Sete excelentes Respostas de Henrique Carneiro!

ConverSativa

hempadao 17 junho, 2013

prof-henrique-carneiroO historiador Henrique Carneiro além de seu mérito e perícia acadêmica também é um tradicional militante já acostumado a ganhar às ruas! Sem dúvida esse deve ser um exemplo para nossa geração. Para saber um pouco mais sobre a carreira do professor e sua opinião sobre diversos pontos da nossa luta antiproibicionista, o Hempadão chamou ele para o Conversativa, aquele bate-papo descontraído em sete perguntas:

1] Em que momento da vida descobriu que poderia estudar as drogas num contexto acadêmico?

Desde adolescente me fascinavam os estudos antropológicos e etnobotânicos sobre alucinógenos, também li Aldous Huxley e pensava nos usos filosóficos e estéticos possíveis. Depois, quando entrei no curso de História da USP em 1987, logo me propus desenvolver uma investigação de mestrado sobre o assunto. O apoio da Profa. Dr.a Mary Del Priore, pioneira dos estudos culturais e da história da mulher, me abriu muitas perspectivas teóricas e práticas de fontes em acervos. Encontrei a obra do cristão-novo português Garcia da Orta no IEB-USP e me dediquei a estudar as drogas no século XVI no âmbito do mundo luso-asiático-americano.

2] Quais são suas principais publicações sobre esse assunto?

Meu mestrado e meu doutorado forma publicados em 1994 e 2002 respectivamente sob os títulos de “Filtros, mezinhas e triacas. As drogas no mundo moderno” e “Amores e sonhos da flora. Afrodisíacos e alucinógenos na botânica e na farmácia”, pela editora Xamã, de São Paulo. Depois publiquei em 2003, pela Campus, RJ, “Comida e sociedade. Uma história da alimentação”. Mais recentemente, em 2010, publiquei pela editora Senac-SP, “Bebida, abstinência e temperança na história antiga e moderna.”. Também ajudei a organizar obras coletivas, entre as quais, “Drogas e cultura. Novas perspectivas” (Edufba, 2008).

3] Que livros não podem faltar numa biblioteca de estudiosos desse tema?

Eu diria Aldous Huxley, Albert Hofmann, Richard Evans Schultes, Alexander Shulguin, Thomas Szasz: todos os livros. Mais Antonio Escohotado (“Historia General de las Drogas”) Richard Rudgley (“Essential substances”), Mike Jay (“Emperors of Dreams”), e o livro de Martin A. Lee e Bruce Shlain sobre o LSD (“Acid Dreams”). Isso sobre drogas em geral e especialmente alucinógenos. Sobre coca, ópio, tabaco, bebidas alcoólicas, etc. há vasta bibliografia.

4] Uma análise histórica do Brasil revela porque a demora para se programar uma mudança nas leis de drogas por aqui?

Creio que a situação do atraso e até retrocesso brasileiro na política de drogas é devido a uma aliança do governo do PT com a direita em geral, especialmente a direita evangélica fundamentalista. Junto a toda uma série de traições aos seus ideais fundadores, o PT acrescenta a promoção do poder dos grupos evangélicos recompensados com concessões de rádios e TVs, com isenções fiscais e até verbas públicas diretas, numa afronta ao estado laico.

 

5] Por que é tão difícil dialogar com a população quando o assunto é legalização das drogas?

A população é desinformada pela mídia em geral, que faz pânico moral e demonização da “droga” como uma abstração metafísica, pois não se refere a uma substância em particular, mas ao medo de todas elas por parte dos que nunca as tomaram, sem se darem conta de que o café, tabaco, remédios psicotrópicos e álcool são, da mesma forma, drogas psicoativas. A estigmatização de bodes-expiatórios para os problemas sociais faz com que se coloque a culpa da situação de miséria de consumidores de rua de crack na droga e não na falta de emprego, moradia, educação, saúde, etc. E se considera o padrão do henriquecarneiropusuário de crack na rua como o mesmo para todas as substâncias.

 

6] Ainda existe resistência à realização de debates e pesquisas sobre drogas dentro da universidade?

Na universidade, especialmente nas ciências humanas, cada vez mais tem havido um espaço crítico e de reflexão sobre as drogas do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico. Da mesma forma, as ciências jurídicas e a psicologia tem elaborado e pensado sobre o tema. Na medicina, embora prevaleça uma visão conservadora e atrasada na associação de psiquiatria, há também muitos pesquisadores antiproibicionistas e abertos a novos enfoques sobe drogas. A se destacar também, nas neurociências, pelo seu próprio objeto de estudo, um interesse em pesquisa com drogas que forma interditadas até mesmo no campo da ciência, especialmente os psicodélicos.

 

7] Que tipo de aliados o ativismo antiproibicionista deve buscar para fortalecer a luta social?

Os aliados do antiproibicionismo são os movimentos de direitos civis, como o de mulheres, de negros, indígenas, o movimento estudantil, os movimentos democráticos contrários à violência institucional e à violação dos direitos humanos dos usuários de drogas. Também o movimento sindical e dos trabalhadores deve ser ganho para a defesa de uma política de drogas não criminalizante.

É preciso definir que os usuários de drogas ilícitas são oprimidos pelo seu hábito, são setores sociais que reivindicam seu direito de existência como cidadãos de plenos direitos.



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