Psicodélicos produzem experiências místicas?

Portas da Percepção

hempadao 31 outubro, 2014

por Fernando Beserra

Essa foi a pergunta do médico psiquiatra e teólogo Walter Pahnke (1931-1971). Sua hipótese foi de que as substâncias psicodélicas poderiam facilitar a experiência mística, em voluntários inclinados à religiosidade, notadamente quando utilizadas em contexto (setting) religioso.

Pahnke foi um importante pesquisador dos psicodélicos de Harvard nos efervescentes anos de 1960. Foi orientado pelo psicólogo Timothy Leary, considerado por alguns o Papa da Contracultura, na condução de sua mais famosa pesquisa: Good Friday Experiment.

543632_origPahnke, no ano de 1962, conduziu o seguinte experimento:

O psiquiatra e teólogo trabalhou com 20 estudantes-voluntários de teologia, todos estudantes de uma Universidade de Boston. Metade destes receberam capsulas com 30mg de psilocibina, princípio ativo de diversos, assim chamados, cogumelos mágicos; os outros 10 estudantes receberam um placebo também psicoativo, mais particularmente, capsulas com ácido nicotínico. Esta experiência foi conduzida em uma capela, a Capela Marsch na Sexta-feira Santa. Nem os pesquisadores nem os participantes da pesquisa sabiam, no momento do uso, o que estava sendo utilizado. Tratou-se, portanto, de um estudo com uso do duplo cego. Além disso o estudo foi randomizado, isto é, os grupos foram determinados de forma aleatória. Após uma hora de uso, no entanto, não havia mais dúvidas sobre quem tinha tomado o que, devido as diferenças de potência das substâncias, modos de atuação e duração dos efeitos. A partir deste experimento, segundo Timothy Leary, o duplo cego mostrou-se inútil para a pesquisa psicodélica – evidente que haviam limitações na proposta, na medida em que ambos os grupos, o grupo experimental e o grupo controle permaneceram no mesmo espaço físico.

No dia seguinte a experiência (no máximo 02 dias depois) os participantes preencheram um questionário com 147 perguntas. Como forma de acompanhamento dos sujeitos da pesquisa, foi conduzido um estudo de follow up (seguimento) e foi realizado novo questionário após 06 meses do evento, neste caso, com 100 perguntas.

Outro fator interessante da pesquisa, é que metade dos pesquisadores-assistentes, que acompanharam os grupos, efetivamente tomaram psilocibina (LEARY, 1999). No entanto, a quantidade de psilocibina que tomaram era a metade do grupo experimental, isto é, foi de 15mg. Walter Pahnke discordou, segundo Doblin (1991), do método, mas foi persuadido por Timothy Leary. É importante lembrarmos que, ao entrar para lecionar em Harvard, após escrever Interpersonal Diagnostic of Personality, Leary trabalhou uma perspectiva metodológica fundamental:

· O pesquisador deve se transformar na pesquisa, tal como o pesquisado. A pesquisa não é neutra;

Para Leary a pesquisa não era pura, neutra e não deveria seguir os marcos da ciência positivista. Neste momento ganhava grande popularidade nos EUA as psicologias humanistas e existenciais, como a de Carl Rogers, Harry Sullivan e de Abraham Maslow.

Os resultados podem parecer surpreendentes para quem não conhece na pele o potencial de transformação advindo dos psicodélicos. Pahnke observou que o grupo experimental, que recebeu psilocibina, experienciou, em maior extensão, o fenômeno místico descrito em sua tipologia da experiência religiosa. Um dos estudantes sorria e, olhando um grande tempo pela janela expressou: “Deus está em toda parte! É a glória!” (Leary, 1999).

Rick Doblin (1991), um dos grandes pesquisadores contemporâneo dos psicodélicos considerou que a pesquisa de Pahnke não observou se a psilocibina produz experiências místicas independente do contexto (setting). Não considero a crítica de Doblin muito justa, na verdade, pode-se considerar que a psilocibina, neste tipo de setting, produz mais experiências místicas que o uso de placebos. Isso é o bastante para uma investigação acadêmica de ponta, seja na década de 1960, seja nos dias atuais. Doblin também criticou, além de alguns pontos do questionário, que apenas foi solicitado um relato dos participantes da pesquisa, mas não foram feitas perguntas a familiares e amigos bastante próximos (pessoas significativas), como forma de acompanhar de forma mais acurada as transformações avaliadas após o uso da substância.

Ao invés de debruçar sobre a analítica de Rick Doblin, prefiro ventilar as ondas surfadas por Timothy Leary sobre o experimento, com sua mistura agradável entre rigor e proselitismo político-religioso:

“Os questionários e entrevistas revelaram que os participantes que ingeriram psilocibina tiveram experiências religiosas místicas, ao passo que o grupo de controle, não. Os resultados estatísticos foram definitivos. A administração dos cogumelos sagrados numa ambientação religiosa para pessoas com motivação religiosa forneceu uma demonstração científica de que o êxtase espiritual, a revelação religiosa e a união com Deus já estavam disponíveis para todos. A experiência mística poderia ser produzida para aqueles e por aqueles que a desejassem”.

Referências:

DOBLIN, Rick. Pahnke´s “Good Friday Experiment”: a long-term follow up and methodological critique. Massachusetts: Transpersonal Institute, 1991.

LEARY, Timothy. Flashbacks “surfando no caos”: a história pessoal e cultural de uma era. São Paulo: Beca, 1999.

PAHNKE, Walter. Drugs and mysticism. The International Journal of Parapsychology. Vol VIII (no 02). Spring, 1966. P. 295-313. Disponível em: http://www.erowid.org/entheogens/journals/entheogens_journal3.shtml



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