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BaianaSystem e Tropkillaz fazem ferver a Fundição lotada

No último sábado, dia 25/05, quem adentrou a Fundição Progresso deu de cara com um show antológico, ou seja, digno de ser eternizado em nossa sequelada memória coletiva

Tropkillaz ao vivo – Fotografia: Lisandro Garrido

A dupla de DJs Laudz e Zé Gonzales abriu os trabalhos botando a galera pra dançar e testando os graves da casa. “A revolução não será televisionada. Vai ser aqui, com vocês”, avisou o MC que acompanhou o Tropkillaz, antevendo uma noite especial, com as primeiras pedradas estilo baile funk.

O segundo som já ganhou coro da pista, com um remix a la Tropkillaz daquela que entoa: “daí tu pega o telefone, desbloqueia a tela…”, que virou direto pro Plaqtudum, do Recayd MOB – mostrando que os DJs sabem surfar no hype dos sons mais atuais. Claro que não parou por aí. Enchendo a playlist de clássicos no mesmo ritmo em que a galera ia se amontoando na pista, a dupla lançou, a sua maneira, BYOB, do System of A Down.  Nessa hora ouvi na multidão: “Eles são muito bons! Pode chamar eles pra minha festa de aniversário”, brincou, sorrindo e dançando, uma das expectadoras.

Já era quase meia noite quando o que espancava nas caixas de som era “Solinho da Rabeta”, botando a mulherada – muito presente na casa – para balançar ao som do grave. Na sequência, voltando ao RAP, uma pedrada precisa: Linhas de Soco, do Rincon Sapiência.

Pista já lotada ao som do Tropkillaz – Fotografia: Lisandro Garrido

No intervalo, o MC pede barulho para a os DJs, que voltam impressionando, botando todo mundo pra cantar junto ao som de Alcione. “Mas tem que me prender…”, e prendeu! Tocaram, no total, por 54 minutos, um set variado mesclado de novos e antigos hits da música daqui e do mundo.

Teve ainda “bum bum tan tan”, para as novinhas salientes e muito mais. Rolou incursão no reggae com Dawn Penn na clássica “No, No, No”, e a versão Tropkillaz do “Mambo Italiano”, fechando o set de abertura, levando a galera a cantar e dançar junto. Muito barulho para a abertura de uma noite mágica, a galera fez.

O mestre de cerimônia aproveitou o mic em mãos para dizer “obrigado Baiana”, agradecendo aos donos da festa. E nessa hora a pista já estava cheia de máscaras, malucos e bandeiras: o cenário perfeito para a banda baiana chegar chegando.

Baiana System – Mágico, Fervente e Sulamericano!

A estreia do “Sulamericano Show” no palco da Fundição Progresso foi foda! Como eu já tinha visto (quase por acaso) uma apresentação deles na Bahia, já estava apaixonado pelo som há anos. A febre se espalha de ouvido a ouvido e também pelo boca a boca. “Um amigo me apresentou a banda e disse que eu tinha que assistir um show deles”, disse Paulo Araújo, biólogo de 32 anos. De fato, quem assiste se impressiona.

O espetáculo começou com uma viagem de ancestralidade incrível, num recital sobre o tempo, com linda arte no telão mostrando rituais indígenas. O piano introduz o potencial instrumental da banda, seguido da guitarrinha arrasadora de Roberto Barreto e aí Russo Passapusso entra, de branco, brilhando e flutuando de alegria no palco de uma Fundição em êxtase. Para abrir os trabalhos, nada melhor que uma parceria do trio baiano com nada mais nada menos que Manu Chao. Sulamericano se já é uma canção interessante de se ouvir, imagina de se ver. Muita linha certeira pra um destino tão cruel no terceiro mundo. O som impele ao público rodas e muito swing. Percussão performática e avassaladora faz cama para Russo soltar o verbo: “Resistência na casa. Tem estudante aí?”, perguntou por diversas vezes.

Russo Passapusso a vontade no palco da Fundição Progresso, segurando bandeira da UNE – Fotografia: Lisandro Garrido

A segunda música colocou todo mundo para pular ao ritmo do “Saci”, com refrão gritando “Uh Pererê”, no ritmo de “Uh tererê”, brado comum em estádios e outras multidões. Nessa teve espaço para referência canábica. Russo puxou a clássica: “Eu fumo maconha, porque gosto da lombra (…) e fumo um, eu fumo dois… e guardo outro pra fumar depois”, no meio da canção, para depois voltar a letra original.

Roberto Barreto quebrando tudo na guitarrinha baiana – Fotografia: Lisandro Garrido

Muita gente com máscaras ao estilo a logo da banda estavam presentes. Pedro Umberto, jornalista de 22 anos, disse que levou não mais que dez minutos para fazer a dele. Ele já tinha assistido a banda tocar na Praça Mauá e em São Paulo e confessou que o que mais chama atenção no Baiana, para ele, é “além das letras fenomenais, a positividade e uma energia indescritível”.

O terceiro som é uma parceria de Russo com o baixista Seko Bass. “Arapuca” ganhou execução alto astral e com o front man da banda bem a vontade no palco. Na sequência, pra elevar as energias, “Alfazema” regava por afoxé. Enquanto a roda se debatida no meio da plateia, Russo reafirmava o sentido da canção: “É afoxé, avisa que é afoxé… quem tá aí acima, abençoa”, pediu ao público do segundo andar e terminou a canção com um sinal da cruz.

Em “Bola de Cristal”, quinta música do setlist, parecia que toda multidão estava flutuando ao som do Baiana. E pra surpresa geral, o hit “Lucro” veio ainda na primeira metade do show, arrancando coro e elevando a alma de quem brinda junto esse hino da contracultura. A essa altura Russo já cantava abraçado com uma bandeira da UNE e, em meia a canção original, puxou suave e carismático, dos dois lados do palco: “vou catar concha na beira do mar… pra fazer um colar de miçanga…”, comandando a massa.

A primeira metade do show termina com “Água”, autoexplicativa e engajada socialmente, e “Redoma” num “joga mais não cai” que flui para um duelo de guitarras envolvente. Era metade do show, mas já tinha valido o ingresso.

Russo Passapusso em estreia do Sulamericano Show, na Fundição Progresso – Fotografia: Lisandro Garrido

Russo Passapusso – Pulso Erguido!

Plateia em êxtase com apresentação do Baiana System, Fundição Progresso 25/05 – Fotografia: Lisandro Garrido

Batizado Roosevelt Ribeiro, nascido em Feira de Santana, o cantor e compositor Russo Passapusso faz parte do BaianaSystem desde 2008. Suas referências musicais, flow original, energia soteropolitana e capacidade de escrita, fazem dele um dos artistas mais proeminentes do atual cenário musical nacional. Não é exagero dizer isso, muito menos rasgação de seda (que aqui no Hempa é proibido), e quem atestou isso foram quase cinco mil pessoas, naquela madrugada de domingo, 26.

A segunda metade do espetáculo segue com três canções de Russo. As iluminadas “Dia da Caça”, “Playsom” e “Calamatraca”, todas do álbum Duas Cidades, de 2016. A banda completa o talento musical do compositor dando vigor e pulsação necessária para fazer contagiar os versos. Entre essas, uma mega roda se abriu no meio da Fundição: mascarados, dreadlocks, guerreiras, doidões, gente com apito e algumas performances protagonizaram um evento a parte, como numa metáfora da organização do mundo, perfeita e caótica, linda e desvairada.

Seko Bass quebrou tudo e pareceu muito feliz ao tocar cada música – Fotografia: Lisandro Garrido

O clássico “PlaySom” ganhou uma versão pesada e gritada inédita, levando a multidão a loucura, mais uma vez. Em “Calamatraca” Russo parece trocar o refrão original por algo como “Me respeita, se respeita”, e fazem execução longa e marcante. Parecendo possuído, evoca “não nasci para tomar baculejo”, repetido várias vezes, em tom de protesto, com uma mão entoando o microfone e a outra para trás. E faz questão de lembrar: “Nossa cultura em primeiro lugar. Eu não sou norte-americano”, antes de puxar, oportunamente, “Pagode de Russo”, de Luiz Gonzaga. É gênio. Reconhecer é o mínimo.

Entre outras, soltou também: “Pra calar a boca da mídia suja” e terminou o show dizendo “abre o olho, careta”. A décima segunda pedrada alcançou os alto falantes já pelas duas e sete da madruga. “Capim Guiné”, cheia de energia, abre alas para a reta final da apresentação. Russo rendeu saudações a quem pavimentou essa estrada da África até o mainstream dizendo: “Salve Nação Zumbi, Zulu Nation, Olodum…”, dentre outros bambas.

A música “Invisível” tem clipe simbólico para os fãs mais apaixonados pelas máscaras do Baiana. Talvez por isso, também fez soar o coro dos mais conectados com a banda, além de remexer os quadris e balançar madeixas. Na instrumental “Barravenida”, se não me engano, Russo puxou um tímido “vou plantar ganja, mas não vou vender”. E pra fechar, teve “Forasteiro”, formando uma grande e efervescente roda, ao som da guitarrinha baiana transcendental do Barreto.

“Isso não é só um show, isso não pode ser só um show”, diz Russo, profetizando a essência de sua arte. A apresentação é marcante, libertadora, extasiante, sensacional no limite da sensorialidade. Mais uma vez bate na tecla: “Aqui tem resistência? Tem estudante? Quem vai mudar o Brasil é o estudante”, fala antes de puxar a bônus track, pulando numa perna só, de novo, o “Saci”.

Fundição lotada recebe show antológico do BaianaSysten – Fotografia: Lisandro Garrido

Já eram duas e trinta e quatro quando a banda finalizou o show e a plateia permaneceu imóvel, sedenta por um bis. Numa noite de incrível celebração de boa música e plateia alucinada, mais um milagre aconteceu. A produtora Fefê levou nossas pérolas da discontecanábica do Hempa pros monstros darem sua canetada. Russo, que já foi vendedor de disco em Salvador, assinou a bolacha  junto ao guitarrista e produtor Roberto Barreto. Que honra, que noite, que show. Obrigado, Baiana.

por Cadu Oliveira
Fotografia: Lisandro Garrido

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