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Como homens e cannabis cresceram juntos por Milênios

Com raras exceções, por onde houvesse gente, havia cannabis também, como comprovam restos arqueológicos, registros genéticos e farmacopeias de muitas épocas e lugares

Debaixo deste mesmo céu, algumas centenas de milhares de anos atrás, nossos ancestrais, macacos descidos das árvores, saíram de África nativa, rumo à Europa e à Ásia. Gostavam de improvisar suas casas na beira de riachos ou de outras fontes de água, e iam migrando, ao sabor das estações, das oportunidades. Sabemos disso porque humanos desmatam, queimam coisas, jogam lixo, e parte desses hábitos deixa rastros que os arqueólogos de hoje encontram.

por Denis Russo Burgieman
na Época

Logo que chegaram à Ásia, os humanos depararam-se com outra espécie, essa vegetal – um arbusto nativo da Ásia Central, chamado cannabis. Ele gosta de muito sol em suas folhas e, por isso, dava-se bem na beira de riachos, porque o traçado do rio abre uma brecha na mata, por onde a luz do sol chega ao chão. Foi o habitat que nos aproximou, nós primatas e elas plantas, ambos amantes de margens.

Humanos onde chegam abrem clareiras na mata, é da nossa natureza. Com certeza a cannabis crescia bem nessas clareiras expostas ao sol, e ia ocupando as beiradas das áreas que os humanos desmatavam. Mas, sobre esse passado distante, é difícil saber detalhes. Plantas dominam a paisagem do mundo, mas, na paleontologia, são discretas. Enquanto nós vertebrados deixamos esqueletos quase eternos de herança, os restos das plantas somem em pouco tempo, sem deixar pistas, 100% convertidas em nutrientes para outros seres vivos.

Mas evidências de uma relação íntima e antiga entre humanos e cannabis são muito disseminadas e antigas por toda a Ásia, Europa e África (este livro, em inglês, sobre a etnobotânica da cannabis, conta essa história em detalhes). Por toda parte nessa confluência de continentes, pés de cannabis de caules finos e retos cresciam todos os anos nas beiras dos acampamentos dos humanos – e depois nos vilarejos, e depois nas cidades. Germinavam com o calorzinho da primavera, enchiam o lugar de frescor no verão e no outono aromatizavam as aldeias com flores que depois enchiam-se de sementes. Aí morriam, e o pé se desmilinguia ao longo do inverno, deixando apenas um amontoado de fibras do comprimento do caule, e espalhando as sementes, que aguardarão pacientes na terra até a primavera seguinte.

Cannabis sativa Foto: Bildagentur-online / Universal Images Group via Getty
Cannabis sativa Foto: Bildagentur-online / Universal Images Group via Getty

Por milênios, humanos comeram as tenras bolsinhas de pólen do pé macho e as sementes que nasciam às centenas grudadas na flor da árvore fêmea (outro ponto em comum entre humanos e cannabis é a divisão em dois gêneros). Ou amassavam-nas, para tirar um óleo rico e aromático, bom para colocar na comida, para cozinhar, para queimar e gerar luz, para quase tudo. Com as fibras que restavam depois da morte da planta, no inverno, teciam em teares caseiros suas roupas e as cordas que sustentavam suas casas. Faziam chás, remédios, temperos, óleos. Com o tempo, foram aprendendo a usar as fibras para tecer muitas outras coisas úteis: papeis, velas de barcos, telas para pintar. E produziam também substâncias psicoativas – embora esse não pareça ser o uso mais tradicional ou difundido.

O fato é que homens e cannabis cresceram juntos, nas mesmas vilas, por milênios, na África, na China, no Oriente Médio, na Europa, no Japão, na Rússia. Nuns lugares a planta era mais usada em remédios, em outros mais na indústria têxtil, em alguns mais como alimento de gente ou de animais, em alguns com certeza para fins rituais e psicoativos, em alguns poucos era usada para basicamente tudo. Mas o fato inconteste é que, com raras exceções, por onde houvesse gente, havia cannabis também, há muito tempo, como comprovam restos arqueológicos, registros genéticos e farmacopeias de muitas épocas e lugares. Essa planta foi uma das mais cultivadas pelos humanos durante a história, se não foi a mais cultivada.

Quando começou o século 20, havia cannabis em praticamente todo o mundo: ela colonizou América e Oceania a bordo dos primeiros navios que cruzaram o oceano, em geral levada por marinheiros que queriam fibras de reposição para suas velas e cordas. Nas farmácias, em boa parte do mundo, os remédios mais usados para dor de cabeça e vários outros males comuns eram tinturas de cannabis. Uma parte razoável das roupas que vestiam a humanidade eram tecidas com as fibras que sustentavam seu caule.

Viajando recentemente pela Eslovênia, conversei com um velho agricultor de cânhamo – cannabis da mesma espécie que a maconha, mas de uma variedade sem THC, por isso não psicoativa. Ele me contou que, no tempo de sua avó, todos os agricultores daquele vasto interior tinham pequenas plantações de cannabis. Era a garantia de que ninguém passaria frio no inverno, num tempo em que quase não circulava dinheiro que desse para comprar roupas. Se uma casa não tivesse cannabis, todos sabiam que os que viviam ali eram pobres.

No interior da Eslovênia, pés de cannabis crescem onde sempre cresceram: na beira de comunidades humanas, onde atendem basicamente a todas nossas necessidades, de abrigo a comida a remédio (mas não recreação, porque essa é proibida). Foto: Divugalção
No interior da Eslovênia, pés de cannabis crescem onde sempre cresceram: na beira de comunidades humanas, onde atendem basicamente a todas nossas necessidades, de abrigo a comida a remédio (mas não recreação, porque essa é proibida). Foto: Divugalção

Humanos e cannabis empreenderam juntos, ao longo dos milênios, aquilo que os cientistas chamam de coevolução. A humanidade foi, geração a geração, esculpindo nessa velha planta as características que lhe agradavam: selecionando os melhores aromas, os melhores sabores, as fibras mais longas ou mais fortes, os maiores crescimentos, as substâncias químicas mais saudáveis, ou as mais medicinais, as mais nutritivas, ou, por que não?, as mais prazerosas.

Mas qualquer coevolução tem mão dupla. Ao mesmo tempo em que o primata moldava a planta, a planta também moldava o primata. Suas fibras sustentaram nosso progresso tecnológico, seus produtos nutriram nossos corpos e também nossa mente, nossa cultura.

O historiador israelense Yuval Noah Harari, no seu influente livro Sapiens, descreve a humanidade não como uma única espécie, mas como um ecossistema inteiro: uma comunidade de diferentes espécies. Por onde humanos vão, cachorros, gatos, vacas, ovelhas, cabras, galinhas, cavalos vão junto. Harari não menciona, mas plantas também acompanham essa comitiva – e, entre elas, com certeza, sempre destacou-se a cannabis.

Foi assim até a primeira metade do século 20, quando surgiu por todo o mundo uma lei que nunca tinha existido antes: a proibição da cannabis. Coincidência ou não, aconteceu bem na mesma época em que a humanidade resolveu mudar o jeito de fazer quase tudo. Em vez de se resolver com plantas, passou a usar o petróleo do chão para fabricar sinteticamente óleos, fibras, remédios e milhares de produtos e materiais, da gasolina ao plástico.

No mundo inteiro, em todos os países, plantar cannabis foi proibido. E, mesmo assim, em cada bairro de cada cidade de cada país, continuou havendo gente plantando cannabis. Só que, hoje, quando se caminha pelas cidades humanas, não se vê mais pés de maconha crescendo ao lado de cada casinha, de cada beira de rio ou de estrada, de cada clareira. As plantas estão escondidas – dentro de armários ou porões, alimentadas de luz artificial. Mesmo escondida, essa velha companheira vegetal da humanidade continua por perto, como sempre. Longas coevoluções não se encerram porque alguém assina uma lei.

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