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Demanda de maconha legal no Uruguai é maior do que a oferta

Em menos de nove meses, o número de inscritos para ter acesso à maconha vendida nas farmácias do Uruguai disparou, causando escassez, filas de espera e um desafio logístico às autoridades do país que controlam, em um caso único no mundo, a produção, venda e distribuição da cannabis. Outra tendência detectada em período de tempo tão curto, entretanto, foi a paulatina aceitação por parte da população do consumo regulamentado que inicialmente gerou altos índices de desconfiança.

Fonte: El País

Um em cada cem uruguaios já faz parte do universo de pessoas registradas para ter acesso a alguma das três formas legais de consumo: como plantadores, membros de um clube canábico e compradores na farmácia. Mas sem dúvida a mudança mais espetacular ocorre no último caso, as farmácias, onde já se superou o número de 23.000 autorizados a adquirir os pacotes de até cinco gramas e duas variedades da droga. E o sistema está entrando em colapso, já que a produção não acompanha o ritmo da demanda.

A farmácia Camaño de Montevidéu precisou implementar um sistema de senhas que são distribuídas duas vezes por dia, às nove da manhã e às quatro da tarde. A partir daí são formadas grandes filas que chegam a quatro quarteirões e todas as reservas se esgotam.

Lino, o dono da farmácia, gostaria de atender mais gente, mas não recebe mercadoria suficiente, de modo que todos os dias precisa se justificar à clientela. Quando o processo de legalização se iniciou no Uruguai, uma das grandes preocupações era a insegurança, especialmente o temor de assaltos e represálias dos traficantes. Mas a realidade é que Lino só teve problemas com as benditas filas de pessoas: alguém que fura, brigas…

A facilidade com que o público se adaptou à novidade também quebrou os esquemas: “Ficamos espantados, temos aqui todos os dias pessoas de todos os tipos. Os jovens, mas também idosos, alguns compram para evitar que seus filhos tenham de ir às bocas de fumo. Tenho um senhor com esclerose múltipla que usa a maconha para aliviar as dores, outro que compra para fabricar óleo e outro que faz brownies”, diz Lino.

A desconfiança diminui

O Uruguai é o único país do mundo em que os jornais televisivos anunciam o aumento do preço da maconha da mesma forma que anunciam o do leite e do pão, em um ambiente de normalidade total. Não são registrados assaltos e casos de violência por conta da legalização, pelo menos até agora. Talvez por isso, um estudo acaba de revelar que a desconfiança dos uruguaios está diminuindo: em 2012, quando o processo se iniciou, até 70% da população se declarava contrária à lei. Atualmente, 44% é a favor e 41% contra, de acordo com a pesquisa do Monitor Cannabis (centro de estudos da Universidade de Ciências Sociais), as universidades Católica, ORT (do Uruguai) e da Califórnia e a empresa Factum.

Outro dos fatores que explicam a normalidade do processo uruguaio é o fato de que os estrangeiros não residentes não podem comprar maconha legal. Dessa forma, se evita o turismo canábico e experiências como a da Holanda, em que o consumo ficou relacionado à prostituição e aos sex shops. Não há uma área do vício em Montevidéu, o consumo e a produção se distribuem por todos os bairros, onde proliferam os grow shops para vender insumos aos plantadores registrados.

O Uruguai também não se transformou em um país de zumbis, cheio de drogados. O THC, a principal substância psicoativa da cannabis, é controlado. Nos pacotes das farmácias não supera 9%. Os usuários acostumados a fumar e inalar consideram que, com esses níveis, essa maconha “não dá barato”. O certo é que a artesanal, produzida pelos plantadores regulamentados, chega a 20% de THC, mas a das farmácias é, de longe, a mais vendida.

Sebastián Aguiar, coordenador do Monitor Cannabis e doutor em sociologia, afirma que, com a demanda atual, o Uruguai pode ter tomado 50% da demanda de cannabis do mercado clandestino. Mas, de acordo com seus cálculos, somente 20% dos registrados conseguem se abastecer regularmente. “Os principais problemas estão em primeiro lugar na quantidade de produção permitida às empresas, limitada a quatro toneladas por ano no total, o que permitiria abastecer 8.333 pessoas registradas. De qualquer forma, esse máximo também não foi alcançado pela baixíssima quantidade fornecida efetivamente. A produção efetiva das empresas licitadas, por volta de meia tonelada, é suficiente unicamente para 2.500 pessoas por mês”, diz Aguiar.

Além disso, somente 12 farmácias (cinco delas em Montevidéu) vendem o produto, o que causa problemas para cobrir o território nacional e reduz novamente o número dos que têm acesso ao produto. “Vendo tantas filas, as pessoas pensam que estamos ganhando muito dinheiro, nos chamam de Cartel de Cali e coisas do tipo. Mas a verdade é que não temos muito lucro, justamente porque o fornecimento não é suficiente”, diz Lino, da farmácia Camaño de Montevidéu.

O restante do mercado fica na mão dos traficantes, como mostram os números de apreensões da polícia, que em 2017 se mantiveram em níveis semelhantes aos de anos anteriores. Ainda que o pacote de cinco gramas de maconha legal seja barato (200 pesos, aproximadamente 24 reais), no mercado clandestino o preço da maconha prensada paraguaia, o principal produto ilegal que chega ao Uruguai, pode ser até três vezes menor.

“O Governo precisará abordar seriamente o problema do fornecimento se quiser que a legalização funcione”, afirma Aguiar. Uma das grandes ambições da experiência uruguaia é tirar dos traficantes o controle do consumo de drogas.

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