Sementes Psicodélicas: LSA-111 – PARTE III

Portas da Percepção

hempadao 1 abril, 2016

por Fernando Beserra

Nas últimas duas semanas apresentei, aqui no Portas da Percepção, a história das sementes que contém LSA, seus nomes e as terminologias adequadas, seus efeitos psicoativos e a origem da síntese do amido de ácido lisérgico, realizada por Albert Hofmann em 1947, embora o LSA já fosse conhecido desde 1932. Fico grato pelas discussões valiosas e relatos recebidos. Mas ainda há temas de extrema importância para que se tenha um panorama mínimo sobre estas sementes. No 2º texto da série foi iniciado o debate sobre o uso destas sementes e sua farmacodinâmica (ação do fármaco no organismo), no entanto, ainda faltou a elaboração sobre quantidades e potência destas substâncias.

Em um de seus usos tradicionais, de acordo com Wasson (1963), o uso espiritual do badoh negro se dava em múltiplos de 13 e julgava-se que estas sementes, oriundas da Ipomoea violacea, eram masculinas. Julgava-se, inclusive, que elas fossem mais potentes em sua psicoatividade que o badoh ou ololiuhqui, sementes da Turbina corymbosa, que se julgava feminina e era utilizado em múltiplos de 7, em baixas quantidades, como 14 ou 21 sementes. A análise dos povos tradicionais, ligada à psicoatividade das sementes, estava correta, conforme analisado no texto II desta sequência, isto é, tinham conhecimento de quais sementes propiciavam maior efeito, em decorrência de maior quantidade de seus princípios ativos. São os povos modernos e contemporâneos, de maneira geral, que ainda engatinham no conhecimento de muitas substâncias tradicionais, há de se considerar. Um quadro avaliativo construído no site Erowid estabelece, com justiça, embora tal construção careça de uma validade universal, medidas para diferenciar usos leves, comuns, fortes e pesados das sementes da planta Ipomoea violacea:

Doses orais das sementes da Ipomoea violacea

Leve

50 – 100 sementes

1.5 – 3 g

Comum

100 – 250 sementes

3 – 6 g

Forte

250 – 400 sementes

6 – 10 g

Pesado

400 + sementes

10 + g

Há relatos, no Erowid, de que as quantidades psicodélicas mínimas se dariam no consumo de 20 a 30 sementes, outros relatam que o efeito mínimo se dá partir de 35 sementes (podendo ser de duas a três vezes mais que esta quantidade), sendo comum a extração do LSA e não a mastigação direta das sementes. Nestas quantidades, por vezes, é possível pequena psicoatividade e, igualmente, quase insignificantes efeitos colaterais, como náuseas e sensação do corpo pesado (efeitos sedativos). Antonio Escohotado, ilustre historiador das drogas, estabelece uma posologia em Historia de las drogas II. Para o historiador a dose ativa mínima para pessoas entre 50 e 70kgs seria de 0,5 miligramas, sendo a dose média de 2mg e as altas entre 4 e 5mg. Uma dose média considerada por ele é de 30 sementes de Turbina corymbosa e uma alta entre 60 e 100 sementes de Ipomoea violacea. Um problema adicional que os psiconautas podem encontrar trata-se da variação de LSA nas sementes, possivelmente determinada por múltiplos fatores. Outrossim, sabe-se que o uso de psicodélicos e potência de seus efeitos é set-setting-dependente e, portanto, o ambiente e o contexto pessoal do usuário podem determinar efeitos psicoativos díspares com quantidades semelhantes. Além disso, se o psicólogo Timothy Leary estava correto, é possível que ocorra, ao longo do tempo, uma tolerância reversa ou sensibilização com o uso de psicodélicos, no qual o usuário, ao contrário de deixar de sentir seus efeitos, precisa de doses menores para que entre em estado não ordinário de consciência (ENOC). No entanto, de forma distinta de outras teorias e pesquisas, os efeitos centrais desta sensibilização não seriam efeitos colaterais da substância. Uma questão central é saber se, com o tempo, as conexões cerebrais produzidas ao longo do ENOC tornam-se mais facilmente consteladas e, logo, necessitariam de menor esforço do psiconauta para que sejam novamente produzidas.

No consumo das sementes, os efeitos costumam ocorrer após cerca de 30 minutos do uso (com variações) e duram de 4 à 8 horas em média. Em alguns usos há alguns efeitos sutis que permanecem por mais algumas horas e podem chegar a 24 horas; de maneira geral, não permanecem intensos. De forma idêntica a outros psicodélicos, há ocorrência de midríase, a famosa pupila dilatada. Há relatos de que as sementes seriam prejudiciais para pessoas com problemas no fígado (icterícia, hepatite) (Site AZARIUS), no entanto, ainda não pude encontrar informações científicas que pudessem corroborar esta informação. Não há relatos de mortes em decorrência dos efeitos farmacológicos do uso de sementes psicodélicas (LYCAEUM).

Não seria possível debater elementos da farmacodinâmica, sem que fossem referidos elementos da farmacocinética, isto é, a velocidade que a substância atinge seu sítio de ação e é eliminada pelo organismo (absorção, distribuição, biotransformação e eliminação). O LSA pode ser encontrado na urina entre 1 e 24 horas após a ingestão. Após 48 horas o LSA já não pode ser encontrado; igualmente, seu isômero iso-LSA também pode ser detectado na urina e em níveis séricos em várias faixas (MADERDEROSIAN e outros, 1964). Outra característica semelhante das sementes com LSA com o LSD, é que o uso das sementes provoca uma rápida tolerância, reduzindo radicalmente os efeitos de doses consecutivas, que desaparece entre 48 e 72 horas após o uso (EROWID).

Acerca dos riscos no consumo, destaca-se a ausência de casos de dependência atribuída ao LSA. Como a maioria dos psicodélicos, não há indicativo de que as sementes com LSA possam provocar dependência. Há um caso anedótico sobre o potencial do LSA induzir a síndrome de encefalopatia posterior reversível com status epiléptico, neste caso, causada por hipertensão encefálica. Destaca-se que está síndrome pode ser induzida por diversos fármacos e tratou-se de um único caso avaliado até o momento (LEGRIELL e outros, 2008), portanto, caso se trate de um caso raro, ainda não há evidências para afirmações neste tópico. De acordo com Fernandes e outros (2002): “Os sintomas (da síndrome) são progressivos e compreendem cefaléia, diminuição do nível de consciência, crises epilépticas e distúrbios visuais”.

Os riscos do LSA, com efeito, são semelhantes à de outras substâncias psicodélicas e se enraízam mais em ambientes e pessoas não preparadas para a experiência, do que propriamente por elementos farmacológicos. Não se trata de apontar que não há grupos de risco, eles existem:

· Mulheres gravidas, por exemplo, em decorrência do LSA ser um forte estimulante do útero, levando ao aumento de contrações. Conforme Guzzo (2009) é por este motivo que alcaloides do ergot são utilizados com fins obstétricos;

· Pessoas com sintomas prodrômicos ou com transtorno esquizofrênico ou bipolar;

No meu entendimento, pode-se estabelecer alguns grupos de risco, no entanto, seria meramente pela discussão mais ampla de grupos de risco no uso de psicodélicos do que propriamente algo relativo ao LSA. Os grupos seriam semelhantes aos estabelecidos, por exemplo, por Stanislav Grof no que se refere a psicoterapia com LSD. Infelizmente ainda faltam pesquisas não apenas sobre este tópico, mas sobre vários outros. A pesquisa sobre o LSA ainda engatinha, embora conheçamos esta substância há um tempo bastante razoável.

Além dos riscos, é notória a importância de se debaterem os possíveis benefícios no consumo do LSA. Além dos possíveis benefícios genéricos no caso do uso de psicodélicos, inclusive a possibilidade de catalisarem experiências religiosas genuínas, há pouco debate sobre os usos terapêuticos do LSA. Possivelmente em decorrência do desconforto que pode provocar o uso destas sementes, os pesquisadores optaram por estudar outros psicodélicos em psicoterapia, a exemplo do LSD, do MDMA, da ayahuasca e da psilocibina. Apesar disso, os derivados do ergot foram adotados na farmacoterapia contra a enxaqueca por volta da década de 1920 (GUZZO, 2009) e hoje, são uma das principais classes de agentes farmacológicos para o alívio rápido de casos severos dessa patologia. No caso específico do LSA há um importante estudo de Andrew Sewell (2008), que foi um estudo não autorizado, acerca dos efeitos do LSA em cefaleia em salves (cluster headache). De acordo com Sewell (2008, p.117):

Talvez o grande triunfo da pesquisa não autorizada com plantas e drogas visionárias para coleta de dados é a descoberta que pequenas doses de LSD, psilocibina e LSA (amido ácido lisérgico) são mais efetivos do que qualquer medicação convencional no tratamento do triste transtorno: cefaleia em salvas. Cinco anos atrás, ninguém além dos pacientes com cefaleia em salves ou neurologistas tinham ouvido da cefaleia em salvas. Agora o tratamento da cafaleia em salves é rotineiramente listado entre os potenciais usos terapêuticos dos psicodélicos e já penetrou mesmo na cultura popular ao ponto do personagem Gregory House, M.D. ter usado uma droga psicodélica para tratar cefaleia no show de TV House não uma, mas duas vezes (KAPLOW, 2006; DICK, 2007)!

Em 1894, na avaliação dos usos terapêuticos do peiote, primeira avaliação ocidental destes usos, já citava a cefaleia nervosa como um dos transtornos que poderia ser ajudado pelo cacto. Nas décadas de 1950 e 60 foi a vez de clínicos observarem a importância do LSD no tratamento das cefaleias. Em um primeiro momento, todos os resultados clínicos eram atribuídos a melhora dos conflitos psicodinâmicos, até que em 1963 o médico Federigo Sicuteri olhou os efeitos farmacológicos de um conjunto de alcaloides do ergot. Desenvolveu a primeira droga profilática para migraina, o metisergida, primo do LSD, que também foi testado por Sicuteri (SEWELL, 2008) e era até muito pouco tempo o único remédio específico para este transtorno no mercado. Saiu. No final dos anos 90 começaram experimentos clandestinos com psilocibina para tratamento das severas cefaleias em salvas, julgadas como resultando a maior dor possível e que levam, em alguns casos, ao suicídio. Os resultados são incríveis e ajudaram muitas pessoas que não obtiveram nenhuma ajuda dos métodos tradicionais. Conhecida como nevralgia do trigemio, um paciente que se beneficiou deste uso psicodélico criou o site Cluster Busters, que merece nossa leitura diante de sua grande relevância https://clusterbusters.org/medical-research-reports-studies-case-reports-links/. Na pesquisa de Sewell (2008) ele teve 50 participantes da pesquisa, que usaram substâncias psicodélicas como LSD e psilocibina, desta forma ele pode comparar seus resultados com as farmacoterapias convencionais. O gráfico abaixo nos dá a dimensão da importância do estudo psicodélico para o tratamento desta grave patologia:

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A pesquisa tinha muitos problemas, como era substâncias de rua, não havia certeza na afirmação da quantidade efetiva de cada substância utilizada. Mas e o LSA? Aí que veio o LSA. Um grupo chamado Organização para o Entender a Cefaleia em Salvas (Organization for Understanding Cluster Headache – OUCH-UK) identificou que as sementes da trepadeira elefante, isto é, da Argyréia nervosa, eram tão eficientes no tratamento da condição quanto a psilocibina e o LSD. O fato do status legal do LSA nos EUA ser mais ameno que o de outros psicodélicos facilitou a pesquisa. Sewell (2008) pesquisou 66 pacientes em um estudo prospectivo de coorte. O estudo se valeu de sementes da Argyréia nervosa e da Turbina corymbosa (ololiuhqui). Alguns resultados seguem abaixo:

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Acrescente-se que 93% dos pacientes relataram usar doses não psicoativas para resolução da crise de cefaleia em salvas. A conclusão de Sewell é justamente da eficácia das sementes. Não há dúvidas de que métodos com placebo, duplo ou unicego, randomizados devem ocorrer para respaldar a pesquisa já realizada e facilitar que estes fármacos estejam disponíveis para prescrição aos pacientes que precisam deles.

Sementes Psicodélicas: LSA-111 – PARTE I – AQUI

Sementes Psicodélicas: LSA-111 – PARTE II – AQUI



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