Uma História de Marola, Cadeia e Pregação Ativista! [bONG 210#]

bONG

hempadao 8 março, 2013

Relato de um leitor enviado para hempadao@gmail.com

 

abordagem[3]Com dezesseis anos eu cursava o segundo ano do ensino médio no período da tarde. De manhã trabalhava como atendente de call center na Sabesp (Empresa de Saneamento Básico de SP), emprego conquistado em concurso há pouco mais de 1 mês. O mês era julho, férias escolares, e eu e mais dois colegas de trabalho e classe resolvemos queimar um baseado em nossa tarde livre, depois de uma manhã em um dos trabalhos mais chatos já inventados. Eu, Jamaica e Shindi (caucasiano, afrodescendente e descendente de japonês, respectivamente) fomos em uma praça próxima a minha casa chamada “Área Verde”. O verde do nome se refere provavelmente as árvores do local, mas também pode ter o duplo sentido, já que o local é utilizado para a queima da ganja por pelo menos umas 3 gerações. Sentamos e mostrei meu kit para os amigos, dentro de um porta-niquel guardava o cachimbinho desmontável, dichavador, isqueiro e duas parangas de 5 reais (prensado, pelo preço deve-se imaginar a qualidade do negócio). Fumamos tranquilamente até todos fazerem a cabeça e resolvemos dar um rolê pelo bairro. Paramos para sentar em um banco próximo dali, do outro lado da avenida, sob a sombra de uma árvore. Papo vai, papo vem, risadas que não acabam mais…

 

Foi quando a brisa simplesmente sumiu, instantaneamente, ao ver duas motos da PM se aproximarem. Meu primeiro instinto foi enfiar as mãos nos bolsos procurando meu kit (você deve estar pensando: que muleque vacilão, andar com o B.O. no bolso! Porém eu já fumava por ali a mais ou menos um ano e nunca tinha tido problema com polícia), não encontrava de jeito nenhum! “Porra! Cadê??? Será que eu deixei cair? Será que uma mão divina tirou do meu bolso porque sabia que isso ia acontecer?” foi meu pensamento. Quando olhei pra cima as próximas coisas que vi e ouvi foram um revolver cromado apontado diretamente para a minha testa e um grito: MÃO NA CABEÇA!!! MÃO NA CABEÇA!!! NÃO TÔ DE BRINCADEIRA!!!

Nessa hora eu entrei em uma brisa que eu ainda não senti de novo desde então. Foi um gelo que subiu do cóccix até o topo do crânio e me deixou em um estado de choque. Só fiz o que ele mandou, levantei com as mãos na cabeça e virei de costas. Os outros dois fizeram os mesmo e já começou o papo: Cadê? Cadê o bagulho que vocês estavam fumando?

Nesse ponto nenhum dos três conseguia abrir a boca pra falar, mais algumas vezes perguntadas e o Shindi respondeu: A gente não estava fumando nada.

– Mentira! Tô sentindo cheiro! – E começou a revistar o Shindi.

Passou rapidamente dele para mim, que estava a sua direita, começando pelos bolsos da calça, foi quando me lembrei que a jaqueta que estava vestindo possuia um bolso interno na altura do peito. Com certeza estava lá, por isso não tinha achado antes! Fiquei torcendo para que ele não passasse as mãos perto dali e pareceu que adiantou, ele passou a revistar o Jamaica.

CAMBURAO-PMAo revistá-lo começou a perguntar onde ele morava e o que fazia ali enquanto lhe dava socos e batidas com as costas das mãos em seus órgãos genitais. Demoraram muito mais revistando-o, e vendo que estava limpo recomeçaram a revista pelo Shindi. Dessa vez encontraram um pedaço minúsculo de beck em um dos bolsos dele. Voltou em mim e dessa vez não escapei. Depois disso começou aquele papo furado que todo maconheiro que já foi enquadrado conhece.

Minutos depois, um pouco mais tranquilos, já aceitando melhor a situação, olhando para a rua vejo um carro igual ao da minha tia. Dentro do carro minha vó e minha tia dirigindo, que teriam passado reto sem perceber se não fosse pelas minhas duas primas menores boquiabertas no banco de trás e olhando para mim.

Minha tia encosta o carro e todas saem correndo do carro, minha vó na frente e vai direto pro guarda falando: O que que é isso? É meu neto! O que vocês estão fazendo?

E o policial responde: Ahhh Olha o que o netinho querido da senhora estava fazendo… (mostrando meu kit beck).

Nesse momento eu vi uma cara de decepção que até hoje também ainda não vi igual. E ela ficou me perguntando: “Porque?? Porque?”

Enquanto isso minha tia ligava para minha mãe, que poucos minutos depois chegava em prantos com minha irmã. Parecia que eu havia sido assassinado. Nesse meio tempo já haviam mais 2 viaturas, totalizando 6 policiais na cena do “crime”. Os pais dos outros dois chegaram e minutos depois anunciaram que seriamos levados para a delegacia. Primeira vez que entrei em uma viatura, sentei entre meus dois colegas naquele banco de plástico duro e desconfortável. Foi quando notei um cheiro muito desagradável, merda. Que porra de fedor! Comecei a imaginar que o cheiro poderia ter sido de algum preso anterior a nós que estava cagado, algum bêbado, mendigo sujo. Os policiais entraram na viatura. O que sentou no lado do passageiro logo perguntou: que cheiro de merda é esse? QUEM DE VOCÊS PISOU NA MERDA?

Era só o que me faltava, era o cúmulo do azar, além de ter sido preso por fumar um baseado de boa, constatei ao olhar a sola de meu tênis que havia pisado em cheio em uma merda de cachorro enorme. Além disso, ao mesmo tempo ouvir o policial reclamando e me dizendo que eu teria que lavar a viatura quando chegasse e que se eu entrasse na DP com o pé sujo daquele jeito o delegado ia me foder. Me certifiquei de não encostar o pé no chão da viatura até a chegada na delegacia. Lá limpei o pé em um mato do outro lado da rua e quando voltava para a frente da delegacia me deparo com meu pai, vindo em minha direção, com uma cara de quem ia me partir em dois. Ao perceber a expressão do meu pai ao se aproximar de mim o policial disse: Se bater nele vão os dois presos!

Tomei aquela bronca, mas naquela hora já não estava ligando mais pra nada, pois o pensamento era: fodeu, vou ser preso e vão comer meu cú!

Esperamos muito tempo na frente da delegacia, enquanto os policiais falavam abobrinhas para nossos pais e mostravam o que haviam encontrado conosco. Um dos policiais chegou a dizer que o cachimbo que estava comigo era cachimbo de crack!

Entramos todos e fomos aos fundos da delegacia. Cada filho entrou com seus pais para conversar com o policial psicólogo em uma sala. Nessa hora foi que eu desandei a falar, não deixei um argumento anti-cannabis sem uma resposta concreta e bem formulada. Meus pais não acreditavam que eu estava fazendo aquilo, no fim das contas eles só queriam me ouvir que eu não ia continuar fumando e foi o que eu falei, só pra poder acabar com aquilo de uma vez e não gerar mais problemas para mim.

Depois disso entraram todos os pais juntos para conversar com esse policial sabichão. Já não aguentava mais aquela bobagem. Foi quando um policial apareceu e disse: Tirem tudo o que vocês tem nos bolsos, cadarços e cintos e ponham no chão, vocês estão presos!

Nos conduziram a cela da delegacia, um cubículo de no máximo 1,5m por 1,5m, que eu julgo que seria um banheiro adaptado para cela, já que o prédio da delegacia era uma antiga residência. Dentro da cela já haviam 5 presos, nos esprememos mais 3 e ouvi aquele som da grade de ferro batendo e o cadeado fechando: já era.

Cumprimentamos os outros presos e começamos a conversar. Dois deles estavam ali por assalto a mão armada, tentaram assaltar o Carrefour em plena luz do dia. Os outros três por furto, foram pegos roubando fios de cobre nas linhas de trem da CPTM. Durante nossa conversa revezávamos quem ia ficar agachado/sentado e quem ficaria em pé, já que não havia espaço para todos sentarem no chão, e em um desses revezamento Shindi percebeu que havia esquecido de deixar seu maço de cigarros com seu isqueiro que estavam em um bolso separado do lado de fora. Dois dos nossos companheiros de cela pediram um cigarro cada e começaram a fumar. Não demorou muito e começaram a sentir o cheiro do lado de fora e vieram averiguar.

-Apaga essa merda! Apaga essa merda! Quem entrou com cigarro??? Quem entrou com cigarro???

Muito gente boa, um dos presos que estava fumando apagou seu cigarro e inventou uma história para encobrir meu amigo, dizendo que durante uma visita a tarde sua tia havia entregado ao seu amigo, que era o único menor entre eles.

Continuamos conversando, o mesmo que inventou a história do cigarro era o mais comunicativo e não parava de falar contando histórias e outros roubos e falando de seus planos de ir para a Sicília viver de roubar carros com seu tio. Nesse meio tempo os policiais vieram duas vezes chamar nossa atenção por causa das risadas altas, dando batidas de cassetete contra as grades da cela. Tirei minhas dúvidas quanto a possibilidade de desvirginarem meu querido ânus caso fosse preso e eles me acalmaram dizendo que nós não iriamos ser presos, que só estavam querendo botar medo na gente.

Depois de aproximadamente uma hora desde a entrada na cela, saímos. Fizeram-nos prometer perante ao delegado de que não íamos voltar a cometer esse grande crime que é fumar um baseado e nos liberaram, sendo que depois de um mês teríamos que ir ao Juizado da Criança e do Adolescente assinar um termo prometendo o mesmo por escrito.

De vez enquanto me lembro desse dia, e sempre com um sentimento de revolta e indignação. Penso em como fui vacilão de andar com tudo aquilo no bolso, como aquilo só foi acontecer por que estava com um amigo negro. Mas ao mesmo tempo foi um dia muito importante na minha vida porque além de eu ter uma história legal pra contar, abriu o jogo com minha família mesmo eles não aceitando muito bem até hoje.

Hoje, por causa de uma tempestade que aparentemente quebrou a antena parabólica, deixando meus avós sem sua novela rotineira, tive a oportunidade de passar para eles o documentário “What If Cannabis Cures Cancer?” (E Se A Cannabis Curar Câncer?). Depois de várias pausas para explicar o conteúdo do documentário, consegui mudar 70 anos de mentiras proibicionistas na cabeça de ambos, o que me inspirou a escrever ao Hempadão. Se gostarem tenho outra história que acho que vale a pena ser contada também.



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