Home Cultura Famosos Chico Buarque recebe troféu Camões 2019 - Maconha nas Entrelinhas

Chico Buarque recebe troféu Camões 2019 – Maconha nas Entrelinhas

Nascido e criando na marola intelectual, Chico Buarque tem seu gênio das letras reconhecido

Ele não se diz maconheiro… mas confessou ter usado, jogou bola com Bob Marley, faz parte de uma família que gosta da marola e já até colocou a erva em uma ou duas de suas letras. Com posicionamento político declarado e uma caneta que pesa mais de 16 toneladas, Chico Buarque de Holanda recebeu, na última semana, o troféu Camões 2019!

O prêmio escolhe anualmente escritores lusófonos pelo conjunto da obra. Chico foi o 13º brasileiro a levantar esse tão importante caneco. Além da honraria, o escritor e compositor ganhou uma quantia de 100 mil euros (cerca de 449 mil reais), pelos trabalhos prestados à língua portuguesa. (Em pensar que um campeão do Big Brother ganha um milhão para ficar dois meses dormindo e fazendo festa… é pouco, né?)

O juri que elegeu o músico carioca foi formado pelos portugueses Clara Rowland e Manuel Frias Martins, o poeta brasileiro Antonio Cicero e o professor Antônio Carlos Hohlfeldt, a angolana Ana Paula Tavares e o moçambicano Nataniel Ngomane.

Você não viu o presidente Bolsonaro parabenizar o gênio pelo prêmio. Vimos ele comentar até golden shower no carnaval, mas um poeta que nasceu na mesma cidade que ele, representa o Brasil pelo mundo e ganhou um dos principais prêmios de literatura lusófona que existe, não deve merecer homenagem, certo? Errado.

O jornalismo alternativo sobrevive. A memória da contracultura deve ser preservada. E pra contrariar o que dizem por aí que maconheiro não tem memória, vamos relembrar aqui as principais palas da família Buarque, assim como homenagear o autor de músicas e livros impagáveis. Chico, você é foda!

“Não sou adepto”

Apesar de evidente defensor da legalização da maconha, Chico deu uma entrevista à revista TRIP em 2006 e disse não ser adepto da marofa. Quando a pergunta foi “Como foi sua experiência com as drogas? Experimentou um pouco de tudo?”, ele disse:

“Não experimentei tudo. Nunca fui na heroína, nunca me piquei. Foi o básico: fumei, cheirei, tomei ácido. E larguei isso tudo. Na verdade nunca fui um bom maconheiro. Eventualmente posso até fumar. Por exemplo, já me foi recomendado para dormir, eu tenho esse problema de insônia. Mas não dá certo comigo. Não me dá leseira, nem larica. Me deixa excitado. Aí eu preferi a cocaína, mas parei também, parei há muito tempo. Maconha ainda posso eventualmente fumar aqui e ali, não vejo muito mal. Mas não sou adepto.”

Um não adepto que defende a legalização, não vê mal e ainda fuma um “aqui e ali” podia ser o padrão nacional, não? A opinião é consciente. Por exemplo, na mesma entrevista, quando questionado se é a favor da legalização de todas as drogas, ele diz…

“Sou. E cada vez mais. No Brasil, nos países pobres principalmente, a quantidade de vítimas que o tráfico de drogas faz é muito maior que a de vítimas das próprias drogas. No Brasil, no Rio de Janeiro, moleques de nove, dez anos já estão cheirando cocaína, porque manejam, vendem cocaína. Envolve às vezes uma quantidade muito grande de crianças, adolescentes, acaba com a vida dessa gente, morre gente pra burro. Fora a violência toda que o próprio tráfico vai desencadeando. É claro que você não pode pensar em liberar abertamente o consumo de drogas se não tiver um interesse internacional. Senão, cria-se um problema. Você pode ir a Amsterdã e fumar sua bagana e tal, mas não pode sair de lá com o negócio. Se produzissem legalmente cigarros de maconha, se fossem vendidos nas tabacarias, no Brasil, como aliás digo numa música, não vejo que o dano… quer dizer, haveria, claro, um problema de saúde pública, como com o cigarro, como com as drogas farmacêuticas, o consumo de álcool.”

Marola na Família

O Chico vem de uma família da pensadores. Nem todo mundo sabe, mas seu pai é um dos pilares da sociologia nacional e um dos mais renomados intelectuais do Brasil. Reza a lenda que Sérgio Buarque de Holanda era maconheiro, esse sim, “adepto” da fumaça.

Sua irmã, Miúcha, confeccionava os baseados e deixava em um elefante de prata na biblioteca. Por vezes, o professor queimava um, dois, ou até todos os cigarros confeccionados. Ela foi uma cantora badalada na época da Bossa-nova, mas não deixou de explanar seu amor pela erva participando, desde sempre, do bloco Segura a Coisa, em Recife.

Marola na Música

Nunca me desceu bem essa história de a empresa por trás das decisões artísticas e empresariais de Chico Buarque de Holanda se chamar: Marola Edições Artísticas.

Mas até aí beleza, né… só um nome. E no mais, marola tem múltiplos e bons significados. Um deles é simplesmente relativo a uma sensação de tranquilidade, maré baixa, mar sem ondas ou problemas. Um pouco como foi a vida do nosso compositor. Uma marola máxima.

Descrevendo a sinestesia de um fim de tarde no Rio, Chico escreveu “Carioca”, que deu nome ao álbum, e destinou um dos versos “a neblina da ganja”, como se esse efeito especial de fumaça fizesse (e faz) parte do cenário da cidade maravilhosa. Escuta aí:

Já na onírica “Outros Sonhos” ele dedica mais uma verso à erva, dessa vez mais explícito: “maconha só se comprava na tabacaria… drogas na drogaria”, como se fizesse uma diferenciação clara, mas incluindo no sonho a legalização de todas as drogas. Para quem não conhece, é possível ouvir AQUI.

Marola na Bola

Além de trabalhar na Marola, ter colocado ganja e maconha em seus versos, ser da família de maconheiros, ter assumido que fuma às vezes, ser um dos mais geniais compositores da música popular brasileira e ter ganhado um prêmio Jabuti (o mais importante da literatura nacional) e agora o Camões… Chico Buarque tem no currículo um item que qualquer cannabista do mundo gostaria de ter: ele jobou bola com Bob Marley!

Foi em 1980, quando o rei do Reggae estava pelo Brasil para uma campanha de marketing do selo Ariola. Como ainda era época de ditadura militar no país, assim que chegaram todos os músicos tiveram seus vistos de trabalho confiscados, o que impediu qualquer possibilidade de apresentação da comitiva.

Sem muita opção do que fazer no Rio e como eram loucos por futebol, os jamaicanos foram em busca de bater uma bola. Quem fez a ponte foi o jogador Paulo César Caju. “Na época eu gostava de soul, curtia Stevie Wonder, Marvin Gaye, Ray Charles. Mas depois disso, passei a admirá-lo também. Fizemos vários passeios, pintou realmente uma afinidade. Ele falou que queria jogar bola comigo, aí liguei para o Chico (Buarque)”, disse o ex-jogador, lembrando que o amigo mantinha um time de futebol amador consagrado na cidade, o Politheama, com campo de futebol e tudo.

Agora você imagine esse jogo, com a seguinte escalação:

Time A: Bob Marley, Junior Marvin (guitarrista do The Wailers), Paulo César Caju (jogador da Seleção Brasileira nos anos 70), Toquinho, Chico Buarque e Jacob Miller. E no Time B: Alceu Valença, Chicão (da banda Jorge Ben) e quatro funcionários da gravadora Island Records. Será que teve ganja no fim, como relaxante muscular?

Bob Marley chegando ao campo do Politheama

Marola na Política

Chico Buarque sempre foi autuante na política nacional. Desde os tempos da ditadura, quando atuou tanto como militante nas ruas, nos movimentos Diretas Já, quanto militando nos versos, subversivos, escondidos da censura.

Por causa desse posicionamento, mesmo sendo um grande nome da música popular, poucas vezes deu as caras nos grandes veículos de comunicação. Sempre aliado às ideologias de esquerda, embora tenha direcionado críticas ao governo e organização do Partido dos Trabalhadores, Chico envelheceu sem perder as raízes ideológicas.

Sendo assim, não recebeu parabenização do presidente atual. Mas recebeu um bilhete do cárcere muito significativo. Um pedaço de papel, que saiu de uma cela para entrar na história:

Carta de Lula para Chico Buarque, parabenizando pelo Prêmio Camões

Marola Literária

Além das composições, o que levou os jurados a confiarem o prêmio em nome de Chico Buarque foi sua contribuição para a literatura. Na área do romance o carioca estreou com “Estorvo”, em 1991. Depois disso ele lançou ainda “Benjamim”, “Budapeste”, “Leite Derramado” e o “Irmão Alemão”, esse último chega a ter referências à cannabis.

Outro prêmio literário importante na estante de Chico é o prêmio Roger Caillois, também pelo conjunto da obra, concedido na França, em 2017. Já quanto ao Camões, é bem verdade que, um dos jurados confirmou, Chico levantou o troféu mais pela densa e conceituada obra em verso do que em prosa, o que faz dele um romancista especial na lista de vencedores do prêmio.

Chico Buarque lendo trecho do Irmão Alemão

Com todo esse contexto político, artístico e canábico, não podíamos mesmo deixar de registrar aqui a nossa homenagem ao grande mestre! Um gênio que, talvez, só seja reconhecido, de fato, a altura que merece, por nossa população, daqui há algumas décadas ou séculos. Mas vai acontecer. Se os investimentos em educação não forem ignorados, há de nascer no Brasil uma geração que dê valor a seus poetas e pensadores. Caro Chico, teu nome estará eternamente gravado na calçada da fuma (ops), da fama!

2 COMMENTS

  1. Poeta….. Tem video desse poeta, falando sobre comprar músicas……
    Ele ja foi hiper favorecido com a famosa lei Rouanet…..
    Pra que, que Bolsonaro tem que comentar alguma coisa……
    Toda essa grandiosidade, do Chico Buarque, foi muito bem paga, ao longo de sua carreira.

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