Psicoterapia com LSD: riscos e resoluções

Portas da Percepção

hempadao 17 abril, 2015

por Fernando Beserra

Já abordamos em diversos posts o quão positivo poderia ser um uso psicoterapêutico de LSD: tal uso é promissor não apenas na redução da ansiedade em pacientes com doenças terminais, como mostra estudo recente na Suíça, mas para a maior parte dos tratamentos psicológicos. O uso de LSD, aliado à psicoterapia, como já indicava o químico suíço Albert Hoffman, responsável pela descoberta do LSD-25, pode acelerar os processos psicanalíticos ou psicoterapêuticos. Tal aceleração e aprofundamento é resultado de uma série de processos psicodinâmicos fomentados pelo consumo do LSD, a exemplo da capacidade de re-significar experiências, flexibilizar couraças e desatar fixações (alteração do processo transferencial e manejo contratransferencial; da resistência à psicoterapia, etc) e fechar gestalts.

É evidente que, embora promissor, qualquer tratamento com uma substância potente enseja riscos. Os riscos, como observado pelas recentes pesquisas, são irrisórios quando se cuida do set e do setting de forma adequada. Segundo o psiquiatra Stanislav Grof:

“Os perigos da psicoterapia com LSD podem ser reduzidos consideravelmente se nós pesquisarmos os indivíduos que representam alto risco e se nós conduzirmos as sessões com uma consciência e respeito as dinâmicas específicas de reação ao LSD” (GROF, p. 163).

Neste grupo de pacientes com riscos e que, portanto, não deveriam fazer uma psicoterapia com LSD (ou apenas em contextos muito específicos e planejados), incluem-se:

– Pacientes com sérios problemas cardiovasculares (segundo Grof, os riscos cardíacos não se devem aos efeitos farmacológicos do LSD, mas às intensas experiências emocionais que ele provoca);

– Grávidas (pela possibilidade de intensa contração intra-uterina);

– Pacientes com disposição epiléptica (tema em discussão, já que alguns pacientes com epilepsia respondem bem ao LSD);

– Pacientes muito reprimidos ou emotivos devem iniciar com doses menores – pequenas doses, nestes casos, podem conduzir a efeitos mais pronunciados (ou a ausência de efeitos);

– Pacientes com sintomas borderline – e tipo-esquizofrenicos;

– Pacientes com episódios psicóticos no passado;

Além disso, pacientes com problemas no fígado devem ser cuidadosos, pois o efeito do LSD pode ser, neste caso, prolongado – na medida em que o fígado tem um importante papel na “desintoxicação” e excreção do corpo do LSD. Com este quadro em geral a pessoa que realizará um uso de LSD no contexto psicoterapêutico deveria passar por uma análise anterior, incluindo avaliação psicológica, além de exames físicos tais como EEG, eletrocardiograma, exames de urina, fígado e de sangue. No contexto de pesquisa pré-proibição os exames realizados nos pacientes indicavam que o uso de LSD, ao longo da psicoterapia, não sinalizava pioras nos indicadores biológicos.

Um dos principais problemas na psicoterapia com LSD – no passado – era a falsa noção de que o sujeito poderia experimentar apenas estados de êxtase transcendental e ter um dia maravilhoso. Como tal estado nem sempre ocorre, é comum que as viagens com LSD contenham estados paradisíacos, mas igualmente estados amedrontadores.

Ansiolíticos

O uso de ansiolíticos deve ser entendido sempre como último caso, inclusive na perspectiva de ajudar usuários com dificuldades e requer orientação médica. Isso inclui tanto usos regulados quanto usos de LSD em grandes festas ou festivais. A perspectiva acolhedora da redução de danos deve optar sempre, antes do uso de fármacos para inibir o efeito, tentar conduzir a um estado de integração da experiência que causa sofrimento mental. Há alguns motivos para isso e não se trata, portanto, de qualquer postura anti-medicamentosa (já que todo medicamento é uma substância psicoativa, uma droga – e nós não partimos da noção de que drogas são, por si mesmas, boas ou ruins). Alguns destes motivos encontram-se abaixo explicitados:

  • (Os ansiolíticos, em especial os benzodiazepínicos) Reduzem ou até impossibilitam uma integração positiva das experiências – notadamente as experiências dolorosas ou traumáticas;
  • Paralisam o sujeito em um frame psicológico negativo e prolongam reações de flashback e os efeitos negativos pós-uso;

 

Redução de Danos e Riscos

O principal, no estabelecimento de aporte terapêutico para o sujeito que entrou em uma viagem negativa é, notadamente, baseado na comunicação não-verbal. Evita-se que o sujeito coloque-se em risco físico, mas igualmente busca-se um ambiente acolhedor e com menor estimulação física. A relação não verbal estabelecida pode ser, simplesmente, manter-se junto ao sujeito em estado meditativo, sem julgá-lo. Trata-se, portanto, de algo semelhante a estratégias já utilizadas por Ronald Laing com pacientes internados em grandes hospitais psiquiátricos, partindo das premissas anti-psiquiátricas.

O nosso sistema psíquico funciona de forma auto organizadora e auto regulatória, isto é, tal como os órgãos, igualmente a mente humana busca a saúde mental. No entanto, nem todo processo de auto organização é agradável e alguns levam a riscos. Quando o usuário é acompanhado por um guia (cuidador ou terapeuta) experimente, o mesmo é capaz de permitir que o processo de desenvolva, mas deixar que o usuário se ponha em riscos físicos e psicológicos. Há várias técnicas possíveis para tentar tirar uma pessoa de uma viagem ruim sem ser violento com o processo alheio. Isso é assunto que já tratamos, alguns links seguem abaixo para quem quiser se aprofundar um pouco mais.

Referências:

GROF, Stanislav. LSD Psychoterapy.

Outros textos aqui no Portas da Percepção do tema:

Parte 1; parte 2;



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