Psilocibina no campo da saúde (PARTE II)

Portas da Percepção

hempadao 7 julho, 2016

por Fernando Beserra .:.

Hoje continuaremos a abordar os cogumelos mágicos, entenda-se: cogumelos com psilocibina. O foco, no entanto, será sobre seus usos terapêuticos. Um deste usos, embora não seja amplamente conhecido, é de fundamental importância terapêutica. Trata-se do uso da psilocibina/psilocina em pacientes com uma doença chamada de cefaleia em salvas.

A cefaleia em salvas (cluster headache) é considerada a mais dolorosa das dores de cefaleia por produzir um dor descomunal; também é conhecida como dor de cabeça suicida. Leva, em muitas ocasiões, a atos extremos e mesmo ao suicídio, em decorrência das terapêuticas modernas ainda serem insuficientes. A condição afeta predominantemente os homens e, tipicamente, ocorre após os 20 anos (SEWELL, HALPERN e POPE, 2006). De forma geral, o oxigênio e a droga sumatriptano são as indicações tradicionais no caso de ataque de dor deste tipo de cefaleia. Em períodos que os ataques se tornam intensos são indicados também medicações como carbonato de lítio, corticosteroides e outros moduladores de humor. Ainda de acordo com Sewell, Halpern e Pope (2006) nenhuma medicação era conhecida que terminasse com os períodos de ataque (cluster periods) ou estendesse os períodos de remissão (períodos de tempo sem ataques). Os pesquisadores haviam ficado muito impressionados com o caso de um homem de 34 anos diagnosticado com cefaleia em salvas aos 16. Quando ele iniciou um uso lúdico de LSD, entre 22 e 24 anos, cessaram os períodos de sofrimento (cluster) e, curiosamente, quando o jovem cessou o uso de LSD os períodos de cefaleia retornaram. Os pesquisadores resolveram, a partir de evidência anedóticas, investigar se o LSD e a psilocibina poderiam contribuir no tratamento desta patologia. Contataram 53 participantes da pesquisa e identificaram, como critério de inclusão, o diagnóstico de cefaleia em salvas e o uso de LSD ou psilocibina. Notavelmente, expuseram os pesquisadores (2006), 58% relataram que nunca usaram LSD ou psilocibina, exceto para seu auto tratamento e 25% usaram estas substâncias para propósitos lúdicos apenas em um passado distante, durante a adolescência. Os resultados da pesquisa apontam que:

· Dos 32 participantes da pesquisa, 19 usaram psilocibina sublingual durante os períodos de cefaleia (cluster). 17 observaram que a psilocibina foi efetiva em abortar os ataques (término em 20 minutos);

· Apenas um sujeito tinha usado LSD para um ataque agudo e reportou que o mesmo foi efetivo e cessou o ataque;

· 29 participantes que usaram psilocibina de forma profilática durante um período cluster. 15 (52%) reportaram que ela foi efetiva (cessou por completo os ataques) e 12 (41%) reportaram eficácia parcial (redução na intensidade ou frequência dos ataques). Já 5 dos 6 que utilizaram o LSD reportaram o término do período cluster após seu uso;

· 20 participantes ingeriram psilocibina durante o período de remissão dos sintomas. 19 identificaram uma extensão do período de remissão. 4 de 5 participantes, que relataram terem usado LSD, reportaram uma extensão no período de remissão similar ao que ocorreu com a psilocibina;

· Dos 21 participantes com cefaleia em salvas crônica, 5 de 7 informaram que a psilocibina abortou o ataque. 10 dos 20 reportaram que a psilocibina induz um término completo dos ataques de cefaleia e 8 alegaram que a eficácia foi parcial;

· 42% alegaram eficácia parcial ou integral em doses sub-psicodélicas no uso de psilocibina ou LSD (SEWELL, HALPERN e POPE, 2006);

Aqui no Brasil tive a oportunidade de escutar o relato de um ativista com a condição, durante o I Encontro Nacional de Coletivos e Ativistas Antiproibicionista (ENCAA) realizado em Recife em junho de 2016. A pessoa informou que seu neurologista já não tinha o que fazer com os ataques da cefaleia em salvas, a não ser instalar uma espécie de bomba de morfina em seu cérebro; lhe daria um controle, com o qual poderia liberar morfina quando necessário. Foi o feliz encontro com os cogumelos com psilocibina que fizeram cessar as terríveis cefaleias. Tais resultados são incríveis e, ao mesmo tempo, é lamentável imaginar que pessoas podem não ter acesso a estes tratamentos por preconceito e falta de regulação. E, afinal, se são necessárias mais pesquisas, por que não há uma linha de pesquisa na área?

Mas não é apenas na cefaleia em salvas que a psilocibina pode ser importante. Um pesquisador de renome internacional neste campo de pesquisa é Charles Grob. O pesquisador relata (2007) que mesmo com o avanço no tratamento do câncer, a observância à necessidade de cuidados paliativos para pacientes com doenças terminais, do ponto de vista psicológico ou espiritual, não tinha avançado de forma paralela. Enquanto é possível, muitas vezes, ampliar a vida de uma pessoa com câncer, por outro lado, em alguns estados terminais da doença não há um alívio satisfatório ou tampouco um modo de sustentar uma boa qualidade de vida. Muitos são os pacientes que apresentam quadros de ansiedade e depressão (GROB, 2007).

A partir de 2004 foi realizada pesquisa com psilocibina para pacientes com doenças terminais no Harbor-UCLA Medical Center e no Los Angeles Biomedical Research Institute. A pesquisa foi realizada com duplo cego e controle placebo, respondendo à metodologia clínica contemporânea, mesmo que desde a década de 1960 já fossem observados os limites claros do placebo para os psicodélicos (LEARY, 1999). Cada paciente, nesta pesquisa, foi seu próprio controle, isto é, podia receber tanto a dose ativa de psilocibina (0.2mg/kg) quanto o placebo e nem o pesquisador, nem o participante da pesquisa, sabiam o que estava sendo administrado. Tal critério foi utilizado, inclusive, a partir de uma perspectiva ética, de forma que um conjunto de participantes da pesquisa (grupo controle) não ficasse sem a terapêutica avaliada (GROB, 2007). Foram estabelecidos os seguintes critérios de exclusão na pesquisa:

· Doença cardiovascular severa;

· Doença cerebral primária ou metastática;

· Transtorno mental severo ao longo da vida.

Um dos aspectos centrais na psicoterapia com psilocibina, para o tratamento de ansiedade e depressão em pacientes com doenças terminais, é a possibilidade de obtenção de um sentido emocional e, muitas vezes, espiritual que permite o enfrentamento (coping) de diversos estressores (medo da morte, dor física, dependência de outros, etc). A pesquisa em pauta foi realizada nos moldes da psicoterapia com LSD desenvolvida pelo conjunto de pesquisadores da Spring Grove na década de 60 e 70, isto é, os participantes recebiam a psilocibina ou o placebo enquanto encontravam-se com tapa-olhos e em ambientes protegidos. Voltando mais no tempo, foi Aldous Huxley quem primeiro sugeriu a importância do uso de psicodélicos em situações de proximidade com a morte. Timothy Leary chegou a escrever um livro, a partir do livro tibetano dos mortos, que fomenta a superação e realização de uma morte simbólica (Experiência Psicodélica).

Em pesquisa recente, Charles Grob e outros (2011) realizaram uma pesquisa que contou com doze participantes com câncer avançado e o diagnóstico de estresse agudo, transtorno de ansiedade generalizado, transtorno de ansiedade devido ao câncer ou transtorno de ajustamento com ansiedade, segundo critérios do DSM-IV. A pesquisa foi realizada com duplo cego, controle placebo e examinou a eficácia e segurança do tratamento psicológico com psilocibina. Foi analisado a capacidade de tal procedimento reduzir ou tratar a crise existencial em pacientes com câncer terminal.

Inicialmente, como todas as novas pesquisas com psicodélicos, foi observado que não houve intercorrências no consumo dos psicodélicos: a psicoterapia com psilocibina foi segura. Os participantes da pesquisa relataram reações empáticas profundas com amigos próximos e membros da família e examinaram seus desejos e limitada expectativa de vida (GROB e outros, 2011). A experiência psicoterapêutica com psilocibina permitiu reavaliar o próprio sentido da morte e do morrer, permitindo uma qualidade neste processo significativamente melhorada. Parte deste processo está intimamente ligado ao tipo de experiência que abordamos na primeira parte deste post: a denominada por Griffiths e outros (2007) como experiência mística. A transcendência, como uma possibilidade de reavaliação de si, da temporalidade e da espacialidade, apresenta novos caminhos e sentidos que emergem do inconsciente, facilitando a aceitação da morte como processo e da abertura para experiência com um senso de aventura aberta (PAHNKE apud GROB, 2007).

Na próxima semana termina a pequena série sobre a psilocibina. Vou escreve um pouco mais sobre elementos básicos da psilocibina e avançar um pouco mais nesta incrível psicodélico e seus diversos usos terapêuticos, como no tratamento de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e na dependência de tabaco. E, claro, as referências apresentadas ao longo das três partes estarão à disposição de todos vocês.



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