Usuário como protagonista da redução de danos (PARTE II)

Portas da Percepção

hempadao 1 junho, 2017

por Fernando Beserra

PARTE I do texto: AQUI

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1945/2006) formulou uma concepção de psique que inclui o processo de individuação. Quando se analisa o inconsciente, por exemplo, por meio da análise de sonhos – e igualmente pode-se notar pelas experiências psicodélicas – observa-se a existência de um processo potencial de desenvolvimento da personalidade que se desdobra, parcialmente, a margem da consciência. O inconsciente, como fator auto organizador da psique, realiza compensações à atitude unilateral da consciência, possibilitando a ampliação da consciência e a integração daquelas imagens emergentes. Portanto, para que ocorra o processo de desenvolvimento psicológico denominado processo de individuação, é necessária a participação da consciência, com uma atitude que não seja de oposição ao vir-a-ser psíquico apresentado, por exemplo, na experiência psicodélica. Este processo conduz à singularidade psicológica, ao mesmo tempo que promove a ampliação não narcísica da consciência e, no que se refere à redução de danos (RD) com uso de psicodélicos, deve-se atentar que o processo é único. Portanto, na emergência de imagens muito intensas, oriundas do inconsciente, para o psiconauta, não há regra geral de conduta, pois cada pessoa necessita de um tipo singular de intervenção. Por este motivo, tal como ocorre na psicoterapia com psicodélicos, o desenvolvimento da função intuição pode ser central para o manejo na RD. Apesar disso, não há função intuitiva que de conta deste encontro, sem o pleno respeito ao usuário e aquilo que ele traz.

Por conseguinte, cada pessoa se encontra em um momento particular de seu processo e requer um caminho único. Para alguns, um mergulho nas profundezas do inconsciente pode ser um alento e, para outras, uma experiência que deveria ser evitada e que não promove mais que fobia e pânico, ao menos em um set/setting específico. Mais do que o redutor e que o próprio usuário, o sistema psíquico funciona de maneira auto regulatória e se criado um setting favorável, com o devido cuidado e empatia, pode-se favorecer a emergência simbólica que catalisa, em momento posterior, a integração do que foi experimentado. O acolhimento no momento da experiência muito intensa, como um vaso alquímico, cria as condições de possibilidade de uma integração e de uma verdadeira ampliação da consciência. Nas palavras de Maclean (2015): “Providenciar espaços seguros em festivais é uma das formas mais fáceis para tornar as experiências intensas, de auto absorção, potencialmente perigosas, em oportunidades para um insight partilhado e para o crescimento pessoal”.

No Fórum Estadual de Redução de Danos de São Paulo um dos posicionamentos acerca da RD é sua complexidade e caráter não prescritivo, isto é, uma mesma ação ser compreendida, para dois sujeitos distintos, de forma completamente oposta. Uma mesma ação, portanto, pode ter um efeito redutor de danos para um e promotor de danos para outro; desta forma, a construção deve ser realizada de forma singular e em construção conjunta (GODOY e outros, 2014).

A especificidade de cada encontro está amparada, outrossim, pela concepção de setting. Em diversos momentos a presença de um amigo age como uma ancora protetora aos psiconautas (ou como promotora de bad trips). Os amigos podem facilitar que sejam apresentadas importantes informações para os redutores de danos, por exemplo, acerca das substâncias utilizadas, das quantidades, dos modos de uso, etc. Facilitam, igualmente, conhecimentos que podem ser cruciais acerca das dificuldades do psiconauta naquele momento.

Se o setting é um elemento essencial do uso de substâncias não é diferente no caso dos psicodélicos; na verdade, o setting – no que concerne aos psicodélicos – é um fator primordial como transformador da experiência. Não é o mesmo usar LSD em uma festa, em um consultório, amparado por profissionais competentes, ou em um ambiente estranho e restrito, com pessoas que não confia. O ambiente, por mais que possamos esquecer disso, relaciona-se de forma profunda com os elementos subjetivos dos usuários e farmacológicos da(s) substância(s) utilizada(s). O setting, com efeito, é mais que o cenário imediato no qual usamos uma substância. Ele carrega a própria história, a cultura e seus valores e até mesmo os complexos culturais ali presentes. Portanto, usar um psicodélico em um contexto proibicionista não é o mesmo, em princípio, que usar em uma sociedade no qual o mesmo é regulado. De acordo com Rodrigues e Beserra (2015, p.116-117):

A história do proibicionismo e sua política de “guerra às drogas”, consagrada em três grandes convenções internacionais – a Convenção Única sobre Entorpecentes, de 1961, a Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, e a Convenção Contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas, de 1988 –, embora pretendesse se tornar a história da erradicação mundial de algumas drogas (RODRIGUES, 2012), da realização do sonho de uma sociedade abstinente de certas substâncias e da experiência que envolve a ingestão dessas substâncias, acabou se tornando a história de uma constante criação de settings negativos, favorecedores de bad trips e pesadelos, conforme exemplificamos adiante. Pois, se afirmamos que drogas pesadas são aquelas que não são o que parecem ser, sabemos que este não é o discurso hegemônico, por exemplo, na grande mídia, para a qual haverá sempre disponível uma droga mais sinistra, muito pesada, assustadora e perigosa em si mesma: demonizam-se certas drogas, sem levar em conta com seriedade como os danos são produzidos.

Ao refletir sobre o setting em seu relacionamento com a cultura e ambiente político-social, a inserção dos usuários em movimentos sociais, políticos e culturais que visem transformar a política de drogas atual ou a própria cultura podem ser compreendidos como ações de redução de riscos e danos. Alex Grey (2001) e Liliana Wahba (2008) observaram a necessidade de compensação de um excessivo materialismo e individualismo da cultura ocidental, indicando que os mesmos se mantêm como predominantes nesta cultura. Jung considerou, como um dos principais desafios do homem ocidental, o aprofundamento de si em oposição à massificação e indiferenciação (JUNG, 1957/1999). Isto é, quando os usuários adentram nestes grupos e movimentos, estão também promovendo o desenvolvimento cultural e das pessoas que compõe nossa sociedade. O aprofundamento em si, valorizado no psicodelismo, carrega este potencial. Diversos movimentos têm buscado o debate político, filosófico e sociocultural em torno dos psicodélicos. Um destes movimentos é a The Psychedelic Society que, iniciada na Inglaterra, hoje alcança diversos países como Irlanda, Estados Unidos e República Tcheca. A The Psychedelic Society preparou uma petição, por exemplo, para legalização dos cogumelos com psilocibina na Inglaterra; atualmente conta com uma campanha fantástica do orgulho psicodélico. Há um site a partir do qual temos uma ideia de algumas destas organizações que, fazendo ou não parte da The Psychedelic Society, buscam repensar os psicodélicos com seus diversos potenciais positivos: http://psychedelicsociety.global/. No Brasil há diversos movimentos de redução de danos que trabalham com substâncias psicodélicas há um tempo significativo. Atualmente, além disso, a Associação Psicodélica do Brasil (APB), um movimento que participo e participei da criação, também tem colocado como meta fundamental a luta pela regulação das substâncias psicodélicas. Desta forma, um de suas ações iniciais foi a criação das Alas Psicodélicas nas Marchas da Maconha, seguindo o movimento iniciado por Bruno Torturra e outros na Marcha da Maconha de São Paulo no ano de 2013. A partir de 2014 as Alas Psicodélicas apareceram na Marcha do Rio de Janeiro, com sequência em 2015. Em 2016 e 2017 já ocorreram movimentos em defesa dos psicodélicos e de sua regulação em diversas Marchas da Maconha do Brasil. A promoção de um setting antiproibicionista afeta diretamente o set do usuário e, portanto, é um redutor de danos.

Neste ponto encontramos mais um desafio ao redutor de danos que trabalham em festas. Katherine Maclean (2015), uma pesquisadora do uso terapêutico de psicodélicos no contexto clínico, publicou um texto no boletim do Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS) acerca de seus aprendizados trabalhando como redutora de danos: redução de danos, escreveu: “é sobre sentar em ambientes desconfortáveis e imprevisíveis com estranhos que, normalmente, tomaram grandes quantidades de substâncias desconhecidas”. De forma geral, os usuários conhecem melhor este contexto do que profissionais que trabalham no contexto clínico. Logo, mesmo os raros psicoterapeutas que trabalham com psicodélicos em pesquisa, podem aprender e muito acerca daquele contexto e do manejo daquele contexto com pessoas que já partilham dele há mais tempo. Pode-se lembrar que os psicoterapeutas com psicodélicos, também eles, passam por experiências psicodélicas em seus treinamentos, embora isso ainda hoje não seja plenamente reconhecido. E, nesta linha, eu diria que o redutor conhecer a experiência psicodélica em sua radicalidade, é condição essencial para estas ações.

Referências:

BUNING, E. Vinte e cinco anos de redução de danos: a experiência de Amsterdã. In: SILVEIRA, D. X. da et MOREIRA, F. (ORGS). Panorama atual de drogas e dependências. São Paulo: Atheneu. 2006.

FONSECA, 2005. Políticas de redução de danos ao uso de drogas: o contexto internacional e uma análise preliminar dos programas brasileiros. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública). Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2005.

GODOY, A.; RAMOS, B.; SANT´ANNA, M.; MARCONDES, R. (Orgs). Fórum estadual de redução de danos de São Paulo: construção, diálogo e intervenção política. 2014.

GROF, S. Além do cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia. São Paulo: McGraw-Hill, 1987.

JORGE, M. S. B.; PINTO, M. D.; QUINDERÉ, P. H. D.; PINTO, A. G. A.; SOUSA, F. S. P.; CAVALCANTE, C. M. Promoção da Saúde Mental – Tecnologias do Cuidado: vínculo, acolhimento, co-responsabilização e autonomia. Ciência & Saúde Coletiva, 16(7):3051-3060, 2011.

JUNG, C. G. A psicologia do arquétipo da criança In: Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas, v. IX/1, Petrópolis: Vozes, 1940/2000. p. 151-180.

JUNG, C. G.; JAFFÉ, A. Memórias, sonhos e reflexões. Compilação e prefácio de Aniela Jaffé. 24ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1962/2005.

JUNG, C. G. A essência dos sonhos In: Natureza da psique. Obras Completas. v. VIII/2 – 6ª ed., Petrópolis: Vozes, 1945/2006.

JUNG, C. G. A psicologia da transferência In: Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Obras Completas, v. XVI/2 – 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 1946/2011.

LEARY, T.; METZNER, R.; ALPERT, R. A experiência psicodélica: um manual baseado no livro tibetano dos mortos. 1964.

LEARY, T. Flashbacks: surfando no caos. São Paulo: Beca Produções Culturais, 1999.

RAMÔA, M. A desinstitucionalização da clínica na reforma psiquiátrica: um estudo sobre o projeto Caps ad. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.

RODRIGUES, S. E.; BESERRA, F. R. Drogas pesadas em discussão no Primeiro Seminário sobre Psicodélicos do Rio de Janeiro. Argumentum, Vitória (ES), v. 7, n.1, p. 108-125, jan./jun. 2015.

Mais sobre redução de danos no Hempadão:

BESERRA, F. R. Redução de danos em contexto de festas. Portas da Percepção, Hempadão. 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/reduo-de-danos-em-contexto-de-festas/>.

BESERRA, F. R. MDMA e redução de danos. Portas da Percepção, Hempadão. 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/mdma-e-reducao-de-danos/>.

COLE, K. Trabalhando com uma crise psicodélica (parte 1). Tradução: Fernando Beserra. Portas da Percepção, Hempadão, 2012. Disponível em: <http://hempadao.blogspot.com.br/2012/12/como-trabalhar-com-experiencias.html>.

COLE, K. Variedade das crises psicodélicas. Tradução: Fernando Beserra. Portas da Percepção, Hempadão, 2013. Disponível em: <http://hempadao.blogspot.com.br/2013/01/variedades-das-crises-psiquedelicas.html>.

COLE, K. Trabalhando com uma crise psicodélica (parte 3). Tradução: Fernando Beserra. Portas da Percepção, Hempadão. 2013. Disponível em: <http://hempadao.blogspot.com.br/2013/01/trabalhando-com-uma-crise-psiquedelica.html>.

MCLEAN, K. Confie, deixe ir, esteja aberto: redução de danos de psicodélicos no deserto e além. Tradução: Fernando Beserra. Portas da Percepção, Hempadão, 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/reducao-de-danos-com-psicodelicos-em-grandes-festivais/>.



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