Superando o trauma: Psicoterapia com MDMA

Portas da Percepção

hempadao 19 maio, 2016

por Fernando Beserra .:.

Após quase 40 anos de atraso causados por uma política de drogas proibicionista, a psicoterapia com psicodélicos retornou ao cenário da pesquisa internacional com um enorme destaque. Trata-se, hoje, de um dos mais promissores campos de pesquisa no campo da saúde mental e que poderá revolucionar, nas próximas décadas, o campo dos tratamentos psiquiátricos e psicológicos dos transtornos mentais e do comportamento. Lamentavelmente só o tempo dirá quais os agravos gerados pela privação destes métodos de atenção a pacientes com profundo sofrimento. Com efeito, já é possível observar que os danos são enormes e, possivelmente, irreparáveis.

Um dos mais instigantes usos de psicodélicos em pesquisa na atualidade é o uso terapêutico do metilenodioximetanfetamina (MDMA) na psicoterapia para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O MDMA é o princípio ativo que deveria encontrar-se no MD e nas balas comercializadas. Nem sempre é o que ocorre no mercado oriundo da proibição. Atualmente, usuários são surpreendidos com balas e MDs que não contém MDMA e contém, dentre outros: PMA, PMMA, anfetamina, metilona, butilona, etc. Já o Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é um transtorno de ansiedade caracterizado pela re-experiencia involuntaria das cenas traumáticas, com a ocorrência de evitação de sintomas e hiperexcitabilidade. Encontram-se, dentre os principais sinais para fins diagnósticos, de acordo com a 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V):

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Trata-se de um importante problema de saúde pública, devido ao grande número de pessoas com TEPT (MITHOEFER e outros, 2010). O sofrimento pode ser atroz e para muitos resulta em reduções importantes na capacidade laborativa. Em paises como o Brasil, com alto indice de violência contra a mulher, além da grande violência e assassinatos por armas de fogo, decorrente da guerra às drogas, o TEPT é uma realidade.

Tipicamente os tratamentos da TEPT são via farmacoterapia e psicoterapia. Na farmacoterapia emprega-se os antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) como a sertralina ou a paroxetina. Um estudo de revisão em 2008, do Comite no Tratamento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático), avaliou os tratamentos para TEPT e considerou inconclusiva a evidência de qualquer droga (medicamento) estudada para este tratamento. Algumas meta-análises encontraram que, em geral, a resposta da farmacoterapia era de 20 a 22% maior do que a resposta ao placebo e com os antidepressivos ISRS estudados 30% dos participantes da pesquisa encontravam remissão dos sintomas em 12 semanas (MITHOEFER e outros, 2010). Isto é, 70% não encontra melhora com a farmacoterapia com os melhores farmacos utilizados no momentos. A situação, com a junção entre farmacoterapia e psicoterapia, é um pouco melhor, mas ainda assim insatisfatória. Em geral, de acordo com a revisão de Mithoefer e outros (2010), a psicoterapia é ineficiente para 25 a 50% dos pacientes dos ensaios clínicos. Logo, há alguma eficiencia de melhoria do quadro para 50 a 75% dos participantes da pesquisa.

A eficácia do uso da psicoterapia com MDMA, no estudo de Mithoefer e outros (2010), alcança o incrível resultado de 83% de pacientes que não encontraram mais os critérios para o TEPT após 4 sessões de psicoterapia com MDMA, contra apenas 25% dos pacientes que receberam psicoterapia com placebo. A pesquisa foi realizada com 20 participantes. Portanto, um tratamento rápido e com alta eficácia.

Cabe observar que este resultado, do ponto de vista psicobiológico, parece estar relacionado a redução da amígdala. A amígdala que aqui é abordada é uma estrutura do sistema límbico do encéfalo humano. O sistema límbico é um sistema ligado, fisiologicamente, às emoções, sono, memória, medo, etc. No caso das reações de medo, elas são particularmente importantes na organização do TEPT. O paciente permanece preso em um sistema de emoções e pensamentos repetitivos ligados a cena traumática, que dificultam sua reação e possibilidade de ter uma boa qualidade de vida e superar o transtorno. O MDMA, com sua característica empatogênica, aumenta a empatia e confiança no outro, reduz o medo e aumenta a probabilidade de comportamentos interpessoais menos evasivos e ansiogênicos.

Acerca da memória implícita, a mesma fica ligada à amigdala e não passa ao córtex cerebral, diferente de um conjunto de memórias explicitas. Isto é, não há ligação direta entre funções executivas e relativas ao pensamento racional, dependente do córtex pré-frontal, e as emoções e sensações decorrentes do trauma, que agem a um nível mais basal. Para Diane Hancox, em sua dissertação “The middle ground of trauma: where neuroscience meets depth psychology” (2009), por este motivo que a psicoterapia envolvendo o TEPT deve avançar sobre temas como análise dos sonhos, uso da arte em terapia. Hancox alerta que a tarefa da terapia, neste caso, é criar a capacidade de experiência plena e criar representações simbólicas das experiências traumáticas do passado. Desta forma, o que se encontrava implícito encontra alternativa de expressão que era limitada por meio da linguagem verbal. Mais centros cerebrais disparam na resposta a metáfora do que para qualquer outro modo humano de comunicação (WILKINSON apud HANCOX, 2009).

A Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS) está contribuindo e realizando pesquisas na área e acredita que em 2021 tenhamos este tratamento regulamentado. No Brasil as pesquisas também ocorrem. Ano passado houve grande mobilização, inclusive aqui no Portas da Percepção, para contribuir com um crowdfunding para a pesquisa com psicoterapia com MDMA no tratamento da TEPT. A pesquisa é coordenada pelo neurocientista Eduardo Schenberg da ONG Plantando Consciência. Tive a alegria de estar no vídeo com ele e com o professor Sandro Rodrigues no exato momento que o crowdfunding alcançou a meta de 50 mil reais para realização da pesquisa. O vídeo pode ser visto aqui (http://www.youtube.com/watch?v=pfC3QXtHyr8).

Em uma palestra recente Eduardo apresentou um pouco de seu olhar sobre o tema no Festival Path. A entrevista com gravada por um dos integrantes do site Mundo Cogumelo, Rafael Beraldo, aqui (https://www.youtube.com/watch?v=BVpyEP0II2o). Enquanto isso, há várias organizações de eventos psicodélicos ocorrendo no Brasil e no mundo. Quem quiser conhecer um pouco de pesquisas interessantíssimas vale a pena conferir o evento na UNICAMP “Jornadas Plantas Sagradas em Perspectiva” (http://plantas-sagradas.net/) entre 9 e 11 de agosto.

Referências:

The safety and efficacy of 3,4-methylenedioxymethamphetamineassisted psychotherapy in subjects with chronic, treatment-resistant posttraumatic stress disorder: the first randomized controlled pilot study. Journal of Psychopharmacology. 2010.

HANCOX, Diane. The middle ground of trauma: where neuroscience meets depth psychology. Master of Arts in Counseling Psychology. Pacifica Institute. 2009.

SCHENBERG, Eduardo. Legalizando a medicina psicodélica. https://www.youtube.com/watch?v=BVpyEP0II2o

BESERRA, Fernando; SCHENBERG, Eduardo; RODRIGUES, Sandro. Psicodélicos em debate. https://www.youtube.com/watch?v=pfC3QXtHyr8

Mais posts sobre o assunto no Portas da Percepção:

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e neurotransmissores. Hempadão. 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/mdma-e-neurotransmissores/>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e redução de danos. Hempadão. 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/mdma-e-reducao-de-danos/>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e ilegalidade: parte 1. Hempadão. 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/legalidade-e-ilegalidade-do-mdma-ndash-parte-1/>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e ilegalidade: parte 2. Hempadão. 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/legalidade-e-ilegalidade-do-mdma-ndash-parte-ii/>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e depressão. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/mdma-e-depressao/>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e depressão: parte 2. Hempadão. 2015. <http://hempadao.com/mdma-e-depressao-parte-2/>.

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia com MDMA. Hempadão. 2015. Disponível em: – <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3155-psicoterapia-com-mdma.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. Ecstasy em debate. Hempadão, 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/2941-ecstasy-em-debate.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e psicopatia: um amor possível? Hempadão, 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/2977-mdma-e-psicopatia-um-amor-possivel.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. Ecstasy em debate. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/ecstasy-em-debate/>.



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