O Gigante Silencioso: O discreto e bem sucedido programa de maconha medicinal de Israel

Discovery Hemp

hempadao 24 agosto, 2015

por Lindsay Stafford Mader, Tradução de Cid Knipel
Gratidão ao parceiro Peter Dolving. Originalmente publicado em Herbalgram

Colaboração da AMEMM

Conselho Botânico Americano Plantas de maconha como parte de um método de cultivo em rotação (envolvendo o plantio a cada duas semanas para garantir suprimentos constantes) na instalação de cultivo Canndoc Ltd em 2010. Foto © 2013 Boaz Wachtel, HerbalGram

Em que pese seu status como um dos países pioneiros no mundo em termos de pesquisas e inovação médicas, os Estados Unidos possuem um sistema marcadamente restritivo para regulamentar a pesquisa sobre a maconha medicinal. Mesmo quando a Administração Americana de Alimentos e Medicamentos (FDA) aprova estudos sobre a maconha medicinal, o pesquisador ou instituição devem ainda obter aprovação do Serviço de Saúde Pública (PHS), bem como adquirir maconha do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (o NIDA), que detém monopólio sobre a oferta de maconha que pode ser usada para pesquisas em todo o país.

A Cannabis (1) (Maconha spp. Cannabaceae) é a única substância protegida para a qual se exige aprovação do PHS, e os que desejam estudar a planta muitas vezes são rejeitados pela agência – sufocando efetivamente essa importante área da ciência. Um número crescente de estados americanos têm assumido a questão por sua própria conta mediante a legalização da maconha medicinal para residentes com certas afecções de saúde. Mas o governo federal continua a tomar de assalto e encerrar empreendimentos estaduais de maconha medicinal, chegando mesmo a mandar alguns desses empresários para a prisão. Embora a situação americana se baseie em grande parte na discrepância entre as legislações estadual e federal, americanos e cidadãos de outros países que proíbem a maconha medicinal poderiam aprender sobre a forma exitosa, humanitária – e incontroversa – de implementar um programa dessa ordem se considerassem o incomparável programa nacional de maconha medicinal de Israel.

Roteiro para o Acesso Medicinal

O governo israelense sempre classificou a maconha como perigosa e ilegal, e continua sendo crime usar a erva de modo recreativo e sem a autorização de um médico credenciado. Ao contrário de iniciativas de maconha medicinal de base estadual nos EUA, o programa de âmbito nacional em Israel tem conquistado apoio crescente de funcionários do governo, suscitando relativamente pouca controvérsia entre os cidadãos israelenses, funcionários públicos e líderes religiosos.

Em 1995, o Comitê de Drogas do Parlamento israelense formou um subcomitê para examinar a condição legal da maconha, que recomendou que o governo continuasse a classificar a maconha como ilegal, mas também que permitisse e controlasse o acesso à maconha medicinal a pacientes com doenças graves.2,3

“Claro que a segunda recomendação foi extremamente positiva e importante”, disse Boaz Wachtel, ativista da maconha medicinal em Israel que atuou como um dos dois representantes públicos no comitê (e-mail, 29 de novembro de 2012).3 “Pela primeira vez um comitê indicado pelo Parlamento reconheceu o uso medicinal da maconha e criou uma abertura para o avanço da questão”. Wachtel notou outros fatores importantes por trás das recomendações do comitê, entre os quais a aprovação da Administração Americana de Alimentos e Medicamentos em 1985 ao Marinol®, medicamento contendo THC sintético, bem como a contribuição do médico Raphael Mechoulam, que também atuou no comitê. O dr. Mechoulam, um cientista israelense, búlgaro de nascimento, isolou o tetrahidrocanabinol (THC) em 1964.2 Em 1992, o dr. Mechoulam e seus colegas Lumi’r Ondrej Hanus e William Anthony Devane isolaram e descreveram o anandamida, um neurotransmissor endógeno canabinoide encontrado no cérebro humano.4

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Plantas de maconha maduras e prontas para colheita na instalação de cultivo Canndoc em 2010. Foto © 2013 Boaz Wachtel

“Imagino que o sucesso na pesquisa da maconha em Israel produziu certo impacto na decisão tomada pelo Ministério da Saúde de prosseguir com um programa de maconha medicinal cuidadosamente controlado”, disse o dr. Mechoulam (e-mail, 6 de dezembro de 2012). “O comitê que presidi em 1995 era constituído principalmente por funcionários do governo. Sua atitude geral era bastante liberal. Procurávamos minimizar a criminalização e encontrar caminhos para legalizar o uso medicinal. Nosso relatório nunca foi discutido ou aprovado, mas tenho a impressão que afetou a atitude da polícia e do Procurador Geral”.

Vários fatores sociais e políticos também estiveram em jogo antes e durante o cauteloso mas genuíno interesse do governo israelense pela maconha medicinal, disse o dr Rick Doblin, diretor executivo da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS), sediada na Califórnia, o qual colaborou com os israelenses na maconha medicinal e as pesquisas do MDMA (também conhecido como êxtase). Por um lado, o aliado mais importante de Israel, os Estados Unidos, opõe-se à maconha medicinal e Israel não quis comprometer essa relação. Por outro lado, há o princípio judeu profundo e fundamental de alívio do sofrimento, que muitos viam a maconha fazendo.

“Também o fato de que Mechoulam é de Israel e eles tinham esta tradição de ser líderes mundiais na pesquisa dos canabinoides, decidiram experimentar”, disse o dr. Doblin (comunicação oral, 4 de dezembro de 2012). “De fato, percebiam que há uma quantidade enorme de sofrimentos que a maconha pode ajudar a reduzir a um custo muito baixo”.

Ao considerar um programa nacional, o Ministério Israelense da Saúde (MOH) consultou o dr. Doblin e a MAPS, além de alguns grupos adicionais ligados à maconha medicinal, sobre programas em outros países. Israel se empenhou em obedecer aos tratados internacionais sobre drogas, em particular a Convenção Única sobre Narcóticos das Nações Unidas de 1961, que “visa combater o abuso de drogas pela ação coordenada internacional” e limita as drogas narcóticas ao uso medicinal e científico.5Entre várias disposições sobre o uso médico contidas no documento de 44 páginas, a Convenção Única preconiza limitar “o cultivo, produção e fabricação e uso de drogas a uma adequada quantidade necessária para fins médicos e científicos, garantir sua disponibilidade para tais fins e prevenir o ilícito cultivo, produção e fabricação, e o tráfico e uso ilícito de drogas”. (Curiosamente, é exatamente o mesmo tratado que os Estados Unidos utilizam para argumentar em favor de seu monopólio sufocante sobre o suprimento para a pesquisa de maconha.l)

“Os israelenses estavam muito cientes das obrigações da Convenção Única e dos diferentes modos como são interpretadas em outras partes do mundo”, disse o dr. Doblin. “Entendiam que embora os Estados Unidos não estivessem dispostos a chegar até esse ponto ao nível federal, havia estados que estavam chegando a esse ponto e também outros países, como a Holanda e o Canadá. Isso os ajudou a sentir-se mais à vontade porque o que podíamos lhes mostrar é que o Conselho Internacional de Controle dos Narcóticos – que avalia a obediência aos tratados internacionais, particularmente a Convenção Única – nunca havia censurado nenhum dos países nem falado contra eles”. Apesar das preocupações iniciais de Israel quanto a comprometer sua sólida relação com os Estados Unidos, o dr. Doblin observou não ter visto nenhuma evidência de tal reação negativa. “Absolutamente nenhuma”, disse ele.

Um pequeno quiosque para pacientes que visitam o centro MECHKAR de distribuição e treinamento. Foto © 2013 Moish Yarel

Um pequeno quiosque para pacientes que visitam o centro MECHKAR de distribuição e treinamento. Foto © 2013 Moish Yarel

Para atender o importante requisito da Convenção Única de que uma agência específica vigie certas funções relacionadas ao uso medicinal de drogas proibidas, Israel encarregou seu Ministério da Saúde de liderar o programa de maconha medicinal do país.3No entanto, a implementação foi lenta e comedida. Em 1996, Wachtel se reuniu com um funcionário do ministério para discutir a implementação das recomendações do subcomitê da maconha, e também apresentou uma solicitação para fornecer maconha medicinal a um paciente com HIV. “Ele disse: “O senhor abriu uma porta importante mas controversa – encontre uma maneira de implementar o programa que não custe dinheiro ao Ministério”, disse Wachtel, relatando a resposta do funcionário. “Os suprimentos eram um problema. A polícia não [estava] disposta a fornecer a maconha confiscada do mercado negro. Os pacientes precisam de algumas variedades do produto padronizadas, orgânicas, que não danifiquem seus sistemas imunológicos debilitados. O Ministério da Saúde não tinha resposta para essa questão”.

Cerca de dois anos mais tarde, o Ministério da Saúde israelense permitiu que vários pacientes cultivassem algumas plantas de maconha em suas casas, mas a maioria se tornou muito doente para cuidar das plantas e surgiu uma acusação de que o paciente de HIV estava vendendo maconha para menores.3 Em consequência dessas barreiras iniciais, o Ministério não emitiu nenhuma prescrição adicional para maconha medicinal durante dois anos. Considerou importar maconha, mas devido a preocupações relativas a custo e limitações da Convenção Única, os funcionários por fim decidiram permitir que um jovem paciente de Síndrome de Crohn cultivasse maconha para si mesmo e para os outros seis pacientes que foram autorizados na época. Esta paciente também teve sua enfermidade agravada demais para cultivar. Com o Ministério ainda incerto sobre como exatamente implementar a produção em grande escala de maconha medicinal, o programa passou por vários anos de pouca ação.

“A inovação ocorreu quando o Ministério designou o dr. Baruch como novo Diretor Adjunto especificamente para lidar [com] a questão da maconha medicinal”, disse Wachtel. “A decisão final de aprovar pedidos de pacientes e levar o programa adiante estava em suas mãos”.

Evolução Moderna do Programa Israelense de Maconha Medicinal

O programa de maconha medicinal de Israel evoluía cada vez mais lentamente a cada ano que passava. Durante sua primeira década, o governo expediu apenas 62 receitas. Agora, cerca de 9 mil receitas de maconha medicinal estão atualmente em vigor, disse o dr. Yehuda Baruch, ex-diretor do programa (e-mail, 4-16 de dezembro de 2012).

“A perspectiva [tem sido] ajudar os necessitados quando não há outra opção viável [a] um preço acessível e com o mínimo de burocracia possível”, disse o dr. Baruch, que também é psiquiatra e diretor do Centro de Saúde Mental Abarbanel em Bat Yam. O alívio generalizado que a maconha medicinal pode proporcionar a muitos pacientes não deixa de ser acompanhada do lado negativo paradoxal, do ponto de vista do dr. Baruch, de que os mesmos pacientes também alcançam uma embriaguez recreativa. “O número crescente [de autorizações] é um ponto de preocupação porque hoje a fonte principal de uso recreativo é a maconha medicinal, mas também uma bênção porque é mais um medicamento na farmacopeia que pode ser usado quando tudo o mais fracassou, e uma vez que ele funciona por um mecanismo de ação diferente, pode se mostrar bem sucedido”.

O dr. Baruch conduziu o programa de maconha medicinal de Israel durante uma década, de 2002 até dezembro de 2012. (Embora seu substituto não tenha sido publicamente anunciado, fontes para este artigo indicaram que é Yuval Lanshaft, um ex-funcionário do alto escalão da Segurança Interna.) Durante vários anos o dr. Baruch foi o único médico em todo o país com permissão para emitir autorizações a pacientes, e também esteve a cargo de organizar e conduzir o programa juntamente com os ministérios da Agricultura, Segurança Nacional e Alfândega.

“Pessoalmente eu fazia palestras em cada encontro acadêmico ou médico possível, ainda que fosse um encontro muito pequeno”, disse o dr. Baruch, “e dava meu telefone pessoal e convidava para que me ligassem por qualquer coisa. Também trabalhei de perto com políticos relevantes e discuti várias vezes o assunto no parlamento israelense. Em suma, foi muito trabalho de campo”.

Em 2010, o Ministério da Saúde decidiu permitir que outros médicos em cinco hospitais fornecessem autorizações para maconha medicinal a pacientes, aliviando a pesada responsabilidade do dr. Baruch e possibilitando acesso um pouco mais rápido e fácil de pacientes à erva.6 Atualmente, nove médicos estão autorizados a dividir esse fardo. O dr. Baruch notou que, embora todos os médicos mais velhos no país possam solicitar autorização para qualquer número de seus pacientes que poderiam beneficiar-se com a maconha medicinal, apenas esses nove médicos credenciados pelo Ministério da Saúde têm permissão para aprovar e emitir autorizações. Como a maconha apenas pode ser receitada como um “último recurso” medicinal, os pacientes são informados a respeito quando estão em salas de emergência e alas de oncologia e dor, e o médico requisitante deve declarar que todo tratamento por remédios adotado até então foi infrutífero.7

Conquanto o aumento para nove médicos fosse uma melhoria, o dr. Doblin observou que dispor desses poucos médicos credenciados poderia impor limites onerosos a uma nação de pacientes (boletins de notícias embasaram um estudo do Ministério da Saúde que verificou que 40 mil israelenses poderiam se beneficiar com a maconha8).

“Acho que neste momento [o programa de Israel] é um enorme sucesso”, disse o dr. Doblin. “É muito limitado, eu diria, porque há muito mais pessoas que poderiam se beneficiar. O Ministério está mantendo um controle bastante sólido sobre o crescimento do programa. Mas no contexto israelense, acho que evitou uma reação negativa, por isso talvez esta fosse a abordagem correta na época. Mesmo assim, não é a melhor abordagem uma vez que atualmente não se permite acesso para pacientes com [transtorno do estresse pós-traumático] e outras afecções”.

De início os pacientes podiam obter autorizações para maconha medicinal apenas para asma e, anos depois, outras afecções foram aceitas, entre as quais a síndrome debilitante da AIDS, vômito e dor associados a quimioterapia para câncer, e todas as outras aplicações eram consideradas numa base caso-a-caso, disse o dr. Baruch. Agora são considerados para receitas pacientes com as seguintes afecções:

  • Dor crônica devido a etiologia orgânica comprovada

  • Doenças órfãs (isto é, doenças e afecções que atingem apenas uma pequena porcentagem da população e para as quais poucos ou nenhum medicamento farmacêutico são desenvolvidos)

  • Pacientes de HIV com perda significativa de peso ou uma contagem de células CD4 abaixo de 400

  • Doença de inflamação intestinal (mas não Síndrome de Intestino Irritável)

  • Esclerose múltipla

  • Mal de Parkinson

  • Tumor canceroso maligno em vários estágios.9

A partir de 2011, a maioria dos pacientes que utilizavam maconha tinham dor crônica, estreitamente acompanhada por afecções associadas ao câncer.9

Por muitos anos, o Ministério da Saúde se empenhou muito para conseguir um sistema de cultivo e distribuição que fosse satisfatório tanto aos funcionários do governo como aos pacientes. Em 2007, o dr. Baruch autorizou uma pessoa em Israel a cultivar cerca de 50 pés de maconha para fornecer, livre de ônus, material a pacientes.3 Esse homem, Tsachi Cohen, fez isso na casa de seus pais no norte de Israel. A horta contava com a presença e cuidados de sua mãe, uma antiga professora de biologia. Mais tarde o dr. Baruch autorizou vários outros plantadores, sendo que nenhum deles tinha permissão para vender a maconha para obter lucro. Muitas fontes entrevistadas para o presente artigo indicaram que o modelo inicial sem fins lucrativos contribuiu para o sucesso e aceitação do programa.

“A primeira impressão que o público obtinha era que essas pessoas estão atuando no interesse público e não para o ganho pessoal”, disse o dr. Doblin.

Essa operação em pequena escala gerida pela família Cohen acabou resultando no primeiro – e atualmente o maior – centro de produção do país, chamado Tikun Olam (o termo hebraico baseado no princípio judeu de que todas as pessoas devem tentar reparar o tecido rompido do universo por atos de generosidade, compaixão, cura e justiça). Em última instância, a totalidade do modelo sem fins lucrativos dos plantadores – que dependia principalmente de doações – não pôde ser sustentado devido ao número crescente de pacientes autorizados e o processo intensivo e dispendioso exigido para cultivar maconha de alta qualidade em grande escala. Assim, o governo começou a exigir que os plantadores credenciados cobrassem dos pacientes uma taxa mensal de 360 Sheqels novos israelenses (aproximadamente $100 dólares americanos) para até 100 gramas por mês. A dosagem mensal inicialmente receitada é de 20 gramas, sendo a quantidade média 42 gramas, e a todo paciente é cobrada a mesma taxa mensalmente, seja qual for a quantidade de maconha que ele receba.8 O preço é relativamente barato quando comparado à maconha de outros países, e várias grandes companhias de assistência médica israelense, o fundo Sobreviventes do Holocausto, e o Ministério da Defesa (para alguns pacientes com transtorno de estresse pós-traumático) cobrem parcialmente o custo da maconha medicinal.

Vários produtos da maconha no centro MECHKAR de distribuição e treinamento disponíveis a pacientes israelenses usando maconha medicinal. De cima para baixo, uma tintura de maconha, biscoitos de maconha assados, pomada de maconha e cigarros de maconha enrolados com papel orgânico. Foto © 2013 Moish Yarel

Vários produtos da maconha no centro MECHKAR de distribuição e treinamento disponíveis a pacientes israelenses usando maconha medicinal. De cima para baixo, uma tintura de maconha, biscoitos de maconha assados, pomada de maconha e cigarros de maconha enrolados com papel orgânico.
Foto © 2013 Moish Yarel

“O [marco] mais importante foi a transição do sem- para o com-fins-lucrativos”, disse o dr. Doblin, cuja organização, a MAPS, doou cerca de $85 mil para apoiar as instalações sem fins lucrativos. “Pode-se dizer que foi uma transição de um modelo não sustentável para um modelo sustentável. Outro ponto que torna Israel tão incrivelmente bem sucedido como modelo é que parte de suas companhias de seguro-saúde dão cobertura para maconha. Este é o tipo de informação que realmente precisa ser difundido nos Estados Unidos. Seja por que motivo for, temos companhias de seguro-saúde concluindo que é um investimento inteligente cobrir a maconha medicinal. Israel é o único lugar que conheço onde isso acontece”.

Existem atualmente sete centros de cultivo autorizados que distribuem maconha medicinal no local, por entregas em domicílio, em pequenos dispensários em um número limitado de locais e hospitais urbanos ou em um dos maiores centros de distribuição.9 O centro de distribuição principal, chamado MECHKAR, uma sigla hebraica que quer dizer pesquisa, representa um aspecto importante do programa israelense. No MECHKAR, os pacientes não só conseguem maconha, como também são convidados a virem para instruções e aconselhamento sobre tópicos como quais variedades e formas de dosagem podem ser melhores para sua afecção e estilo de vida pessoais; níveis e localização da dor e todas as demais condições de saúde; e preocupações e experiências emocionais ou religiosas.10 O pessoal também supervisiona de perto os pacientes ao longo dos primeiros meses com formulários e encontros de avaliação a fim de aperfeiçoar as dosagens, reduzir quaisquer efeitos colaterais indesejados e discutir potenciais interações medicamentosas.

“Talvez sejamos o único governo no planeta neste momento onde se encaminham para o uso de maconha pacientes que não têm desejo nenhum de usá-la”, disse Mimi Peleg, diretora de treinamento em grande escala no MECHKAR (e-mail, 29 de novembro de 2012). “Eles têm um forte desejo de parar de sofrer, é claro. Meu primeiro trabalho como formadora é relaxá-los o suficiente até para considerar a ideia de que é normal usar esse medicamento. O trabalho com pacientes que recebem maconha me ensinou que a qualidade da educação que é compartilhada no princípio do tratamento é um fator importante em direção a um controle ótimo dos sintomas”.

Loja no centro MECHKAR de distribuição e treinamento, oferecendo vários acessórios para maconha, inclusive um Vaporizador Volcano.

Loja no centro MECHKAR de distribuição e treinamento, oferecendo vários acessórios para maconha, inclusive um Vaporizador Volcano.

De vez em quando, o Ministério da Saúde discute a possibilidade de importar maconha medicinal da Holanda, e atualmente se encontra no processo de instalar uma grande Agência de Maconha Medicinal, ministerial e multi-institucional, para lidar com todos os aspectos da produção, distribuição, testes e autorização de maconha medicinal.3 O governo também tem discutido a distribuição em farmácias a ser iniciada em algum momento em 2013, mas não está claro se essa iniciativa será realmente implementada no tempo previsto.6 Se este passo for dado, prevê-se que a grande agência governamental compre toda a produção dos plantadores, armazene-a em depósitos sob controle do governo e depois a distribua pelas farmácias.9

“Como formadora em maconha, esse mudança impactará meu papel atual”, disse Peleg. “No geral, acho que é um movimento positivo na direção certa. Eu [ainda] sinto a necessidade de alguns centros de distribuição onde os pacientes possam frequentar para treinamento adicional e ajustes de variedade ou teor. Tratar pessoas com maconha requer muito mais que a mera compra do remédio em uma farmácia”.10

A maconha encontra-se disponível a pacientes sob diversas formas como biscoitos, cigarros prontos, óleos e tinturas.10Pacientes com autorização para maconha medicinal também têm permissão para ingerir maconha por meio dos vaporizadores Volcano*, um dispositivo que custa normalmente cerca de $500-600 dólares americanos no varejo, que aquece a maconha sem queimá-la, de forma que não há produção de fumaça e apenas quantidades reduzidas de subprodutos da combustão são produzidas. Várias companhias de seguro-saúde israelenses e grupos de atenção a pacientes também cobrem parte do preço de aquisição ou aluguel de um Volcano, que foi autorizado pelo Ministério da Saúde e aprovado pelo Instituto de Normas de Israel, e vários dispositivos doados pela Volcano Medic em Israel estão disponíveis em quatro hospitais públicos a pacientes que não os podem adquirir.

“Tudo isso tem sido um enorme esforço cooperativo”, disse Peleg. “Eles colocaram quatro Vulcanos nos hospitais maiores e os pacientes com autorização podem solicitar piteiras e balões pessoais ou inalar seus próprios Volcanos. Eu inalei quando estava me curando de câncer e com isso evitei a necessidade de morfina na recuperação! Foi maravilhoso dispor da escolha”.

Apesar de todas as medidas corajosas tomadas com a maconha medicinal em Israel, continua a ser em grande parte uma situação incontroversa. A gama diferenciada de pacientes amparados pela erva inclui ex-soldados, policiais, colonos, israelenses árabes, e sobreviventes idosos do Holocausto. O dr. Doblin mencionou que líderes religiosos têm declarado a maconha kosher (aprovada pela lei judia), e Peleg nota uma diversidade em termos de religião, política, gênero e idade entre as centenas de pacientes que ela treinou ao longo dos anos.

“Um mês depois de seu treinamento inicial, Hanna* voltou com [seu marido] Hiem*, e como costuma acontecer, mal os reconheci”, disse Peleg sobre uma sobrevivente do Holocausto a quem ela treinou no uso de maconha medicinal para dor.10“Havia uma inegável intimidade entre eles, que não havia em sua visita anterior – era claro que eles vinham tendo alguma comunicação. Em vez de estar contente, Hanna estava lívida e com toda razão. Ela queria saber a quem culpar pelo fato de não haver recebido esse medicamento anos atrás se o mesmo era conhecido e se achava disponível. De fato, quem podia culpá-la? Sua dor desaparecera, ela tinha apetite, estava se comunicando com seus entes queridos – a maconha estava fazendo seu trabalho. Israel é um país muito pequeno. Somos apenas 8 milhões de cidadãos. As notícias se espalham rápido e a pressão sobre o sistema é extremamente alta devido a histórias como a de Hanna que destacam a eficácia”.

Ativista da maconha, Wachtel também notou a descoberta ao final dos anos 1980 de restos antigos de maconha em uma tumba em Israel, que segundo os pesquisadores provavelmente foi dada a uma menina de 14 anos, também encontrada na tumba, para “facilitar o trabalho de parto” de sua criança não nascida.11 “A maconha”, disse Wachtel, “é assim encarada aqui como uma planta medicinal indígena, uma planta que esteve fora de uso durante algum tempo mas que agora está de volta a seu lugar natural na farmacopeia moderna para aliviar um grande número de sintomas”.

Mesmo com controvérsia relativamente pequena, a polícia israelense alega que os campos de maconha atraem criminosos que roubam as plantas para vendê-las no mercado negro.12 Mas Wachtel notou que muito pouco desvio está ocorrendo porque as operações de cultivo normalmente são vigiadas por câmeras e guardas armados.

Os partidários da maconha medicinal em Israel também identificam áreas onde o programa pode ser melhorado. Peleg notou a necessidade de um banco nacional de variedades, avaliações retrospectivas de medicamentos usados em concomitância com a maconha, uma lista ampliada de enfermidades e um programa de treinamento mais abrangente para profissionais de saúde e pacientes. Além disso, o processo de solicitar maconha e obter a recomendação de um médico e autorização oficial de paciente, embora às vezes rápida, também pode ser muito demorada.13

“O sistema está explodindo nas juntas”, disse Peleg. “Se mais 10 pessoas trabalhassem no Ministério da Saúde apenas na maconha, não conseguiríamos fazer todo o trabalho que precisa ser feito”.

O dr. Doblin enfatizou a necessidade de Israel produzir maconha oficial de teor medicinal apoiado por Boas Práticas Industriais, documentação meticulosa e padronizações de produto. Embora várias companhias de seguro-saúde israelenses já cubram a maconha sem que ela tenha passado pelo processo de aprovação formal de medicamento, ele notou a possibilidade de importar maconha de teor medicinal de Israel para os Estados Unidos para apoiar a pesquisa científica. (A pesquisa do dr. Doblin aprovada pela FDA que busca desenvolver a planta em um remédio de prescrição autorizada foi rejeitada pelo processo do PHS/NIDA.1)

O fato de que o governo de Israel é geralmente muito mais aberto ao potencial da erva como remédio tem possibilitado uma comunidade de pesquisa da maconha muito mais livre. O dr. Mechoulam, por exemplo, tem conseguido haxixe (um preparado feito com material resinoso rico em THC) da polícia israelense durante mais de 40 anos, com aprovação do Ministério da Saúde.

“A pesquisa em Israel é altamente respeitada e nem a polícia nem o Ministério da Saúde jamais levantaram quaisquer problemas maiores”, disse o dr. Mechoulam. “Eles têm sido, e ainda são, muito prestativos. Isto é verdade tanto para a pesquisa básica como para a pesquisa clínica”.

“O benefício de um programa como o de Israel é que o governo assume um papel na garantia da qualidade e segurança do produto, e apoia a pesquisa para melhorar a compreensão dos benefícios medicinais da planta, disse Amanda Reiman, PhD, gerente de política da Califórnia para a Drug Policy Alliance [Aliança de Políticas de Medicamentos (e-mail, 1 de dezembro de 2012). “Nos Estados Unidos, o governo tem evitado ativamente que a pesquisa aconteça, e tem ameaçado de processo penal os municípios que tentam regulamentar a qualidade e segurança do produto”.

* Os nomes foram alterados para proteger a privacidade dos pacientes.

Referências

1. Stafford L. The state of clinical cannabis research in the United States. HerbalGram. 2010;85:64-68.

2. Brinn D. A growth sector. Jerusalem Post. March 19, 2009. Available at: www.maps.org/media/view/a growth sector/. Accessed December 17, 2012.

3. Wachtel B. Medicinal cannabis in Israel. September 2011 [unpublished].

4. Wisneski L, Anderson L. The Scientific Basis of Integrative Medicine, 2nd ed. CRC Press; Boca Raton, Florida. 2009.

5. Single Convention on Narcotic Drugs, 1961. The United Nations. Final act of the United Nations conference for the adoption of a Single Convention, as amended by the 1972 Protocol amending the Single Convention on Narcotic Drugs, 1961. Available at: www.unodc.org/pdf/convention 1961 en.pdf. Accessed December 17,2012.

6. Siegel-itzkovich J. More MDs to get licenses to prescribe medical marijuana. Jerusalem Post. September 6,2010. Available at:www.jpost.com/HealthAndSci- Tech/Health/Article.aspx?id=187221. Accessed November 27,2012.

7. Mechoulam R. Israel: legal aspects of marijuana use, medical use. October 20, 2008. International Association for Cannabinoid Medicines. Available at: http://cannabis-med.org/index.php?tpl=page&id=45&lng=en&sid=lb35fddl438521c70b7al45c6cf33ffb . Accessed December 17,2012. [o site pode ser acessado em português]

8. Ryan JD. Patients to pay for medical marijuana. Jerusalem Post. January 19,2010. Available at:www.ipost.com/HealthAndSci-Tech/Health/Article.aspx?id=166124. Accessed November 27, 2012

9. Wachtel B. Medical cannabis in Israel: review, lessons and recommendations for other countries. Presentation at Cannafest in Prague, Czech Republic. November 10,2012 [unpublished].

10. Peleg M. Large-scale cannabis training: 3 years of lessons learned in Israel. Presentation at Cannafest in Prague, Czech Republic. October 28,2012 [unpublished]

11. Russo E. Cannabis treatments in obstetrics and gynecology: a historical review. Cannabis Ther. 2002;(3/4):5-34.

12. Harkov L. Israel is world leader in medical marijuana use. Jerusalem Post. March 6, 2012. Available at:www.ipost.com/Health/Article.aspx?id=260692. Accessed November 27,2012.

13. Kershner I. Studying marijuana and its loftier purpose. New York Times. January 1,2013.Available at:www.nvtimes.com/2013/01/02/world/middleeast/new-insights-on-mariiuana-in- israel-where-its-illegal.html? r=0. Accessed January 4,2012.



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