Psicologia junguiana e a psicoterapia com Psicodélicos!

Portas da Percepção

hempadao 10 agosto, 2017

Como interpretar a experiência psicodélica do ponto de vista psicológico? A psicologia complexa de Carl Gustav Jung [1875-1961] foi uma das psicologias mais utilizadas ou influentes neste campo. Desde o psiquiatra junguiano Ronald Sandison [1916-2010], até o psicólogo junguiano Leo J. Zeff [1912-1988], este último fundamental à expansão do uso clínico de MDMA, a abordagem junguiana foi muito utilizada nas compreensões da experiência psicodélica. Apesar disso, de acordo com Scott Hill (2013), apenas dois autores trabalharam francamente com a psicologia junguiana nesta temática: o Ronald Sandison e o analista junguiano Margot Cutner.

por Fernando Beserra

Mesmo quando a psicologia analítica não foi diretamente utilizada na prática clínica, foi um recurso útil para refletir acerca dos estados não ordinários de consciência, como pode-se observar nas teorias e práticas do psiquiatra tcheco Stanislav Grof [1931-], nos psicólogos psicodélicos de Harvard, Timothy Leary [1920-1996], Ralph Metzner [1936-] e Richard Alpert [1931-] ou no psiquiatra e psicanalista argentino Alberto Fontana. Um dos possíveis motivos para a forte influência da psicologia analítica na psicoterapia com psicodélicos é que Jung passou por experiências, mesmo sem o uso de psicodélicos, extremamente similares à experiência psicodélica (HILL, 2013), algumas das quais apresentadas no Livro Vermelho e outras em sua “autobiografia”: Memórias, sonhos e reflexões. Neste sentido, Jung realizou uma psicologia da experiência e da imaginação, abrindo as portas para que fosse possível investigar fenômenos à margem da ciência positivista. Apesar disso, reconhecia que um amplo público poderia não o entender sua psicologia, pois nem todos estão familiarizados com este campo fenomenológico em suas vidas pessoais.

No campo da psicoterapia com psicodélicos, tão rico entre as décadas de 1940 e 1970, houveram algumas importantes escolas de psicoterapia com psicodélicos. Uma destas foi a denominada psicoterapia psicolítica. O termo psicolítico foi cunhado no início dos anos de 1960 por Ronald Sandison na intenção de reunir a análise junguiana à psicoterapia aliada ao uso de LSD. Proveniente da raiz lytic, do grego lutikos, estar apto à, indica a habilidade dos psicodélicos de reduzir os mecanismos de inibição de imagens, emoções e memórias do inconsciente. A terapia psicolítica utilizava doses baixas a média para ampliar o sucesso terapêutico, permitindo um aprofundamento da análise (HILL, 2013). O uso baixo é acompanhado de uma terapia mais longa do que a psicoterapia psicodélica, que utiliza doses altas e poucas sessões, ao mesmo tempo que envolve um número maior de sessões com psicodélicos. Segundo Grof (1980) havia uma média de 18 usos de psicodélicos na psicoterapia psicolítica e a tempo total de terapia durava, de acordo com Yensen e Dryer (1992), entre seis meses e dois anos. Além do uso com psicoterapia analítica, a terapia psicolítica também foi utilizada com orientação – princípios e prática – de base freudiana, com os ajustes necessários devido a administração de um psicodélico. Em suma, a psicoterapia psicolítica estabelece como central o aspecto terapêutico e o manejo clínico, isto é, a relação terapeuta-paciente é tomada como central, em distinção à psicoterapia psicodélica (HILL, 2013). Nesta última, desenvolvida por diversos pesquisadores, dos quais destaca-se o Stanislav Grof, a substância psicodélica é o elemento central no processo terapêutico. Pode-se observar, paralelamente, que a psicolítica tem princípios semelhantes da psicoterapia psicodélica em diversos momentos; Scott Hill (2013) remonta as considerações do terapeuta psicolítico Sandison de que, embora considere a importância ocasional da discussão verbal ao longo da sessão com psicodélico, mantém uma postura de profundo respeito pela experiência psicodélica e que evita interromper a experiência com LSD.

Infelizmente, os junguianos deram pouca atenção à experiência psicodélica, possivelmente por Jung ter demonstrado certa desaprovação do uso de psicodélicos para fins de desenvolvimento psicológico, embora tenha admitido, em 1954, que não estava suficientemente familiarizado com o valor psicoterapêutico destas substâncias. Jung nunca tratou exaustivamente o tema de substâncias psicoativas, assim como especificamente da classe de substâncias psicoativas denominadas psicodélicos. Alguns autores, a exemplo de Wilson (1996), consideram que Jung teria utilizado psicodélicos, seja pela via do contato com índios nativo-americanos no Novo México – que utilizavam peiote – ou devido ao seu contato com o pesquisador da mescalina Kurt Beringer na década de 1920, no entanto, não há evidências de que este uso tenha ocorrido (HILL, 2013). Em uma carta de Alfred Hubbard [1901-1982], ocorre um convite para que Jung se aproxime da psicoterapia com mescalina, mas o psiquiatra suíço recusa, afirmando dúvidas e hesitações. Na verdade, mais que isso, Jung (2002) nega a possibilidade de experiência transcendental com a mescalina; especula que, no México, os peioteiros pareceriam dependentes de drogas e que valeria uma avaliação psiquiátrica e, além disso, acredita que a mescalina remove o véu do processo seletivo da cognição e revela camadas subjacentes das variantes perceptivas de forma ilegítima. Em suma, Jung nesta carta apresenta uma postura tendenciosa e etnocêntrica que na atualidade, mas também na década de 1970, é incompatível com os dados produzidos a partir da psicoterapia com psicodélicos. Apesar desta carta, Jaffé (1983) explicita que Jung teria demonstrado grande interesse pelas experiências científicas com a mescalina e que viu nestas a confirmação das suas pesquisas acerca do inconsciente e de seus afetos numinosos.

Grande parte das pesquisas psicodélicas aumentaram a partir do final da década de 1940, embora a popularização seja um pouco mais tardia. Usos experimentais e psiconauticos passam a ser escritos ainda no final do século XIX, como o uso de óxido nitroso de Benjamin Paul Blood [1832-1919] e de William James [1842-1910]. Jung faleceu em 1961. Ele conheceu um pouco acerca da mescalina, que foi utilizada por Aldouls Huxley [1894-1963], autor que narrou seu uso no livro The Doors of Perception (As Portas da Percepção) e posteriormente em Heaven and Hell (Céu e Inferno) e demonstrou várias dúvidas e pouco conhecimento acerca do LSD. Em uma carta de 1954, de Jung à Ida Herz, um padre católico, o psiquiatra suíço aborda o uso de mescalina por Aldous Huxley descrito em seu livro Portas da Percepção e realizou considerações acerca da necessidade de desenvolvimento de uma consciência moral que, de acordo com seu posicionamento, não ocorreria mediante o uso dos psicodélicos. Portanto, o contato com o inconsciente que os psicodélicos promovem poderia ser perigoso caso não houvesse um desenvolvimento moral correspondente. Entre os junguianos, há ainda outras críticas que foram deferidas contra o uso psicoterapêutico de psicodélicos, dentre as quais, as da Marie-Louise von Franz (1999), da Aniéle Jaffé (1983) e do Michael Fordham. Fordham acreditava que o uso de psicodélicos reduz a capacidade de engajamento consciente em um processo terapêutico (HILL, 2013). Felizmente para os pesquisadores da psicoterapia com psicodélicos, a experiência clínica, mais do que a retórica hipotética, tem demonstrado que não tem sido este o caso, pelo contrário, os resultados das pesquisas de psicoterapia aliada ao uso de psicodélicos tem obtido resultados muito bons.

Apesar do afastamento do Jung da psicoterapia com psicodélicos, seus estudos psicológicos foram fundamentais ao desenvolvimento deste campo e da compreensão da experiência psicodélica. No entanto, esta avaliação é tema para outro texto…

Referências:

FRANZ, M. L. V. As drogas na visão de C. G. Jung In: Psicoterapia – São Paulo: Paulus, 1999.

GROF, S. LSD Psychoterapy. California: Hunter House, 1980.

HILL, S. Confrontation with the unconscious: jungian depth psycology and psychedelic experience. New York-London: Maswell Hill Press, 2013.

JAFFÉ, A. O mito do significado. São Paulo: Cultrix, 1983.

JUNG, C. G. Cartas de C. G. Jung. Volume 2. Petrópolis: Vozes, 2002.

WILSON, P. L. Cybernetics & entheogenics: from cyberspace to neurospace. Conference on Tactical Media Amsterdam, Jan. 1996. Acesso em: dez. 2016. Disponível em: <http://www.t0.or.at/hakimbey/neurospc.htm>.

YENSEN, R. DRYER, D. Thirty years of psychedelic research: the spring grove experiment and its sequels. Based on an address to the European College of Consciousness (ECBS) International Congress, Worlds of Consciousness in Göttingen, Germany 24-27 September 1992.

Mais no Portas da Percepção:

BESERRA, F. R. Breves palavras sobre o uso terapêutico do LSD. Em: Hempadão, 2013. Disponível em: <http://hempadao.blogspot.com.br/2013/02/breves-palavras-sobre-o-uso-terapeutico.html>.

BESERRA, F. R. Psicoterapia psicodélica: terapia hipnodélica. Em: Hempadão, 2014. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/2244-psicoterapias-psicodelicas-terapia-hipnodelica.html>.

BESERRA, F. R. Psicoterapia com LSD: riscos e resoluções. Em: Hempadão, 2015. http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/3137-psicoterapia-com-lsd-riscos-e-resolucoes.html

BESERRA, F. R. Psicoterapia assistida com LSD: novos estudos. Em: Hempadão. Disponível em: <http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/1848-psicoterapia-assistida-com-lsd-novos-estudos.html>.

BESERRA, F. R. Psicoterapia com psicodélicos: uma história de sucessos e infundada proibição. Em: Hempadão, 2015. Disponível em: < http://hempadao.com/psicoterapia-com-psicod-eacute-licos-uma-hist-oacute-ria-de-sucessos-e-infundada-proibi-ccedil-atilde-o-parte-1/>.

BESERRA, F. R. Psicoterapia com psicodélicos. Em: Hempadão, 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/psicoterapia-com-psicodelicos/>.

BESERRA, F. R. Psicoterapia com MDMA. Em: Hempadão, 2015. Disponível em: <http://hempadao.com/psicoterapia-com-mdma/>.

BESERRA, F. R. Psicoterapia psicodelítica. Em: Hempadão, 2016. Disponível em: < http://hempadao.com/psicodlicos-e-terapia-a-orientao-psicodeltica/>.

BESERRA, F. R. Superando o trauma: psicoterapia com MDMA. Em: Hempadão, 2016. Disponível em: <http://hempadao.com/superando-o-trauma-psicoterapia-com-mdma/>

BESERRA, F. R. Psicoterapia com ibogaina no tratamento das dependências. Em: Hempadão, 2017. Disponível em: < http://hempadao.com/psicoterapia-com-ibogana-no-tratamento-das-dependncias/>.



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