O apresentador do Jornal da Maconha… “Tinha que ser Preto”

Adão e Erva

hempadao 9 fevereiro, 2017

No dia 29 de agosto de 2016 estreou na TvHempadão (o canal do Hempadão no YouTube) o Jornal da Maconha, um Web Jornal semanal só falando sobre brenfa. E quem vos fala, pelo presente, é o apresentador e um dos idealizadores do projeto.

Trazemos as principais notícias do Brasil e do mundo sobre a erva, contamos com a colaboração de dois humoristas fantásticos (abraço, Queiroga e Gabe!), fazemos reportagens sobre empreendedorismo canábico, damos voz a depoimentos exclusivos e emocionantes sobre o uso medicinal da planta, articulamos matérias e correspondências do exterior e mais uma caralhada de detalhes que só os olhos mais atentos percebem.

Um desses “detalhes” sou eu.

Fumo maconha há dez anos, bicho. Atualmente tenho certa maturidade e conheço um pouco do movimento pró-legalização. Nesse sentido, cerca de um ano atrás, algo começou a me incomodar. Como é (ou deveria ser) de conhecimento geral, o JOVEM NEGRO é a maior vítima dentro do nosso cenário proibicionista. Não vou discutir isso aqui, ok? As estatísticas não mentem. Mas não foram “só” esses números que me incomodaram. Me incomodou o fato de que mesmo tomando tanta PORRADA não houvesse espaço pra um preto falando sobre essa merda na posição de protagonista.

Faça uma experiência antropológica: visite a penitenciária mais próxima da sua residência e preste atenção, mais precisamente, nos condenados por crimes relacionados a drogas. Conte os brancos nos dedos. Agora conte os pretos.

Eu sou preto. Preto igual à maioria desses caras que vivem ali. A diferença entre nós é só a de que nenhum deles, provavelmente, nunca teve voz.

Fui educado em um colégio católico branco onde me ensinaram até regras de etiqueta, concluí o segundo grau, passei pra uma das melhores faculdades federais de Direito do país (sem cota. Nada contra, só pra constar).

Não me considero melhor que ninguém por isso, na maioria das vezes esse privilégio injusto até me abate. Mas toda essa conjuntura me deu, além de voz, uma vontade visceral de mudar essa situação.

Já fiz um monte de merda. Como também já realizei alguns feitos notórios na minha vida (todos realizamos) mas não vou me apegar a nenhum caso específico. Vou me apegar a uma expressão que ecoa desde a minha (nossa) juventude… aquela: “Tinha que ser preto”. Usualmente empregam essa expressão quando fazem merda. Nunca vi usarem quando realizam algo notório.

Mas como disse, resolvi mudar essa situação.

E numa dessas convulsões, na companhia do amigo Cadu do Hempadão (abraço, Cadu!), surgiu a ideia do Jornal da Maconha (JM pros íntimos). Meti um blazer de bacana, estufei o peito e ocupei o meu lugar de destaque ao lado do bong.

Um preto num lugar onde todo mundo só vê branco.

“Pra ficar mais claro, eu escureci” – o cenário. Não me interessa a sua opinião sobre isso. Não me interessa que você não esteja acostumado a ver um preto apresentando um programa, foda-se que nem a sociedade e nem a sua família te ensinaram isso. Não me interessa a saudade infantil que você sente dos seus ídolos brancos. Foda-se você e fodam-se seus ídolos brancos. Simplesmente não me interessa. Eu não reconheço a sua falta de melanina como merda nenhuma.

Eu resolvi mudar essa situação. Vim mostrar pro preto que uma das partes mais importantes dessa militância somos nós (por sermos a maior parcela e a mais afetada). Mostrar que tem preto a frente de projetos fodas. Afinal, tem um monte de neguinho que não tem UMA referência preta. Não tem UMA. Um monte de neguinho que tem que ficar escutando branco falar por que ninguém nunca mostrou pra eles o caminho da porra da senzala até a casa grande, tá ligado? Porque a porra do padrão de beleza, ao qual os olhinhos reacionários estão familiarizados, é branco e de cabelo liso e eu nunca vi um preto que fosse branco de cabelo liso pra me causar o mínimo de identificação. Vim mudar o sentido maléfico dado expressão “tinha que ser preto”.

Jovens, ser preto não é pejorativo.

Agora sempre que eu ouvir mais um som pesado do Miles Davis, Kendrick, Baco, Djonga, Rincon, BK ou Diomédes, eu vou dizer: Tinha que ser preto!

Sempre que eu assistir um Blaxploitation eu vou dizer: Tinha que ser preto!

Sempre que estiver lendo alguma matéria ou livro do Neil deGrasse ou do Carl Hart eu vou dizer: Tinha que ser preto!

Toda vez que eu apresentar uma nova edição do Jornal da Maconha eu vou dizer: TINHA QUE SER PRETO!

Uma hora essa moda vai pegar. Nem que eu dedique todos os dias restantes dessa minha existência em prol dessa causa. Sendo assim, engole seco esse teu racismo babaca antes que eu enfie na tua goela abaixo.

Pretos no topo.

E uma bonga noite.



4 respostas para “O apresentador do Jornal da Maconha… “Tinha que ser Preto””

  1. Leonardo disse:

    Muito legal saber de mais uma dentre muitas referências negras e brasileiras – a maioria fora da grande mídia.
    Uma ponderação: não é que não fez uso de cotas para ingressar numa graduação de excelência. Não sei de sua história familiar e de amizades, mas ouso dizer que tiveram referências íntimas que lhe proporcionaram competências e oportunidades que a maioria das pessoas (principalmente negras) não tiveram. Vejo que muitos que não usamos de cotas institucionalizadas gozamos de um outro tipo de cotas na medida em fazemos parte da uma reserva muito privilegiada de sujeitos (negros, brancos, amarelos, etc.) que herdou oportunidades exclusivas é fruto de esforço de antepassados, parentes, amigos, etc. que lutaram contra a espontânea dinâmica de hierarquias raciais. Somos também, em algum sentido, cotistas sim!

  2. ManoJão disse:

    Maximo respeito! Fico feliz em ver um irmão ocupando esse espaço q tbm deveria ser nosso, orgulho de ser vc q tem varias referencias musicais e politicas q nos representam, continue o grande trabalho pq tá muito foda!

    #PretosNoTopo

  3. Diogo disse:

    Os bleck sempre se vitimando . Fuck.

  4. Josué S Mendes disse:

    Texto muito bom, eu sempre pensei que tudo de mais legal que existe tem um toque Black , se o Brasil tiver alma essa alma com certeza só poderia ser Black ! Por outro lado , perguntaram ao ator Morgan Freeman o que ele achava do dia da consciência negra e ele respondeu : ” O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra , Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana , o racismo desaparece “

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