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Descanse em Paz, povo de Jah!

A morte… única certeza da vida, mas, quando acontece, um trauma de rachar pupilas de tanto chorar e dor de rasgar o peito de tanto sofrer. Eu sabia que 2019 seria um ano difícil, mas nunca poderia imaginar o tanto.

O assunto é pesado. Mas falar sobre isso é a melhor forma de afastar a bad-trip. Como um cigarro, somos feitos para pegar fogo e, um dia, simplesmente apagar. Deve ser por isso que o apelido do cinzeiro repleto de pontas é cemitério.

Pode parecer trágico reportar sobre isso, mas é assim que o jornalismo lida com a memória, produzindo conteúdo. É através do texto que talhamos as lápides da história. Do final do ano passado pra cá nossa militância ficou ainda mais fraca, pois perdemos personalidades insubstituíveis da cultura canábica brasileira.

Se foram figuras da música, da política e do bom jornalismo… e assim, maconheiros e pensadores de todo o país sentiram na pele o incômodo do envelhecer e ter de “enterrar nossos mortos”, como disse Vinícius de Moraes no Poema de Natal.

Adeus, Miúcha

Cantora célebre dos tempos áureos da MPB, Miúcha respirava arte desde o berço. Era filha do historiador Sérgio Buarque de Hollanda com a pintora e pianista Maria Amélia Alvim, irmã de Chico Buarque, foi casada com João Gilberto e mãe da Bebel Gilberto. Que família, não?

De acordo com texto publicado na Carta Capital em 2009, assinado por Cynara Menezes, “no livro Minhas Mulheres, Meus Homens, o escritor Mário Prata revela que Sérgio Buarque de Holanda (…) fumou maconha até a velhice. Prata conta que na sala dos Buarque de Hollanda, lá pelos idos de 1973, havia um pequeno elefante de prata com furinhos nas costas onde a irmã de Chico, Miúcha, deixava uns baseados prontos. Um dia, antes de irem a um show, Prata foi fumar um com Miúcha e cinco cigarrinhos ficaram no elefante, na banqueta ao lado do velho historiador. “Depois do show, (…) passamos lá de novo para mais um tempinho de abertura de apetite. O professor havia fumado os cinco cigarros”.

Para quem ainda não tem certeza de que a Miúcha era representante da nossa cultura canábica, tem vídeo também. Falando sobre o bloco “Segura a Coisa”, a apresentadora e a cantora explanam sem vergonha, mesmo nos idos de 1989. Veja só:

Depois de alguns anos lutando contra o câncer, no dia 27 de dezembro de 2018, aos 81 anos, a cantora abandonou definitivamente os palcos e descansou.

Adeus, Marcelo Yuka

Um dos fundadores e baterista da banda O Rappa, ele foi também um dos mais influentes letristas de sua geração. Clássicos como “Minha alma”, “Me Deixa”, “O que sobrou do Céu”, “Tribunal de Rua” e tantos outros passaram por sua composição.

Em novembro do ano 2000, Yuka foi baleado durante um assalto no Rio de Janeiro. Doze anos mais tarde, em entrevista à Folha de São Paulo, questionado sobre se ainda sentia dores após ter recebido nove tiros, ele disse: “Muita. Até o último dia vai ter essa briga. Nunca fui usuário de droga, mas meu médico me sugeriu. Há pesquisas interessantes sobre a maconha em relação à dor do câncer. Daí descobri o uso medicinal da maconha. Não gosto de ficar chapado, mas ela funciona para diminuir a dor”, afirmou.

Em 2013 o Hempa teve a honra de entrevistar o Marcelo Yuka para falar sobre maconha medicinal e militância. Dá para assistir aqui:

No dia 18 de janeiro de 2019, após algumas internações, o músico que também fundou o coletivo F.UR.T.O e chegou a ser candidato a vice-prefeito do Rio, não resistiu e descansou, aos 53 anos.

Adeus, Ricardo Boechat

É considerado um dos mais influentes jornalistas do Brasil. Fez história com sua opinião marcante, bom humor e perspicácia ao analisar a notícia. Boechat venceu três vezes o prêmio Esso, a maior premiação entre profissionais da imprensa, e levantou diversas vezes o Prêmio Comunique-se.

Nascido em Buenos Aires e criado no Rio, trabalhou nas principais redações do país. Em 2016, em entrevista ao portal Growroom, questionado sobre como foi sua primeira vez com maconha, Boechat respondeu:

“Não deu nada, não aconteceu nada, e eu já era adulto, não era jovenzinho, não. Meus primeiros baseados eu comprei com o dinheiro do meu trabalho, já era casado. Depois, na segunda ou na terceira vez, com espaços grandes entre elas, eu danei a rir, eu ri pra caralho, ri feito bobo, que foi o efeito que se repetiu e foi a única coisa que me encantou na maconha, que foi me transformar em bobo. Eu que era todo compenetrado, militante, trabalhador, careta de bronca como se dizia no meu tempo, comecei a rir de qualquer bobagem que eu ouvia; qual o problema? Me deu muita alegria, rir não faz mal. Depois esse efeito meio que começou a ceder espaço pra outros, ai começou a me dar paranoia, ai eu me irritei e parei.”, confessou.

Ao vivo na Rádio, em 2013, quando a descriminalização do porte de maconha ainda estava sendo debatida, ele já soltava o verbo sobre a loucura que é a proibição das drogas. Escuta aí:

De forma trágica e inesperada, no dia 11 de fevereiro de 2019, o mestre Ricardo Eugênio Boechat sofreu um acidente de helicóptero que lhe fez, aos 66 anos, descansar do incessante serviço entre âncora e locução.


Adeus, Pai

Peço perdão aos leitores a respeito da pausa em nossa coluna no último mês. Estive fora de órbita por esses tempos acompanhando a árdua luta contra o câncer vivida por meu pai.

Ele não era adepto da cultura canábica, mas demonstrou diversas vezes maior orgulho de ver o trabalho do Hempadão. Meu coroa fazia aniversário no mesmo dia que o Bob Marley (06/02) e faleceu da mesma doença que o Rei do Reggae. Claro que isso não passa de uma (triste) coincidência. Mas a comparação serve para provar que a importância do ser extrapola para além da vida. Assim como Bob é eterno em suas canções, Carlos Alberto, o Bebeto, será eternizado, para familiares e amigos, em nossos corações.

No dia 21 de fevereiro de 2019, após quase trinta dias de internação, o descanso foi inevitável. Aos 57 anos, partiu, tendo antes ensinado à neta que “qualquer dia o vovô ia morar no céu, virando uma estrelinha”, e foi.

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