Psicoterapia com psilocibina e depressão

Portas da Percepção

hempadao 7 setembro, 2017

por Fernando Beserra

Já realizei, aqui no Portas da Percepção, uma reflexão acerca dos usos psicoterapêuticos dos cogumelos com psilocina e psilocibina.

No entanto, um tema que não abordei foi o da psicoterapia com psilocibina no tratamento de transtorno depressivo. Este tema já foi alvo do programa Fantástico da Rede Globo, quando abordou o caso de um psicólogo que realizou este tratamento.

O princípio ativo dos, assim chamados, cogumelos mágicos é a psilocibina (4-phosphoryloxy-N,N-dimethyltryptamine), um tipo de triptamina que age nos receptores serotoninérgicos, isto é, trata-se de um psicodélico clássico e com baixo risco (NUTT, 2016). A psilocibina é rapidamente metabolizada em psilocina no nosso organismo, que é um agonista do receptor serotoninérgico 5HT (1A, 2A e 2C).

Um dos principais campos de estudo da psicoterapia aliada ao uso de psilocibina, no tratamento de depressão e ansiedade, envolve o atendimento a pacientes com câncer em estado avançado. O famoso psiquiatra David Nutt conversou com os dois últimos presidentes da American Psychiatric Association (Liberman e Summergrad), o último presidente do European College of Neuropsychopharmacology (Goodwin), além de outros importantes nomes do EUA e Inglaterra no controle das drogas e regulação sanitária. Todos falaram a mesma coisa: “é tempo de levar os tratamentos com psicodélicos a sério na psiquiatria e na oncologia, como nós fizemos nos anos de 1950 e 1960, o que significa que nós precisamos ir de volta ao futuro” (NUTT, 2016, p. 1163). Trata-se de um equívoco destes pesquisadores e autoridades. Os tratamentos com psicodélicos vem revolucionar não apenas a psiquiatria e a oncologia. Vem revolucionar todo o campo da saúde mental.

A depressão, tipicamente, cursa com sensações de reduções na energia psíquica, da libido (redução do interesse sexual), alterações no peso (aumentando ou decrescendo), no humor (hipotimia ou apatia; pode haver anedonia, isto é, redução da capacidade de sentir prazer), no pensamento (como o pensamento lentificado ou derreista…), na autoimagem e a perda da motivação. Também podem ocorrer alterações no sono, com hipersonia (dormir em excesso) ou insônia. É comum no humor triste a presença de choros frequentes e, em algumas depressões, a incapacidade de chorar. Estima-se que cerca de 15% da população passarão, em algum momento, por um episódio depressivo. Nos EUA estima-se que 7% da população teriam depressão maior (segundo classificação do DSM V, manual diagnóstico organizado pela Associação de Psiquiatria dos EUA).

A primeira grande hipótese biológica relacionada a depressão foi a hipótese do desequilíbrio neuroquímico, no qual o paciente com depressão teria redução de serotonina em determinadas regiões do Sistema Nervoso Central. Atualmente se observam os caminhos neurais e a neuroplasticidade e a sua importância na depressão (MALETIC, 2007). Como transtorno mental multifatorial há fatores genéticos, psicossociais – inclusive da história de vida e biológicos que se entrelaçam.

Ao abordarmos especificamente a questão do humor depressivo de sintomas ansiosos em pacientes com câncer em estado avançado, destaca-se que 30 à 40% dos pacientes com câncer em contexto hospitalar apresentam sintomas de ansiedade e depressão. Tais estados levam a piora na adesão aos tratamentos, perda de qualidade de vida, maior incapacidade, desesperança e aumento das taxas de suicídio (ROSS et al., 2016).

No retorno das pesquisas com psicodélicos, Maclean, Johnson e Gritthins (2011), observaram que a experiência com psilocibina produz uma mudança de personalidade nos usuários. Os pesquisadores já sabiam que, de acordo com as pesquisas de Metzner em 1963 e McGlothlin e Arnold, de 1971, que administrada em condições de suporte, 50 a 80% dos participantes reivindicavam mudanças benéficas na personalidade, valores, atitudes e comportamentos. Para Gritths e outros (2011) a experiência positiva da psilocibina, para um impacto de longo termo, depende da profundidade dos insights e de experiências “tipo-místicas”, como as descritas por W. Pahnke em sua experiência do Good Friday Experiment, orientada por Timothy Leary. Os temas centrais da experiência mística, como definida por Stace e Hood (apud Gritths e outros, 2011) são: sentimentos de unidade e interconexão com todas as pessoas e coisas, um senso de sagrado, sentimentos de paz e alegria, sensação de transcender o tempo e o espaço normais, inefabilidade, e uma crença intuitiva de que a experiência é a fonte de verdade objetiva sobre a natureza da realidade.

Grob (2007) aborda as pesquisas com psilocibina e o retorno da pesquisa psicodélica. Particularmente, focou no cuidado paliativo e debate sobre a importância fundamental do sentido na preparação para a morte. Enquanto muitas vezes é possível ampliar a vida de uma pessoa com câncer por meio de equipamentos e técnicas médicas, por outro lado, em alguns estados terminais da doença não se preconiza um alívio satisfatório ou tampouco um modo de sustentar uma boa qualidade de vida. Muitos são os pacientes que apresentam quadros de ansiedade e depressão (GROB, 2007) e para as dores o que oferecemos são drogas analgésicas.

A partir de 2004 foi realizada pesquisa com psilocibina para pacientes com doenças terminais no Harbor-UCLA Medical Center e no Los Angeles Biomedical Research Institute. O psiquiatra tcheco Stanislav Grof, antes da proibição de diversos psicodélicos entre as décadas de 1960 e 1970, já tinha apresentado resultados de cerca de 70% de melhoria no estado de saúde mental em pacientes com doenças terminais (GROB, 2007). A pesquisa iniciada em 2004 foi realizada com duplo cego e controle placebo, respondendo à metodologia clínica contemporânea. Cada paciente, nesta pesquisa, foi seu próprio controle, isto é, podia receber tanto a dose ativa de psilocibina (0.2mg/kg) quanto o placebo e nem o pesquisador, nem o participante da pesquisa, sabiam o que estava sendo administrado (GROB, 2007).

Um dos aspectos centrais na psicoterapia com psilocibina, para o tratamento de ansiedade e depressão em pacientes com doenças terminais, é a possibilidade de obtenção de um sentido emocional e, muitas vezes, espiritual que permite o enfrentamento (coping) de diversos estressores (medo da morte, dor física, dependência de outros, etc). A pesquisa em pauta foi realizada nos moldes da psicoterapia com LSD desenvolvida pelo conjunto de pesquisadores da Spring Grove na década de 60 e 70, isto é, os participantes recebiam a psilocibina ou o placebo enquanto encontravam-se com tapa-olhos e em ambientes protegidos. Voltando mais no tempo, foi Aldous Huxley quem primeiro sugeriu a importância do uso de psicodélicos em situações de proximidade com a morte. Timothy Leary chegou a escrever um livro, a partir do livro tibetano dos mortos, que fomenta a superação e realização de uma morte simbólica (Experiência Psicodélica).

Embora tais tratamentos tenham enfocado na ansiedade, apresentam igualmente um potencial de melhoria no humor. É possível que parte deste efeito pode ser decorrente da interação farmacológica destas substâncias com seu usuário e outra parte seja da ampliação de consciência que a psilocibina promove, isto é, a interação psicodélica que catalisa a emergência de um sentido de vida e abertura para a aventura da transformação. Diversos pacientes teriam relatado um novo modo de enxergar a experiência de morte, inclusive com maior aceitação.

Em nova pesquisa, Grob et al. (2011) utilizaram metodologia randomizada duplo-cego, deram 0.2mg/kg para de psilocibina para o grupo experimental. A meta inicial da pesquisa era estabelecer a segurança e viabilidade da terapia com psilocibina para pacientes com câncer em estado avançado e ansiedade. Buscavam reduzir a ansiedade e sintomas depressivos. O grupo controle recebeu 250mg de Niacin. O Niacin foi escolhido, pois também serve para tratar ansiedade e provoca um estado de excitação/expansão. A pesquisa ocorreu entre 2004 e 2008. No ano que foi publicado o artigo, 10 dos 12 sujeitos já haviam falecido em decorrência do câncer. Antes do experimento, 04 dos pacientes não tinham experiência anterior com psicodélicos; 04 tiveram experiência com psicodélicos há mais de 30 anos atrás; 02 tiveram há mais de 5 anos atrás e apenas 02 tiveram uma experiência psicodélica no último ano (GROB e outros, 2011?).

A equipe realizou o estudo de prosseguimento, mantendo contato com os pacientes durante os próximos 6 meses. Faziam ligações mensais para saber da evolução do estado de saúde médica e psicológica. Diversas escalas foram utilizadas para avaliação dos participantes da pesquisa, como o Inventário de Depressão de Beck (BDI); o Profile of Mood States; o State-Trait Anxiety Inventory, o Brief Psychiatry Rating Scale e o 5-Dimension Altered States of Consciousness Profile.

Após complexas avaliações os pesquisadores concluíram que a pesquisa apresentou a segurança do tratamento psicoterápico com psilocibina para pacientes com câncer terminal, o que é uma necessidade da pesquisa clínica do fármaco [fase 2]. Dentre as diferentes discussões, o escore do Inventário de Depressão de Beck (BDI) caiu em 30% da primeira sessão com psilocibina até um mês após a segunda sessão de tratamento, uma diferença que foi sustentada e tornou-se significativa no seguimento de 6 meses dos pacientes (GROB et al., 2011). Igualmente, houve uma melhora nos escores de ansiedade quando comparadas ao uso de placebo em 11 dos 12 participantes da pesquisa.

Em uma pesquisa aberta, sem controle placebo, Carhart-Harris et al. (2016) estudaram o uso de psilocibina com suporte psicológico no tratamento de depressão resistente. Foram 12 participantes da pesquisa (6 homens e 6 mulheres) com depressão de moderada à severa e unipolar (ou seja, não haviam casos de bipolaridade). Os participantes receberam duas doses orais de psilocibina (10mg e 25mg) com uma diferença de 7 dias para cada dose. O suporte psicológico foi fornecido antes, durante e após cada uma das sessões. A avaliação do humor foi realizada de 1 semana a 3 meses após o tratamento com o Inventory of Depressive Symptoms (QIDS). Foram usados também o Inventário de Depressão de Beck (BDI) e o The Hamilton Rate Scale for Depression (HAM-D), State-Trace Anxiety Inventory (STAI-T) e a Snaith-Hamilton Pleasure Scale (SHAPS). Não ocorreram efeitos adversos graves e as reações transitórias foram: ansiedade durante o início do fármaco (todos os participantes), confusão transitória e desordem do pensamento (9 participantes), náusea leve e transitória (4 participantes) e cefaleia transitória (4 participantes).

A taxa de resposta a psilocibina foi de 67% (n=8) em 1 semana de tratamento avaliada pelo HAM-D e BDI e sete destes oito encontraram critérios de remissão dos sintomas (GROB et al., 2011). A remissão é um importante critério no tratamento dos transtornos e episódios depressivos, pois quando há manutenção de sintomas de forma que não haja critério de remissão a possibilidade de novo episódio depressivo e em tempo mais curto aumenta substancialmente. Grandes estudos no campo das depressões como o STAR-D vão indicar a necessidade de buscar tratamentos que alcancem a remissão dos sintomas. No estudo em pauta 58% (n=7) dos participantes mantiveram sua resposta por 3 meses e 42% mantiveram a remissão dos sintomas. Apesar destes resultados da remissão, todos os participantes da pesquisa apresentaram alguma redução na severidade da depressão em 1 semana que foi sustentado, na maioria, por três meses.

Por último, mas não menos importante, tivemos o estudo de Ross et al. (2016), que realizaram um estudo duplo cego, controlado por placebo, com 29 participantes da pesquisa com câncer e quadros de ansiedade e depressão. Os participantes receberam uma única dose de psilocibina (0,3mg/kg) ou de niacina, ambos no contexto psicoterapêutico. Os resultados foram avaliados para depressão e ansiedade em ambos os grupos durante 7 semanas.

Os estudos indicaram que a psicoterapia aliada ao uso de psilocibina produziu melhorias imediatas, substanciais e sustentadas na ansiedade e na depressão, reduzindo a desesperança relacionada ao câncer. Paralelamente, houve bem-estar espiritual e melhoria da qualidade de vida. No seguimento de 6,5 meses a psilocibina foi associada a efeitos ansiolíticos e antidepressivos duradouros (60 à 80% dos participantes continuaram com reduções clinicamente significativas na depressão ou ansiedade) (ROSS et al., 2016). Um fator muito interessante da pesquisa é que o efeito terapêutico da psilocibina, segundo os autores, foi mediado pelas experiências místicas vividas.

A depressão refratária é de difícil tratamento e raramente há remissão espontânea. Os achados iniciais são motivo de esperanças nesta difícil área. Há de considerar que outros psicodélicos possam, igualmente, favorecer ótimos resultados nesse e em outros sofrimentos da alma e do corpo humano.

Referências:

CARHART-HARRIS et al., Psilocybin with psychological support for treatment-resistant depression: an open-label feasibility study. Lancet Psychiatry 2016; 3: p.619–27.

GRIFFITHS, R. R. et al. Psilocybin produces substantial and sustained decreases in depression and anxiety in patients with life-threatening cancer: A randomized double-blind trial. Journal of Psychopharmacology 2016, Vol. 30(12) p.1181 –1197.

GROB, C. S. The use of psilocybin in patients with advanced cancer and existential anxiety In: Psychedelic medicine: new evidence for hallucinogenic substances as treatments. Praeger: Westport, 2007. p. 205-216.

GROB, C. S. et al. Pilot study of psilocybin treatment for anxiety in patients with advanced-stage cancer. Archives of general psychiatry, 2011; p. 71-78. Disponível em: <http://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/210962>.

MACLEAN, K. A. Mystical experiences occasioned by the hallucinogen psilocybin lead to increase in the personality domain of openness. J Psychopharmacol. 2011 Nov; 25(11), p. 1453–1461. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3537171/>.

NUTT, D. Psilocybin for anxiety and depression in cancer care? Lessons from the past and prospects for the future. Journal of Psychopharmacology 2016, Vol. 30(12) p.1163 –1164.

ROSS, S et al. Rapid and sustained symptom reduction following psilocybin treatment for anxiety and depression in patients with life-threatening cancer: a randomized controlled trial. Journal of Psychopharmacology, 2016, Vol. 30(12), p.1165–1180. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27909164>.

Mais no Portas da Percepção:

BESERRA, F. R. Cogumelos mágicos e psilocibina. Em: Hempadão. Disponível em: <http://hempadao.com/cogumelos-mgicos-e-psilocibina-parte-1/>.

BESERRA, F. R. Psilocibina no campo da saúde. Em: Hempadão, 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/psilocibina-no-campo-da-sade-parte-ii/>.

BESERRA, F. R. Psilocibina: no TOC e na dependência. Em: Hempadão, 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/psilocibina-no-toc-e-na-dependncia-parte-iii/>.



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