Venda legal de maconha no Uruguai emperra por excesso de demanda e restrição bancária

Clipadão

hempadao 1 dezembro, 2017

Falta maconha legal no Uruguai. A política criada em 2013 pelo governo do então presidente José Mujica avançou para sua etapa mais liberal em julho deste ano, quando a droga passou a ser vendida nas farmácias.

O processo de legalização é pioneiro na América Latina, mas ainda não funciona como esperado. A demanda dos usuários é maior do que a oferta e o sistema de produção e distribuição ainda é insuficiente.

Fonte: G1

Outro entrave são as restrições dos bancos ao dinheiro oriundo desse tipo de comércio. As instituições financeiras alegam que podem sofrer sanções internacionais por receber valores oriundos da venda de drogas – ainda que sejam legais em seu país.

De acordo com o governo do Uruguai, a dificuldade acontece porque os bancos locais necessitam de parceiros que sejam dos Estados Unidos, já que operam também com dólares. Os americanos, por sua vez, têm uma lei federal que proíbe o sistema financeiro de ter relações com entidades que comercializam maconha e outras substâncias (veja mais abaixo o caso de um farmacêutico que deixou de vender maconha por causa desse problema).

Esgotada em questão de horas

Numa farmácia cadastrada para vender maconha em Montevidéu, uma placa mostra um número de telefone. Os usuários são avisados por Whatsapp quando chega uma nova remessa: “llegó la marihuana” (chegou a maconha). Os pacotinhos de 5 gramas são vendidos em horas por cerca de R$ 20. Nas primeiras semanas da liberação nas drogarias, acabavam em questão de minutos. Não faltaram fotos das filas em frente às lojas cadastradas.

Compradores cadastrados fazem fila para comprar maconha legal em farmácia de Montevidéu, no Uruguai, no primeiro dia de vendas, na quarta (19) (Foto: AP Photo/Matilde Campodonico)<?

Compradores cadastrados fazem fila para comprar maconha legal em farmácia de Montevidéu, no Uruguai, no primeiro dia de vendas, na quarta (19) (Foto: AP Photo/Matilde Campodonico)

Os farmacêuticos sabem que a quantidade enviada pelos produtores oficiais do governo não vai bastar para o tanto de interessados – são mais de 15 mil cadastrados para apenas 12 pontos de venda no país todo. Com isso, os alertas por Whatsapp garantem a informação para os compradores da maconha legal, e leva quem chegar primeiro.

O G1 visitou três das cinco farmácias da capital, Montevidéu, com cadastro para a venda. Durante três dias, nenhuma tinha droga para venda. Uma delas informou que iria receber na semana seguinte. As outras duas pediram para continuar em contato, sem previsão.

O início e o fim da distribuição da droga legalizada no Uruguai (Foto: Betta Jaworski/Arte G1)O início e o fim da distribuição da droga legalizada no Uruguai (Foto: Betta Jaworski/Arte G1)

O início e o fim da distribuição da droga legalizada no Uruguai (Foto: Betta Jaworski/Arte G1)

Produção controlada

Como o processo ainda está em fase inicial, a distribuição da droga não está dimensionada para a demanda. Duas empresas foram aprovadas na licitação para a produção da erva. Elas precisam trabalhar em um espaço monitorado por um técnicos do governo e de outras instituições, garantindo as regras especificadas para a segurança dos produtos.

As levas precisam sair de 15 em 15 dias para os 12 pontos de venda – o que leva tempo de transporte. As farmácias podem ficar com o limite de até 2 kg em estoque, uma medida para garantir a segurança.

Com a alta demanda, os estabelecimentos ficam algum tempo desabastecidos – principalmente em Montevidéu, onde vivem 55% dos consumidores.

Os pacotes têm uma identidade visual definida pelo governo, com o índice de princípio ativo padronizado, indicações para não fumar e dirigir, e os riscos à saúde.

Usuária cadastrada, Maria Noel, em Montevidéu, mostra pacote de 5g de maconha legalizada (Foto: Carolina Dantas/G1)

Usuária cadastrada, Maria Noel, em Montevidéu, mostra pacote de 5g de maconha legalizada (Foto: Carolina Dantas/G1)

Inicialmente havia dois tipos de maconha disponíveis: Alfa I, híbrido com predominância índica (uma das espécies de cannabis) e teor de 7% de canabidiol, e Beta I, com mais sativa (outra espécie) e 6% de canabidiol. Outras duas variedades foram incluídas nas vendas em novembro, a Alfa II M e Beta II M, um pouco mais fortes que as duas primeiras.

O processo de cultivo para ter um produto padronizado ainda está em aprimoramento. Em outubro e novembro, o Instituto de Regulação e Controle da Cannabis (IRCCA, sigla em espanhol) chegou a suspender a distribuição por cerca de três semanas.

“Isso se deve à variabilidade que se pode esperar no perfil químico desses cultivos, que, para garantir as condições do produto final, obriga a realizar provas adicionais de laboratório e modificação dos registros junto ao Ministério da Saúde Pública, condições que são necessárias para a distribução”, diz um comunicado do instituto.

Ou seja, o produto, às vezes, precisa passar por novos testes antes de ser liberado para a venda.

Primeiro em tudo

Esteban Riveira em frente à farmácia Pitágoras, em Montevidéu (Foto: Carolina Dantas/G1)

Esteban Riveira em frente à farmácia Pitágoras, em Montevidéu (Foto: Carolina Dantas/G1)

Esteban Riveira, dono da farmácia Pitágoras, em Montevidéu, tem orgulho de dizer que foi o primeiro a entrar no cadastro de lojas para vender a maconha legalizada. Ele conta que é simpatizante das ideias do governo Mujica e apoia o atual governo de Tabaré Vázquez, que ele define como “nem tão mais de esquerda”.

“Pepe Mujica” foi presidente do Uruguai de 2010 a 2015. Durante seu mandato, à frente de uma coalizão de centro-esquerda, além da maconha, o país descriminalizou o aborto, em 2012, e permitiu a adoção de crianças por casais homossexuais, em 2013. Os gays também foram incluídos nas Forças Armadas.

José Mujica acena ao povo em seu último evento oficial como presidente do Urugua (Foto: Reuters/Andres Stapff)

José Mujica acena ao povo em seu último evento oficial como presidente do Urugua (Foto: Reuters/Andres Stapff)

“Entrar para a venda é um apoio político”, disse Riveira. “Acompanhei todo o processo, desde os primeiros anúncios, e comecei a preparar a documentação”.

Riveira fez uma pequena reforma em uma sala na parte de trás da farmácia, colocou uma porta mais escondida para guardar os pacotes com segurança. Segundo Riveira, as mudanças em seu comércio eram uma exigência do governo para poder vender. Na primeira semana, o farmacêutico lembra que a fila “virava a esquina”.

“Tinha que sair, ir até a fila e contar quantos pacotes restavam. Aí, avisava as pessoas que ainda teriam maconha e poderiam esperar”, explica.

“Fiquei cadastrado 12 dias, mas vendi só por dois dias, quando me entregavam a maconha, nada mais. Umas 800 pessoas compraram em 6 horas de trabalho. É um negócio fabuloso, muito lucrativo”.

Pacote de maconha tipo Indica, com informações exigidas pelo governo do Uruguai (Foto: Carolina Dantas/G1)

Pacote de maconha tipo Indica, com informações exigidas pelo governo do Uruguai (Foto: Carolina Dantas/G1)

A coisa ia bem até ele receber uma carta do banco. Haviam cancelado sua conta corrente porque o dinheiro com origem na venda de maconha não poderia ser depositado, devido ao temor da instituição de sofrer sanções.

Com essa dificuldade, o primeiro farmacêutico a entrar no comércio legal da droga foi também o primeiro a sair. Riveira disse que chegou a pedir a abertura de uma nova conta num banco estatal, mas não recebeu resposta.

Só em dinheiro

A saída para as farmácias que vendem a droga é aceitar apenas pagamento em dinheiro. Isso ajuda a evitar, pelo menos de forma emergencial, a questão dos bancos.

Aviso em farmácia no centro de Montevidéu explica que aceita apenas pagamento em dinheiro e que a próxima compra poderá ocorrer só em 7 dias (Foto: Carolina Dantas/G1)Aviso em farmácia no centro de Montevidéu explica que aceita apenas pagamento em dinheiro e que a próxima compra poderá ocorrer só em 7 dias (Foto: Carolina Dantas/G1)

Aviso em farmácia no centro de Montevidéu explica que aceita apenas pagamento em dinheiro e que a próxima compra poderá ocorrer só em 7 dias (Foto: Carolina Dantas/G1)

Juan Andrés Roballo, da secretaria da presidência do Uruguai, diz que há negociações em andamento nos Estados Unidos para resolver as dificuldades do sistema financeiro e a venda de maconha legal no Uruguai.

“O Uruguai apresenta a mesma situação por que passam outros países, inclusive estados americanos, que também começaram a regulamentação da maconha”, disse.

O governo do Uruguai estuda ainda a criação de estabelecimentos que vendam apenas maconha. “Trata-se de um formato de estabelecimento que permite maior agilidade e não fica condicionado pelo sistema financeiro”, diz Roballo.

Impressão digital

Outro problema que tem afugentado os uruguaios da maconha legal é um cadastro obrigatório junto ao governo.

Os usuários têm três formas principais de obter a droga de forma regularizada: o cultivo em casa, o cultivo em clubes cooperativos e a compra em farmácias.

Nessas três situações, é necessário se registrar. Maria Noel, economista de 24 anos, é cadastrada para a terceira forma.

“Você tem que deixar sua impressão digital. Não precisa apresentar nenhum documento. É muito rápido”, disse.

“Em princípio, poucas pessoas se registraram porque tem muita gente que acredita que não é certo que o governo registre o nomes das pessoas que querem comprar”.

As informações são sigilosas, mas precisam ser fornecidas ao governo. Maria diz que alguns conhecidos preferem conseguir a maconha com quem tem o registro para plantar em casa, sem deixar rastro.

O medo de alguns é que a lista de cadastrados seja aberta em algum momento, já que o comércio legal de maconha não é unanimidade no país e o governo pode um dia mudar de mãos ou a lei pode mudar.

Maconha na América Latina: a situação dos países (Foto: Betta Jaworski/Arte G1)Maconha na América Latina: a situação dos países (Foto: Betta Jaworski/Arte G1)



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