Salvador e a Marcha da Maconha – Vem vindo…

REeDUcaÇÃO

hempadao 27 março, 2013

u

 por Guilherme Storti

Salve, salve, essa galera!!

Há alguns anos o movimento cannábico de Salvador vem ganhando corpo e a cada ano que passa o número de adesões ao movimento cresce. Esse ano o movimento vem com uma nova galera que tá se empenhando ao máximo para fazer um trabalho de base bom, apesar de ser um coletivo que ainda se encontra em processo de formação o pessoal tem se mostrado bastante empenhado e motivado em tocar a marcha pra frente.

A marcha de Salvador esse ano resolveu trazer algumas outras temáticas para dentro do movimento, pois entendemos que devemos ampliar mais o discurso em relação ao uso de drogas e à condição do usuário dentro do nosso contexto social.

Segue então um trecho do manifesto da Marcha da Maconha 2013 que foi apresentado em uma reunião da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos.

A Marcha da Maconha Salvador no ano de 2013 possui o intuito de expandir os espaços de discussões acerca das políticas proibicionistas e higienistas vigentes no estado brasileiro. Entendemos que a discussão não se resume apenas a questões voltadas apenas para o consumo de cannabis e sim para um universo muito maior que envolve o uso e abuso de outras drogas, pois entendemos que usuários de outras substâncias psicoativas também fazem o uso de cannabis, assim como usuários de cannabis fazem o uso da mesma concomitantemente a outras substâncias.

A Marcha da Maconha Salvador nesse ano procura abrir os espaços de discussões para poder expandir informações que geralmente são desconhecidas pela grande massa populacional, pois à medida que os anos se passaram o discurso em volta da “legalização da maconha” encontra-se estagnado com a mesma base de argumentos. Inclusive, atualmente, muitos coletivos que organizam a Marcha da Maconha pelo Brasil também já adotam outras posturas em relação ao uso de drogas, abrindo mais o discurso e começando a traçar as nossas reivindicações através de outras diretrizes.

Assuntos como as políticas de redução de danos, políticas de internação compulsória, reforma psiquiátrica e estatuto dos direitos humanos, ao nosso entendimento, também são pautas que encontram-se no âmbito de nossa militância. Acreditamos que para se chegar em um patamar de sociedade que respeita os direitos dos seus cidadãos seja necessário um processo que se cobre à rediscussão das formas de elaboração, aprovação e aplicação das políticas de drogas em âmbito nacional.

Avaliamos que hoje as políticas de drogas que são aplicadas no Brasil em momento algum visa os direitos e as reais necessidades dos usuários de drogas. Dia a dia vemos notícias e ouvimos relatos de múltiplos abusos cometidos em relação aos usuários de drogas (principalmente os que estão em situação de maior vulnerabilidade) que passam desde o Estado, mídia, sociedade civil e também por parte de grupos de usuários que não têm acesso á informações precisas baseadas em estudos científicos sobre o uso/abuso de substâncias psicoativas.

Vale ressaltar, também, que as políticas proibicionistas são políticas de cunho preconceituoso e racista, direcionadas a determinados grupos sociais, visto que as maiores vítimas da “guerra às drogas” são pessoas de baixa renda que moram nas periferias da cidade, que geralmente não têm acesso à educação de boa qualidade, que enfrentam problemas constantes de acesso à rede de pública saúde, com múltiplos problemas de infraestrutura nas suas comunidades que passam desde à falta de saneamento básico à falta de pavimentação nas ruas, geralmente negros e com poucas oportunidades no mercado de trabalho. As políticas de “guerra às drogas” atingem principalmente a essa população, pois a história do nosso país sempre abusou da marginalização de determinados grupos sociais.

A Marcha da Maconha Salvador 2013 tem como objetivo construir a oportunidade da sociedade participar de toda esta discussão que atinge diversas categorias de lutas sociais e busca uma reavaliação de sua militância, justamente por entender todas essas problemáticas que atingem a sociedade como um todo. Percebemos que a centralização do nosso debate em relação à apenas um determinado grupo de usuários nos restringe a expandir o nosso campo de atuação e de procurar novos argumentos para a se discutir com maior coerência a questão da descriminalização do uso medicinal e recreativo de cannabis.

Outro objetivo que nos norteia é que, a partir do momento em que se haja maior lucidez dos nossos políticos para encarar e discutir essa questão política/social da descriminalização do usuário de drogas, possamos abrir uma maior gama de possibilidades para uma possível regulamentação da produção industrial e cultivo caseiro de cannabis, pois além de toda abertura comercial em relação à própria substância (além da exploração da fibra de cânhamo pela indústria têxtil, por exemplo). Da mesma sorte, também possa haver um investimento maior em institutos de pesquisas especializados que busquem novas formas de tratamentos alternativos para usuários de outras substâncias, a exemplo de alguns países europeus como Holanda, Portugal, França e Suíça, que possuem outra postura em relação às suas políticas de drogas.

Com isso podemos, num futuro próximo, tratar de usuários de diversas substâncias psicoativas partindo dos princípios da redução de danos, onde primeiramente se respeita as necessidades subjetivas do individuo em relação ao uso de substâncias psicoativas e o seu contexto de vida e não submetermos os nossos cidadãos usuários de drogas ao poder das comunidades terapêuticas e casas de recuperação, que geralmente possuem ligação com alguma doutrina religiosa e constantemente violam os direitos dos indivíduos que ali se encontram.

Cobramos também das gestões Estadual e Municipal maior responsabilidade e atenção ao direcionamento de verbas destinadas ao tratamento de usuários de substâncias psicoativas, pois nota-se uma negligência muito forte em relação a investimentos nas redes CAPS-AD e em centros de convivência para usuários de drogas sem necessariamente ter que privá-los de sua liberdade. Atentamos para que esses serviços recebam mais atenção e incentivos, visto que os mesmos se mostram mais capazes e eficientes no acompanhamento de casos de uso/abuso de substâncias psicoativas.

É importante salientar, também, que a questão do abuso de drogas (sejam elas prescritas, legalizadas ou criminalizadas) não é um fim por si só, mas o efeito de causas das mais plurais. Desta sorte, a atual política proibicionista fecha-se para a realidade fática de gerar o problema do abuso de drogas, tentando combater simplesmente o sintoma de um problema sequer diagnosticado.

Por fim, entendemos que ficar estagnado através do discurso em prol da legalização da cannabis nos parece muito raso, mesmo com todas as comprovações obtidas através de anos de lutas e estudos científicos, entendemos que focar apenas nesse grupo de usuários limita as nossas intervenções, visto que acreditamos que o nosso campo de atuação é muito maior e agrega muitas outras lutas e possibilidades.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *




Papelito
Banner Sedina