Tarja Preta na Cabeça! [Portas da Percepção Ed. #283]

Portas da Percepção

hempadao 1 agosto, 2014

por Jean Lefebvre

Nada menos que 10 milhões de caixas de Rivotril, nome com o qual é comercializado o ansiolítico produzido a partir do clonazepam, foram vendidas em 2010 no Brasil. Porém, a venda recorde de ansiolíticos levanta uma série de questões em relação ao consumo exacerbado.

Nunca antes na história deste país se usou tanto ansiolítico. Indicados para o controle de ansiedade e tensão, estão no topo da lista dos remédios mais consumidos pela população brasileira entre 2010 e 2014, apesar de serem de uso controlado.

 

A busca crescente por tranquilidade em comprimidos é comprovada em números. Ano passado, 14 milhões de caixinhas do ansiolítico Rivotril foram consumidas no país. Segundo o IMS Health, instituto que audita a indústria farmacêutica no Brasil, a droga só ficou atrás do anticoncepcional Microvlar, batendo até medicamentos de uso corriqueiro, como o analgésico Tylenol e a pomada para assaduras Hipoglós. Dez anos atrás, o Rivotril nem aparecia na lista dos 10 mais vendidos, e outro ansiolítico, o Lexotan, ficava na sexta colocação.

De acordo com o Boletim do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, desde 2007 os ansiolíticos feitos a partir de substâncias como clonazepam, bromazepam e alprazolam são os mais consumidos entre os 166 princípios ativos listados na Portaria nº 344, que inclui também as substâncias usadas em outros medicamentos de uso controlado, como emagrecedores e anabolizantes. Segundo a Anvisa, esses inibidores do sistema nervoso central têm sido mais consumidos no Brasil do que muitos medicamentos que não exigem receita médica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 – atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem do problema.

O aumento do consumo desse tipo de medicamento no Brasil acompanha uma tendência mundial. Nos Estados Unidos, esse avanço motivou o psiquiatra Derek Summerfield a escrever um artigo no Journal od the Royal Society of Medicine em que critica que parte do sucesso dos antidepressivos está não numa epidemia de depressão, mas numa "epidemia de receitas de antidepressivos". Antonio Barbosa Silva, presidente do Instituto Brasileiro de Defesa do Usuário de Medicamentos (Idum), concorda com a análise de Summerfield. "Há uma banalização do uso de remédios, tanto da população quanto dos médicos, que os receitam. Estão confundindo depressão com tristeza" afirma.

No país em que 43% da população está acima do peso ideal, não são apenas os estabilizadores de humor que vendem aos milhares. O uso de medicamentos tarja preta para emagrecer também é expressivo. Cerca de 1,6 milhão de brasileiros já fizeram uso de alguma fórmula vendida com retenção de receita para eliminar os quilos extras rapidinho. Metade desse consumo é de remédios à base de derivados de anfetaminas com mais de quatro substâncias associadas, uma prática condenada pelo Conselho Federal de Medicina. Mulheres na faixa etária de 25 a 35 anos são as maiores consumidoras de remédios antiobesidade.

Não se sabe quais os efeitos que essa mudança de comportamento trará a longo prazo. Por enquanto, o consumo exagerado de medicamentos é uma das principais causas de intoxicações no país. Um relatório divulgado em 2012 passado pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que as mortes por overdose bateram recorde. Com base em dados de 2007, a pesquisa mostra que, pela primeira vez, mortes por abuso de remédios ocuparam o segundo lugar no ranking para o sexo masculino, com 24 casos. Entre as mulheres, overdoses resultaram em 53 mortes. O levantamento também apontou que o abuso de remédios é responsável por 30% dos cerca de 100 mil casos anuais de intoxicação no país.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *




Papelito
Banner Sedina