Maconheiros pela proibição?!

Chapa2

hempadao 21 outubro, 2014

por Tales Henrique Coelho

Na semana passada escrevi um texto contra a redução da maioridade penal, e me surpreendi ao ver, nos comentários do post no Facebook, dezenas de maconheiros defendendo propostas de endurecimento de penas, prisão perpétua e fuzilamentos… Na hora pensei: é, precisamos avançar muito no debate!

Antes de tudo, é preciso ressaltar que a nossa defesa na mudança da lei de drogas não é uma defesa só para que possamos fumar maconha tranquilos na rua. Pra mim, que sou de classe média, branco e tenho emprego fixo, a diferença nem seria tão grande. Alguém imagina uma pessoa com o meu perfil sendo presa de verdade por causa disso?

Só que essa não é a realidade de milhares de pessoas que são vítimas da guerra às drogas no Brasil e no mundo. Eu defendo a legalização por uma mudança de paradigma na lei penal. Porque grande parte da nossa juventude está sendo presa e morta com base na guerra às drogas e no discurso do endurecimento de penas e da repressão.

Agora, uma pergunta: qual a grande diferença do discurso de que "maconheiro tem que ser preso, fuzilado, porque quem financia o tráfico é cúmplice do crime", que muitos de nós já ouvimos da boca dos proibicionistas, para o de que "bandido tem que ser preso pra sempre/fuzilado", que muitos maconheiros fizeram nesse post da semana passada?

Muita gente não percebe que reproduz o mesmo discurso criminalizante do qual é vítima. Eu não acho que o moleque que me vende maconha deve ser condenado à prisão, que hoje em dia já é uma condenação perpétua (afinal, ele sempre vai ser o ‘ex-presidiário’).

Aliás, essa demonização da figura do ‘traficante’, como o grande causador do mal na sociedade, é algo que nós precisamos também combater. Assim como não devemos reproduzir os estigmas contra os ‘cracudos’ ou ‘cheiradores’. Defendo a legalização porque quero uma mudança ampla e radical de todos esses conceitos, em favor da vida de todos: do policial à senhora vítima de uma bala perdida.

Se somos militantes por uma mudança na legislação sobre drogas, precisamos ir mais além do que só pensar em fumar um tranquilo na rua!

Por isso peço que cada um coloque a mão na consciência. Se você defende a legalização da maconha, pense também na necessidade de uma reforma ampla do código penal, baseado principalmente na redução de penas e na construção de alternativas. Se prender e matar mais resolvesse, o País teria melhorado de 1980 pra cá, e não foi o caso, não é verdade?

Ao reproduzir falas que costumam sair da boca de Bolsonaros pelo Brasil afora, você está reforçando o discurso proibicionista.

Porque o que temos hoje no Brasil é um estado cada vez mais mínimo, com menos direitos, e um estado penal máximo, onde só se fala em aumentos de penas a todo momento. E sabemos que a prisão é um lugar muito caro para tornar as pessoas piores.

A lei de drogas não tem que mudar só porque a gente tem o direito de fumar e plantar sem ser importunado. Ela tem que mudar porque a Guerra às Drogas é um flagelo que provoca milhões de mortes e prisões sem sentido.

Novamente: se um moleque negro e desempregado vender 5 buchas de maconha e for pego, vai ser condenado e mandado para a universidade do crime. Se eu divido um peso de 500 gramas com os amigos, mesmo se formos pegos, não vai dar nada demais.

Quem pensa em mudar a lei olhando só para o próprio umbigo está muito equivocado.

A propósito: muitos me disseram que, se eu ou um familiar fôssemos vítimas de menores criminosos, eu mudaria de opinião. Eu até já fui assaltado, mas nem vem ao caso…

Peço que leiam esses ótimos texos do Tico Santa Cruz e do Marcelo Freixo, que perderam um grande amigo e um irmão para a violência (praticada por um menor, no caso do Tico), e ainda assim são contra a redução da maioridade penal e o endurecimento de penas a todo custo:

Texto do Freixo: Aqui

Texto do Tico Santa Cruz: Esse!

Recomendo ainda conhecerem mais o trabalho de organizações como os Agentes da Lei contra a Proibição, que fazem um debate muito amplo sobre essa questão: http://www.leapbrasil.com.br/

Recomendo muito também ler mais coisas do delegado Orlando Zaccone, um dos meus ídolos: Veja.

Porque ser antiproibicionista é ser por princípio contra os discursos de ódio, penalização e endurecimento da repressão.



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