Psicoterapias Psicodélicas: Terapia Hipnodélica!

Portas da Percepção

hempadao 26 junho, 2014

 

Novidade à vista: antes de começarmos a nos aprofundar em mais um post sobre Psicoterapia Psicodélica, venho informar que a coluna Portas da Percepção aqui do Hempadão, toda quinta-feira, agora tem uma página no facebook. Quem curte a página, vale dar uma conferida!

Hoje vamos dar continuidade a um assunto já iniciado aqui no Portas da Percepção: o uso psicoterapêutico dos psicodélicos e as formas de condução destes tipos de terapia. É bem verdade que no Brasil não existe ainda uma regulamentação destes usos, infelizmente, porém, tudo indica que o futuro nos guarda bons ventos, quem sabe a começar pelas terapias com ayahuasca, um importante psicodélico que contém a interação de Dimetiltriptamina (DMT) e Inibidores de Monoamina Oxidose (IMAO). Ocorrerá ainda este mês o lançamento do livro The Therapeutics Use of Ayahuasca no Instituto do Cérebro da UFRN, em Natal, no dia 05 de agosto, organizado pela pesquisadora Beatriz Labate, uma das criadoras do Núcleo de Estudos Interdisciplinar sobre Psicoativos.

 

Seguem alguns textos já apresentados aqui na coluna sobre a psicoterapia com psicodélicos:

Psicoterapia assistida com LSD: novos estudos
Breves palavras sobre o uso terapêutico do LSD
LSD no tratamento do alcoolismo

Abordaremos hoje as seguintes formas de psicoterapia com psicodélicos:

· Terapia Hipnodélica

· Terapia anaclínica com LSD (LSD análise)

Na terapia hipnodélica, como o nome diz, há a junção do uso de hipnose com o consumo de psicodélicos, mais especialmente, de LSD. O conceito foi desenvolvimento por Levine e Ludwig em: “The Hypnodelic Treatment Technique”, presente n o livro “The use of LSD in Psychoterapy and Alcoholism”, de 1967. Certamente foram nas décadas de 50 e 60 do século passado os maiores desenvolvimentos das psicoterapias com psicodélicos que hoje voltam, paulatinamente, a ganharem terreno e visibilidade. O uso do hipnodelismo, segundo Grof, foi usado para guiar o sujeito através de experiências com os psicodélicos e modular o conteúdo e curso da sessão. Pensando desta forma, a terapia hipnodélica favoreceria a viagem (trip) para os pacientes com maior resistência a entrega de si ao longo do aumento de consciência e emergência do inconsciente, típicos da vivência com psicodélicos

Os pesquisadores apontam que a hipnose é capaz de parar o efeito psicodélico, assim como em momento posterior ao uso reatar os efeitos típicos do LSD sem o uso da substância. Creio que sejam hipóteses muito interessantes e técnicas da alteração da consciência que poderiam ser comparadas, p.ex, com a respiração holotrópica desenvolvida pelo casal Grof com esta mesma finalidade. Na terapia hipnodélica era utilizada a hipnose no período de latência do uso do LSD até que o mesmo tivesse efeito, portanto, o paciente entraria na viagem antes do efeito propriamente dito do LSD, de modo que não haveria uma mudança abrupta. A forma como trabalhavam os terapeutas nesta abordagem focava no encorajar o paciente a superar resistências e defesas psicológicas, guiando-os a memórias de infâncias, facilitando a catarse. Após a sessão eram realizadas sugestões pós-hipnóticos reforçando a lembrança de detalhes da viagem. Os pacientes ficavam após a trip em ambientes seguros até o final do dia, preparados para o descaço do psiconauta. A eficácia da técnica foi testada para pacientes dependentes de substâncias, com resultados – segundo os pesquisadores – superiores a ambas as técnicas (hipnose e terapia com LSD) usadas separadamente

Apenas para fins de conhecimento, estudos recentes de Yensen com psicodélicos para o tratamento do alcoolismo indicam que doses altas seguidas por psicoterapia levaram a 53% de pacientes em abstinência. Resultado é superior aos 30 a 35% tipicamente considerados nas melhores formas de terapia para farmacodependência. Doses menores levaram a 33% de abstinência.

Quanto a Psicoterapia de LSD agregada, trata-se de uma terapia grupal, usualmente com doses médias ou altas, sem a pretensão de que o grupo seja coordenado como um todo, isto é, é uma psicoterapia em grupo, mas as pessoas são focadas de forma individual. Tipicamente era disposta com as pessoas em um mesmo espaço físico, com programação musical padronizada ou vários canais de som avaliáveis para os psiconautas por fones de ouvido. O terapeuta e os co-terapeutas faziam supervisão coletiva e no dia seguinte a experiência coletiva, discutia-se a experiência dos membros do grupo. Stanislav Grof indicou os riscos deste tipo de terapia devido ao perigo de contagio e considerou seu principal representante o psiquiatra mexicano Salvador Roquet Já falamos sobre o Salvador Roquet aqui no Portas, então não pretendo me alongar. Basta lembrar que Roquet realizou uma síntese teórico-prática entre a psicanalise e diferentes técnicas tradicionais indígenas para seu viés terapêutico. Roquet além de um manejo considerado por muito brilhante, fazia uma escolha dos grupos para condução dos perfis de grupo ideais para os trabalhos terapêuticos, com a presença de pessoas que poderiam receber distintas projeções, como figuras de autoridade, figuras parentais, maternas ou paternas, objetos de possível interesse amoroso, etc. Roquet provavelmente pensava na interação dos participantes e suas necessidades de projeção ao longo da viagem, de modo que a mesma pudesse ser mais profunda e facilitasse o aprofundamento e transformação de si.

Estas foram algumas das distintas formas de realização da psicoterapia com psicodélicos já realizadas e estudadas. Minha expectativa é que este debate apareça no Brasil não apenas no âmbito médico, mas inclusive na discussão dos profissionais de psicologia. Retomo uma pergunta aqui já realizada: e vocês, fariam uma psicoterapia com psicodélicos? Pessoas que já usaram psicodélicos, tiveram experiências de transformação de sofrimentos mentais pré-existentes?

Referências do post:

GROF, Stanislav. LSD Psychoterapy. California: Hunter House, 1980

REBOREDA, Maria-Vidal Ribas; FÉRNANDEZ, Maria Isabel Rodrigues. Uso de enteógenos en psicoterapia. 11º Congresso Virtual de Psiquiatria, 2010.



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