelos traficantes para “batizar” a heroína: a droga era diluída em um pó semelhante sem valor comercial (geralmente fermento ou leite em pó) e depois recebia o fentanil em pequenas doses, para balancear a potência. Com o tempo, a substância ganhou status próprio e hoje é vendida como uma droga rival da heroína no país norte-americano.

Problema mundial

Os números revelam um problema mundial. Pelo menos 111 países, inclusive o Brasil, já reportaram ao UNODC (Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crimes) o aparecimento de pelo menos uma nova substância psicoativa em seus territórios. A União Europeia identificou 560 novas drogas de 2010 a 2017.

As novas drogas, conforme definição do UNODC, são “substâncias de abuso, seja na forma pura ou como parte de uma mistura, que não são controladas internacionalmente pela Convenção Única de Entorpecentes (1961) e nem pela Convenção de Substâncias Psicotrópicas (1971), mas que podem representar uma ameaça à saúde pública”.

Das novas substâncias identificadas no Brasil em 2017, as mais comuns são as catinonas sintéticas (46%), que simulam efeitos de drogas conhecidas como cocaína, anfetamina, metanfetamina e MDMA. Em segundo lugar vêm as feniletilaminas (26%), que também reproduzem os efeitos das drogas acima, mas que podem também provocar alucinações, com efeitos semelhantes aos do LSD, por exemplo.

O dado mostra uma inversão da tendência vista em 2016, quando a maior parte das substâncias identificadas eram feniletilaminas (42%), enquanto os canabinoides sintéticos (20%), que simulam efeitos da maconha, vinham em segundo lugar.

Tanto Anvisa quanto Polícia Federal negaram o pedido do UOL de entrevistar alguém de seus quadros sobre este assunto.

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