Raves, festivais de música eletrônica e psicodélicos

Portas da Percepção

hempadao 8 fevereiro, 2018

por Fernando Beserra

A contracultura das décadas de 1970 e 1980 inaugura, influenciada por movimentos que datam das décadas anteriores, a relação próxima entre o uso de substâncias psicodélicas e um modo particular e subversivo de estar no mundo. Mais particularmente a cultura promovida em torno das substâncias psicodélicas criticava o American Way of Life e a vida organizada em torno do consumismo capitalista. Promovia novos modos de estar no mundo que incluíam, por vezes, o amor livre; uma vida mais comunitária; a singularidade; o faça você mesmo; e musicalidades especificas, como o rock psicodélico. Do final da década de 1970 à meados da década de 1980 diversas substâncias psicodélicas foram proibidas como uma forma de controle e perseguição desta contracultura.

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Novas contraculturas surgem na década de 1980 e 1990. Um importante centro da contracultura hippie fora dos Estados Unidos e da Europa eram as praias de Goa, na Índia, a partir da década de 1960. Uma série de encontros ocorreu em Goa e se espalhou pelo mundo. O estilo de música eletrônico trance, p.ex, já vinha sendo produzido e tocado na Alemanha e na Inglaterra, com a cena dos breakbeats hardcore e das raves, durante o dia e em locais afastados das cidades (NASCIMENTO, 2006). Tanto um conjunto de hippies quanto punks associaram-se a cena rave eletrônica. Em Goa, reuniam-se estes e outros viajantes que levam sua cultura e musicalidades. A associação de viajantes ligava-se, igualmente, a busca de uma espiritualidade oriental e a partir da década de 1990, misturou-se a este caldo cultural o trance psicodélico, estilo de música eletrônico que busca promover Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC), em profunda conexão àqueles experimentados durante a viajem com substâncias psicodélicas, como o LSD, a psilocibina/psilocina, a DMT, etc. Estes festivais são realizados ao ar livre e tiveram como origem o segundo Summer of Love que ocorreu, por exemplo, em Ibiza, Espanha, em 1987[1]. Ibiza é uma pequena ilha, imaginada como paraíso utópico, contraculturalista e orientalista, com cerca de 100 mil habitantes e que, graças a sua fama, recebe anualmente 2 milhões de turistas (D´ANDREA, 2006). Influenciados pelo Do it Yourself (DIY) punk e pelo movimento hippie, a Inglaterra foi um outro berço de desenvolvimento das raves psicodélicas (MOREIRA, 2014).

Neste texto busco me aproximar do universo das raves psicodélicas ou festivais de trance, que diferem de outros tipos de rave (NASCIMENTO, 2006; MOREIRA, 2014). MacAteer (apud NASCIMENTO, 2006) investigou o fenômeno das festas em Goa em torno do DJ Goa Gil e as entendeu como uma redefinição de rituais tribais adaptados ao século XXI. Os sons rítmicos promovendo o transe; a vivência da espiritualidade e êxtase religioso estavam presentes inclusive na narrativa dos criadores e participantes do movimento. Tratava-se de um ritual de fato!

O autor junguiano, Luigi Zoja, escreveu o clássico “Nascer não basta: iniciação e toxicodependência”, no qual, apesar de muitos equívocos[2], nos traz importantes reflexões acerca da experiência ritual, inclusive de substâncias. Zoja, muito orientado pelas reflexões de Mircea Eliade, entende que uma das grandes diferenças das sociedades originárias e o mundo moderno é o desaparecimento ou enfraquecimento das iniciações e ritos de passagem. As iniciações operam por uma passagem e transformação: o herói (psiconauta, no caso do usuário de psicodélicos) passa pelas fases da morte e do renascimento. As etapas da iniciação compreendem:

1 – Situação inicial a ser transcendida porque insignificante – “para fugir à insignificância, o adolescente da sociedade primitiva se entregava à iniciação que lhe conferia enfim uma identidade completa e adulta […]” (ZOJA, 1992, p.7).

2 – Morte Iniciática – “Aceitação de uma fase de fechamento em relação ao mundo, renuncia à identidade anterior, afastamento libidinal dos investimentos usuais” (op.cit, 1992, p.7).

3 – Renascimento Iniciático – O renascimento iniciático seria favorecido pela partilha coletiva da experiência, além da presença ritual.

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung [1875-1961] compreendia que a sanidade mental estava profundamente relacionada com a transformação do sistema psíquico, isto é, com a abertura do “Eu” (ego) ao inconsciente, sem flagrante oposição. As experiências psicodélicas com fins religiosos, como eram, e ainda são, em muitos casos, criavam um setting favorável, ligado a tradição cultural, para que estas vivências se dessem. Na atualidade, as vivências intensas e psicodélicas em espaços de música eletrônica parecem ocorrer, ao menos, enquanto potenciais ambientes de renovação psíquica. Um dos grandes desafios aos psiconautas, no entanto, não é passar pela experiência psicodélica e navegar pelo inconsciente, mas, de forma distinta, integrar posteriormente estas experiências. Vivê-las em sua inteireza e se transformar com elas. Integrar os afetos e imagens constelados durante o rito.

No Brasil, foi na década de 1980 que chegaram as fitas com gravações de música eletrônica e, logo, na Bahia começam a ocorrer as primeiras raves psicodélicas no Brasil; de forma cooperativa e não lucrativa (MOREIRA, 2014). Na década de 1990, em São Paulo, as raves começam nos sítios ao redor da cidade e, posteriormente, este movimento se estende a todo o Brasil e, finalmente, se profissionaliza e se amplia nas megaraves (MOREIRA, 2014).

Em certo sentido, é possível compreender o setting criado nos festivais de psy-trance como profundamente interligado a Arte Visionária. Diversas músicas, arte visuais e outras modalidades artísticas flertam, continuamente, com a experiência psicodélica. A Arte Visionária foi um nome dado a um estilo particular de arte na qual o artista visa produzir sua obra relacionando-a diretamente a visões provenientes de Estados Alternativos de Consciência (EAC), também chamados de Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC), incluindo neste rol os provenientes de sonhos, induzidos por meditações, substâncias psicodélicas, doenças, jejuns ou provenientes de transes diversos. Os ENOC são, em muitos contextos, associados a experiências religiosas ou, como expõe Grof (1987), transpessoais. Os estados psicodélicos podem conduzir o psiconauta3 a experiências nas quais transcende-se a pronunciada divisão entre matéria e energia, entre passado, presente e futuro (tempo cronológico ou linear) e experiencia-se outras modalidades de tempo e espaço (GROF, 1987). (BESERRA, 2015). Alguns artistas visionários, como Alex Grey, buscam promover no outro o ENOC que o mesmo vivenciou. Os ambientes promovidos nos festivais, em certa medida, buscam catalisar essa experiência. Ampliá-la ou mesmo promove-la.

Há diversas características nestas festas e na juventude que, predominantemente, as acompanha. No que concerne ao uso de substâncias, cabe comentar que o uso de psicoativos está longe de ser exclusivo ou predominante nas raves e ocorre, muitas vezes, de forma mais intensa em outras cenas musicais ou culturais. Talvez a diferença seja que nos festivais e nas raves há um interesse em produzir um cenário conectado a esta experiência, isto é, falar mais abertamente e assumir esta conexão. Algo que, infelizmente, p.ex, não ocorre apesar do grande uso de bala e MD na cena de uso do sertanejo. Além disso, nos festivais e raves mais psicodélicas se observa um uso maior de substâncias com menor potencial de dependência, se comparadas ao álcool, ao tabaco e a cocaína, p.ex. Trata-se do uso de substâncias psicodélicas, com ênfase no LSD e no MDMA. Não se pode desconsiderar, neste cenário, as adulterações e substituições presentes nas substâncias sintéticas e semissintéticas comercializadas. Este assunto já foi tratado em alguns textos aqui no Portas da Percepção.

O uso de substâncias adquire algumas características distintas de outras culturas. Se destaca uma busca de autonomia/autogestão no uso dos fármacos, de forma a buscar uma espécie de auto prescrição idiossincrática, isto é, o conjunto de fármacos ideal para si, de forma que sua dose, periodicidade do uso, de forma a aprofundar o bem-estar (ALMEIDA; EUGENIO, 2008) ou mesmo produzir uma profunda jornada interna em estados não habituais da mente.

Particularmente, embora eu pesquise psicodélicos já há algum tempo, eu não vim ou os conheci na cena trance ou mesmo na música eletrônica. Pelo contrário, conheço há bem menos tempo esta cena e tenho alguns guias até hoje como o Márcio Oliveira e a Júlia Castro, com os quais tiro dúvidas e sou apresentado a este universo. Minha experiência com estes cenários é nova e foi muito bom conhecer mais… Para mim não se tratou de um rito de passagem com os que vivi em outros momentos marcantes, mas experiências muito interessantes e bonitas, inclusive de perceber a potência das resistências culturais que aí se mobilizam. Isso não significa, é claro, que não exista sombra não reconhecida; compreensões dissonantes ao projeto original… mas isso é conversa para outro texto.

Referências:

ALMEIDA; EUGENIO. Paisagens existenciais e alquimias pragmáticas: uma reflexão comparativa do recurso às “drogas” no contexto da contracultura e nas cenas eletrônicas contemporâneas In: LABATE et al. Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador: Edufba, 2008. p. 383-410.

BESERRA, F. R. A religiosidade na arte visionária de Alex Grey: uma compreensão junguiana. Revista Último Andar, nº 25, 2015.

D´ANDREA, D. The spiritual economy of nightclubs and raves: Osho sannyasins as party promoters in Ibiza and Pune/goa. Culture and Religion: An Interdisciplinary Journal, 2007.

MOREIRA, N. A. Temporalidade nomadê: raves psicodélicas. (Mestrado em História). Universidade de Brasília, Brasília, 2014.

NASCIMENTO, A. F. N. Festivais psicodélicos na era planetária. (Mestrado em Ciências Sociais), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.

ZOJA, L. Nascer não basta: iniciação e toxicodependência. São Paulo: Axis Mundi, 1992.


[1] – O Summer of Love ocorreu em diferentes locais e não apenas em Ibiza.

[2] – Esclareço alguns destes equívocos na monografia Uso contemporâneo do Badoh Negro, disponível no site do NEIP: neip.info/novo/wp-content/uploads/2015/04/beserra_bezerra_badoh_negro.pdf.



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