O Papel da Etnobotânica na Descoberta de Enteógenos e Plantas Medicinais

Portas da Percepção

hempadao 9 agosto, 2013

por Catiusia

clip_image002Muito do que se refere à plantas medicinais, medicamentos derivados, bem como o uso que fizemos de cada planta que conhecemos, incluindo as plantas de poder, se deve à pesquisas etnobotânicas. De fato, a botânica tradicionalmente era uma disciplina considerada como um ramo da medicina. As antigas farmacopéias, muito utilizadas pelos profissionais da saúde nos tempos passados, ilustram uma diversidade de plantas as quais eram a única fonte de cura para muitas doenças da época. Somente em meados de 1800, a disciplina da botânica foi reconhecida como uma ciência distinta e passou-se a um estudo mais aprofundado das plantas em relação a outros propósitos, não relacionados apenas à saúde. Atualmente, o ramo da botânica que se ocupa da pesquisa do uso das plantas por populações humanas é a etnobotânica. Dentre outras aplicações, alguns dos resultados das pesquisas nessa área estão nas gôndolas das farmácias ou nas plantas enteógenas que conhecemos e utilizamos.

Muitos medicamentos comuns atualmente são derivados de plantas e tiveram sua descoberta através de pesquisas sobre as plantas medicinais utilizadas por comunidades indígenas ou outras populações tradicionais. A aspirina, por exemplo, talvez um dos medicamentos mais conhecidos no mundo farmacêutico, é derivada da Filipendula ulmaria, uma planta que historicamente foi o ingrediente principal em rituais de cura na Europa antiga. Outras drogas, como a morfina, efedrina e cafeína, também surgiram de forma semelhante, ou seja, a partir de investigações sobre as plantas utilizadas tradicionalmente por curandeiros ou xamãs em seus rituais, sejam eles espirituais ou curativos. De acordo com Walter Lewis, autor de diversos artigos em etnobotânica, de todos os compostos ativos derivados de plantas com alguma aplicação medicinal, em todo o mundo, cerca de três quartos foram descobertos através do conhecimento prévio extraído de curandeiros e xamãs em populações indígenas.

Os estudos de Richard Evans Schultes, considerado um dos pais da etnobotânica, revelaram diversos enteógenos como a Ololiuqui (Rivea corymbosa), teonanacatl, (cogumelos do gênero Psylocibe) em suas pesquisas com populações tradicionais na América Central, ou mesmo os estudos sobre o uso de peiote, nas tribos norte-americanas e no México. Segundo ele, na visão desses povos, há uma estreita relação entre a cura e a divindade proporcionadas pelo uso da planta, sendo o xamã a pessoa que detém o conhecimento tanto para prescrever uma planta medicinal ou para guiar os rituais de cura espiritual. As plantas enteógenas e medicinais estão estreitamente ligadas, não só pela relação espiritual e divinatória que está implícita na cura do corpo e da mente, mas também em razão dos compostos ativos produzidos por estas plantas. Os alcalóides bioativos são os principais terapêuticos naturais com ações anestésica, analgésica, psicoestimulante ou mesmo neurodepressores, sendo os responsáveis pelos estados alterados proporcionados pelos enteógenos.

De fato, milhões de anos de evolução no reino vegetal resultaram em uma complexa diversidade de compostos químicos produzidos por tantas espécies de plantas. Esta complexidade e diversidade química, que naturalmente se deve à construção de mecanismos de defesa para repelir os inimigos na natureza, fez das plantas uma rica fonte de medicamentos. Apesar disso, de 265 mil espécies de plantas que, estima-se, existem em todo o mundo, menos de 1300 têm sido estudadas para um potencial uso medicinal. A pesquisa de drogas sintéticas dominou a indústria farmacêutica por um certo período, entre os anos de 1960 até 1990, porém, mais recentemente, os olhares retornaram especialmente para as florestas tropicais, onde está a maior biodiversidade tanto de plantas como de animais, o que potencializa a produção de compostos bioativos, devido às interações ecológicas. Muitas dessas moléculas, resultado de bilhões de anos de evolução, não podem ser precisamente replicadas nem pelos mais complexos programas de síntese de medicamentos em laboratório.

Provavelmente existem muitas plantas com um potencial incrível a ser descoberto, mas estamos perdendo muito desse conhecimento naturalmente armazenado. Espécies vegetais em todos os biomas do mundo estão desaparecendo, através da destruição de seus hábitats ou da extinção de seus polinizadores ou dispersores. Além disso, a modernização das culturas indígenas talvez represente a maior perda desse conhecimento. Cada vez mais aumenta o número de comunidades indígenas em contato com pessoas de sociedades muito diferentes das suas, o que inicia um processo de transformação nos hábitos e costumes tradicionais, principalmente nas gerações mais jovens. Richard Evans Schultes aborda a questão com um dado alarmante: "em apenas uma geração, a transformação dos hábitos de uma cultura pode conduzir ao desaparecimento do conhecimento botânico adquirido ao longo de milênios”. Todos os esforços são necessários para se preservar os costumes que ainda existem.



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