Psicoterapia com psicodélicos: uma história de sucessos e infundada proibição (PARTE 1)

Portas da Percepção

hempadao 15 outubro, 2015

por Fernando Beserra

Pode-se considerar o início da pesquisa psicodélica nos EUA, aproximadamente, em 1874, quando Benjamin Paul Blood publicou um panfleto de 37 páginas que descrevia em detalhes os insights que derivavam da auto experimentação com gás de óxido nitroso (DOBLIN, 2000). O óxido nitroso foi descoberto em 1772 na Inglaterra por Joseph Priestley. Blood estava debatendo os impactos psicológicos e filosóficos daquela experimentação. Este estudo influenciou o pioneiro na psicologia científica, William James, que em 1882 publicou suas próprias considerações sobre este uso.

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O período entre 1874 e 1962 ficou conhecido, por Rick Doblin, como uma “Era de aceitação aberta” aos usos e pesquisas com psicodélicos. O médico J.R. Briggs em 1887 publicou um artigo reportando sua experimentação com o peiote, cacto tradicionalmente utilizado por povos originários da América do Norte e enviou uma quantidade de peiote para o farmacologista Louis Lewin. Em 1888, Lewin publicou o primeiro material sobre a química do peiote e, em 1897, Arthur Heffter identificou o principal componente psicoativo do peiote, a saber, a mescalina.

A necessidade de prescrição, no uso médico, e regulação das drogas é bastante recente em termos históricos. Nos EUA, no início do século XX, os pacientes poderiam comprar qualquer droga que necessitassem, sem prescrição médica, nas drogarias. O Harrisson Narcotics Act, de 1914, inicia uma regulamentação na área e estabelece a necessidade de receitas médicas para a compra de substâncias narcóticas. Outras drogas não narcóticas passam a necessitar de receita apenas em 1938 por meio do Federal Food, Drug and Cosmetic Act(DOBLIN, 2000). As primeiras solicitações para pesquisa com drogas tornadas ilícitas ocorrem após 1962, em um Ato que altera a regulamentação de 1938, a Kefauver-Harris Amendments.

Antes destes atos, para regular um conjunto de drogas, é instituída nos EUA, em 1906, o The Pure Food and Drugs Act. Segundo Doblin (2000, p.13):

Medicamentos e alimentos que continham uma lista especificada de drogas “narcóticas“, tais como morfina, heroína, ópio, cocaína e cannabis indica foram especificamente obrigadas a divulgar no rótulo as quantidades de tais drogas que estavam presentes. Nenhuma droga psicodélica foi incluída nesta lista. Não foram impostas restrições potências máximo, a publicidade ou idade do consumidor. […] Todos estes medicamentos podiam ser vendidos no balcão.

Em cenários menos regulados, não era problemático realizar pesquisas com substâncias psicodélicas, inclusive com a cannabis sativa. Pouco tempo depois o cenário iria se alterar, a começar pelo narcótico ópio: mesmo a prescrição de ópio por médico, aceita na época, passou a ser perseguida nos EUA, país que construiu a trilha da internacionalização da proibição de um conjunto de substâncias psicoativas. As pesquisas com psicodélicos não foram, inicialmente, atingidas. O médico Kluver conduziu uma pesquisa sobre os efeitos da mescalina na percepção e em 1928 ele publicou uma monografia em inglês no tema; ao mesmo tempo pesquisas foram realizadas na Europa (DOBLIN, 2000).

Na continuidade de regular as drogas, o governo dos EUA como pioneiro, continuou sua insurgência contra a automedicação, isto é, o livre uso de fármacos por cidadãos estadunidenses. Cada vez mais serão necessárias as prescrições médicas e tal situação é regularizada em 1951 por meio da Durham-Humphrey Amendment.

Os psicodélicos foram atingidos tardiamente: na década de 1950 e 60 borbulham pesquisas com psicodélicos, notadamente as realizadas por médicos psiquiatras e psicólogos clínicos. Esta situação foi ampliada sobremaneira após a síntese do LSD por Albert Hoffman em 1938 e, mais particularmente, após a descoberta de seus efeitos psicoativos em 1943. O primeiro artigo científico sobre LSD data de 1947, de Stoll, que trabalhava, como Hoffman, na Sandoz na Suíça. Foram participantes da pesquisa 16 adultos saudáveis e 06 pacientes com transtorno esquizofrênico.

Os resultados das pesquisas com psicodélico, no campo da saúde mental, eram promissores no tratamento de várias patologias, bem como na ampliação da consciência. Em um dos primeiros estudos publicados sobre o LSD-25, em 1950, de Busch e Johnson (1950), observou-se um alívio de episódios traumáticos da infância reprimidos e se concluiu que o LSD-25 poderia oferecer um modo de facilitar o acesso a pacientes crônicos e servir como ferramenta para tornar mais curta, temporalmente, uma psicoterapia.

Após a proibição do LSD nos EUA em 1968 e sua inserção nas drogas Schedule I em 1970/71, cada vez mais as pesquisas foram dificultadas. Pouco antes da proibição, a Sandoz havia parado de enviar LSD para pesquisas em torno de um grande apelo das grandes mídias sobre o risco da dietilamida de ácido d-lisérgico.

Em 1951 é iniciada pela CIA o projeto MK Ultra. A CIA acreditava que poderia utilizar as substâncias psicodélicas na guerra química, em especial na lavagem cerebral e como soro da verdade. Tanto a CIA como agências de outros países como Canadá e África do Sul utilizaram de forma condenável, antiética, estas substâncias. Os resultados, além de absolutamente sombrios, foram um fracasso do ponto de vista militar.

Referência:

DOBLIN, Richard Eliot. Regulation of the Medical Use of Psychedelics and Marijuana. Thesis. Harvard, 2000.

Textos no Portas da Percepção sobre o tema:

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e psicopatia: um amor possível? Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/2977-mdma-e-psicopatia-um-amor-possivel.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia com MDMA. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3155-psicoterapia-com-mdma.html>

BESERRA, Fernando Rocha. Cogumelos mágicos e ansiedade em pacientes terminais. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3498-cogumelos-m-aacute-gicos-e-ansiedade-em-pacientes-com-doen-ccedil-as-terminais.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia com psicodélicos. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3360-psicoterapia-com-psicodelicos.html>

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia com LSD: riscos e resoluções. Hempadão. 2015. http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3137-psicoterapia-com-lsd-riscos-e-resolucoes.html

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapias psicodélicas: terapia hipnodélica. Hempadão. 2014. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/2244-psicoterapias-psicodelicas-terapia-hipnodelica.html>

BESERRA, Fernando Rocha. Breves palavras sobre o uso terapêutico do LSD. Hempadão. 2013. Disponível em: <http://hempadao.blogspot.com.br/2013/02/breves-palavras-sobre-o-uso-terapeutico.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia assistida com LSD: novos estudos. Hempadão. 2014. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/1848-psicoterapia-assistida-com-lsd-novos-estudos.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e depressão. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3310-mdma-e-depressao.html>.

BESERRA, Fernando Rocha. MDMA e depressão – Parte 2. Hempadão. 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3329-mdma-e-depressao-parte-2.html>.



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