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Cannabis Brasiliensis

por Rafael Moraes

África, berço dos primeiros hominídeos a caminharem sobre a Terra. Tantos eventos e legados atribuídos a esse continente pré-histórico, que fica difícil mensurar a importância de cada um. Infelizmente para nós, admiradores da verdinha, os vestígios históricos acerca da Cannabis neste continente são escassos, sendo os únicos propagadores de registros e pesquisas científicas os colonizadores europeus e pesquisadores brancos.

O que se sabe por instância é que a “Dagga” (como era chamada na África do Sul) teria sido introduzida no continente africano pelos comerciantes árabes, através do Egito. Poucos registros sugerem o uso da planta para rituais xamânicos, devido ao fato de os europeus menosprezarem essa prática. E claro, o uso mais que proeminente da maconha para tratar as mais diversas moléstias e enfermidades: picada de cobra, dores de parto, malária, disenteria, febre da água negra, asma, e até antraz!

Mas o texto de hoje não irá abordar a África, e sim as culturas que nasceram e se desenvolveram com seus traços étnicos, em especial uma de um país muito querido por nós: Brasil. A origem da Cannabis em nosso país vem da metade do século XV, majoritariamente disseminada pelos escravos Angolanos. A concentração de plantio ocorreu no Nordeste, onde a planta era usada para curar males, praticar rituais e alucinações místicas. Logo, a presença vulgar da maconha atraiu interessados na brisa “mística” dos povos africanos. Pescadores e habitantes da costa aderiram ao uso, e logo a Cannabis seria chamada de “o ópio dos pobres”. Alguns dos apelidos característicos da verdinha eram: “diamba”, “liamba” e claro, “maconha”.

No sudeste, porém, as plantações de café exigiram dos escravos uma disciplina mais rígida, e, portanto um uso repudiado da Cannabis. Um ditado regional afirmava: “Maconha em pito faz negro sem vergonha”. Apesar dos registros indicarem que os escravos introduziram a prática de fumar maconha, índios amazonenses e comunidades não escravagistas do norte também integraram o costume. De fato, o estado que mais se beneficiou do plantio da Mary Jane foi Alagoas. A planta era vendida aos centros urbanos da região, e inúmeros fazendeiros possuíam colheitas adjacentes às plantações de cana-de-açúcar para uso próprio. Comunidades estabelecidas ao redor do Rio São Francisco eram famosas por fumar maconha em “maricas”, artefatos similares à cachimbos.

O ritual mais ilustre sem sombra de dúvida era o “queima da herva”: nas noites de sábados ou feriados, indivíduos se reuniam na casa do mais velho entre eles, sentavam ao redor de uma mesa jogando conversa fora e passando o “maricas” . Pescadores e jangadeiros do Rio São Francisco realizavam o mesmo ritual.

A diversão acabou quando no século IX, proclamações emitidas criminalizaram o uso de Cannabis nas capitais e centros urbanos. Para a sorte dos nordestinos, tais proibições não surgiram efeito nas províncias do Nordeste, sendo a maconha um emblema intrínseco dessa região até os dias de hoje. Então porque tal importância foi esquecida nas poeiras do vento, vocês me perguntam? Bem, o maior esforço das potências mundiais no século XIII,IX, e XX foi coibir totalmente o uso de Cannabis, unicamente pelo fato do cânhamo ser um tecido superior em qualidade e competitividade ao algodão. Ou seja, talvez a erva mais importante na história da humanidade teve sua presença boicotada pela simples ganância das grandes potências (abordarei esse tema com mais respaldo em futuros textos).

Fontes: Cannabis and Culture

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