O Lado Negro da Enteogenia!

Portas da Percepção

hempadao 17 maio, 2013

por Catiusia

clip_image002Salve amigos! Esta semana vamos saber um pouco mais sobre uma planta enteógena, através de uma história de terror associada a ela. Um caso macabro de uso de enteógenos. Popularmente conhecida como trombeteira, zabumba, figueira-do-inferno (e outros nomes populares igualmente sugestivos e, por vezes, errôneos), a planta em questão é a Datura stramonium. Pertence à família botânica Solanaceae, a mesma família de plantas onde estão agrupados o tomate e a batata. Apesar desses dois exemplares domesticados e comestíveis, a família Solanaceae compreende várias plantas produtoras de alcaloides potencialmente perigosos para animais e para o ser humano.

Os efeitos psicoativos da trombeteira são visionários e devem-se à alcaloides como atropina e escopolamina. Em doses elevadas podem gerar delírios e perda da consciência. A quantidade de alcaloides varia de acordo com a idade da planta e condições de plantio, como tipo de solo, iluminação e umidade. Por isso, o uso recreacional da erva é extremamente perigoso, tendo em vista que a concentração dos compostos ativos podem variar na proporção de 5:1 entre uma planta e outra.

Carlos Catañeda, no livro “A Erva do Diabo”, descreve as crenças e traz algumas informações acerca do uso tradicional desta planta por povos ameríndios:

O poder da erva-do-diabo é conquistado por meio de suas raízes. A haste e as folhas são a cabeça que cura as moléstias; usada direito, essa cabeça é uma dádiva para a humanidade. A terceira cabeça fica nas flores, e é usada para tornar as pessoas malucas ou para fazê-las obedientes, ou para matá-las”.

Toda essa obscuridade em torno da planta não é somente popularismos. A história de terror associada a essa planta foi descoberta por um renomado pesquisador da universidade de Harvard, chamado Wade Davis. Explorador residente na National Geographic Society, Davis acumula diversos títulos em antropologia e etnobotânica. Realizou diversas expedições por todo o mundo estudando plantas e suas formas de uso por populações indígenas. Dentre suas várias publicações irei abordar aqui uma das mais famosas e, particularmente, o mais interessante relato de uso de uma planta enteógena, qual seja, a trombeteira.

A Datura stramonium, em combinação com a tetrodoxina (TTX), uma neurotoxina potencialmente fatal encontrada no peixe baiacu, produz um composto capaz de levar pessoas ao estado cataléptico, ou seja, um estado onde a vítima aparenta estar morta, por não haver absolutamente nenhum movimento muscular. Antigamente quase todos os casos de catalepsia eram confundidos com óbito e as vítimas eram sepultadas. Mas quando os túmulos eram visitados, os parentes encontravam os cadáveres revirados, pois ao passar o estado cataléptico as vítimas debatiam-se presas embaixo da terra e morriam mesmo era por sufocamento.

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Pois bem, Wade Davis registrou o uso de tetrodoxina e extratos de trombeteira, que eram combinados numa poção preparada por sacerdotes vodus e utilizada para zumbificar pessoas. Essa história (real) é muito interessante e se passou no Haiti, onde os sacerdotes vodus administravam a poção fatal à pessoas que julgavam não se enquadrar no modelo de sociedade idealizado por eles. As vítimas eram induzidas a machucarem-se, através de cacos de vidro contendo a poção maligna, os quais eram espalhados em seu caminho. Ao pisarem na armadilha as vítimas feriam os pés, por onde a poção entrava na corrente sanguínea. Em pouco tempo as pessoas entravam em estado cataléptico e eram dadas como mortas. Mas após serem sepultadas, os sacerdotes vodu abriam as covas e as levavam para serem escravizadas, administrando doses de outros psicoativos regularmente, afim de mantê-las sob estado de zumbificação. Sinistro!

 

Os estudos de Davis acabaram virando filme e popularizaram-se com a lenda do Zumbi do Haiti. Mas todo o relato científico de Wade Davis sobre as formas de uso dessas substâncias estão nos livros de sua autoria “Passagem das Trevas: A Etnobiologia do Zumbi do Haiti” e “A Serpente e o Arco-Íris(The Serpent and the Rainbow). Wade Davis também conviveu com tribos amazônicas que faziam uso de Ayahuasca. Em outras publicações como One River e o livro fotográfico The Lost Amazon, Davis conta sobre essas descobertas na floresta amazônica. Esses ainda sem tradução para o português, mas o livro sobre os zumbis do Haiti está traduzido e vale a leitura. E para quem curte as trevas, vai a dica do filme originado das pesquisas de Davis, que leva o nome do segundo livro sobre os zumbis: “The Serpent and the Rainbow”. Muito interessante!



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