LSD e Psicodelia! [Portas da Percepção Ed. 276#]

Portas da Percepção

hempadao 12 junho, 2014

por Fernando Beserra

Pretendo hoje tecer breves considerações sobre LSD e psicodelia, em parte a partir do artigo: The Pharmacological of Lysergic Acid Diethylamide: a review de Torten Passie e outros. O artigo foi publicado como artigo de revisão em 2008 na CNS Neuroscience & Therapeutics.

Nota: o artigo será utilizado para fomento da discussão, não trata-se neste post de um resumo, mas de um gatilho.

O artigo inicia com informações introdutórias sobre o LSD, como um produto semissintético do ácido lisérgico, uma substância natural do fungo de centeio Claviceps purpúrea.

Embora não entre em todo histórico do ergot e do ergotismo, que já abordamos aqui no Portas da Percepção, os autores trazem breve histórico da síntese do LSD em 1938 na busca de derivados farmacologicamente ativos do ácido lisérgico. Em 1943, finalmente, o químico suíço Albert Hofmann que trabalhava nos laboratórios da Sandoz, acidentalmente descobriu seus efeitos no dia 16 de abril de 1943. Para os interessados na história recomendo fortemente o livro do próprio Hofmann: LSD minha criança problema e o texto de Sandro Rodrigues no blog Ritmo e Subjetividade.

Os primeiros usos experimentais do LSD foram como psicotomimético, pela suposição de que o LSD seria um simulador da experiência psicótica e, mais especificamente, da experiência esquizofrênica. Em breve período observou-se o equívoco cometido, isto é, os psicodélicos são, com efeito, reveladores da psique e não simuladores de psicose, embora alguns insistam até hoje neste equívoco. Por outro lado, o uso de LSD permite um vislumbre sobre dimensões inacessíveis à consciência ordinária, de modo a contribuir com a compreensão, especialmente para profissionais da saúde, de estados mórbidos de consciência ou simplesmente distintos da consciência de vigília. Em pouco tempo, nos anos 50 e 60 (segundo Grof, no final da década de 40), floresce um grande volume de práticas psicoterapêuticas, realizadas por psicólogos ou médicos psiquiatras, nas quais usa-se o LSD como ferramentas de maximização da psicoterapia ou como principal protagonista da mesma. Foram criadas alguns tipos de psicoterapia, técnicas individuais e de grupo, com baixa ou ampla dose (psicolitica, terapia psicodélica..), etc. Sobre os tipos de psicoterapia realizadas na época, recomendo fortemente a leitura do LSD Psychoterapy do psiquiatra tcheco Stanislav Grof. Para discussões já realizadas: AQUI

Apesar do sucesso e da segurança deste tipo de utilização do LSD, o mesmo foi banido nos anos 70, apenas com algumas exceções como o uso psicoterapêutico por Hanscarl Leuner na G´ottingen University na Alemanha e por um limitado número de psicoterapeutas na suíça entre 1988 e 1993. Ao abordar o movimento psicodélico, Passie e outros (2008) expressaram que no final dos anos 60 do século passado o LSD começou a ser utilizado com finalidades espirituais e recreacionais.

Dentre os principais resultados senso-psíquicos do uso do LSD, os autores apresentam o seguinte quadro:

Quadro 1: Efeitos psicológicos e sensoriais típicos sobre a influência de uma dose média de LSD (100-200 ug)

Alterações sensoriais (visual, auditoria, paladar, olfatória, cinestesia) – poderíamos acrescentar a este tópico a sinestesia, por exemplo.

Ilusão

Pseudo-alucinação

Intensificação da percepção de cores

Mudança tipo-metamorfose em objetos e rostos

Intensas imagens visuais (caleidoscopias ou cênicas) com conteúdo transformando-se

Alterações da afetividade

Experiência de intensificação da emoção

Euforia

Disforia

Ansiedade

Humor oscilante

Alterações no pensamento

Pensamento mais imaginativo e menos abstrato

Associações mais gerais e menos usuais

Duração da atenção reduzida

Alteração das percepções corporais

Mudança na imagem corporal

Percepções interiores não-usuais dos processos corporais

Alteração metamórfica dos contornos do corpo

Alterações na memória

Re-experiência significativa de memórias biográficas

Hipermnésia

Regressão de idade

Experiências tipo místicas

Esse quadro dá margem a diversas colocações e discussões. Em primeiro lugar, embora o quadro utilize, com alguma variação, o modelo de psicopatologia mais tradicional em termos de descrição dos fenômenos, isto é, uma tendência descritiva, observa-se com clareza as marcas do paradigma positivista, como fica muito evidente ao lermos os principais tratados contemporâneos de diagnóstico e prognóstico dos transtornos mentais e do comportamento, como o DSM e o capítulo 5 da CID. O que entende-se como “ilusão” e “pseudo-alucinação” podem emergir na experiência dos psiconautas como profunda significação ou produção de sentido, de modo a trans-formar profundamente a psique, para além do campo de consciência imediata. Ir além da forma (trans-formar) envolve o desvelamento (alethéia) de uma realidade inexplorada, que doravante se mostra (phainomenon), se apresenta para a interação do campo da consciência. Exatamente pelas qualidades e intensidades presentes na experiência psicodélica, abre-se um vasto campo de potenciais psicoterápicos e de ampliação da consciência, do entendimento de si e do seu corpo (identidade, auto-imagem, auto-estima), revelando e produzindo novos modos de estar-no-mundo. Esta possibilidade de mudança de si radical, como já havia observado Timothy Leary, o re-imprinting, abre margem a mudanças profundas em estruturas arraigadas como a dependência química e episódios depressivos graves e recorrentes e é exatamente o que observa-se em relação aos psicodélicos como potenciais coadjuvantes para psicoterapia destes estados do ser, permitindo grandes melhorias na qualidade de vida. Desta forma, embora no retorno das pesquisas acadêmicas com LSD se dê com um modelo de entender a ciência bastante limitado, foi uma alternativa encontrada por pesquisadores para escapar as amarras da política proibicionistas, que rasgou e queimou décadas de pesquisas sérias no campo dos psicodélicos. Por pesquisas entenda-se não apenas estudos mensuráveis, repetíveis, de causa e efeito, com controle de variáveis, reducionistas, de suposta neutralidade, etc., mas igualmente as pesquisas experimentais, que visam alterar e transformar o pesquisador e o pesquisado, que engajam-se em alterar a realidade, em sentir na pele seus efeitos, sincronicidades e sabores, sem pretensão de controle de variáveis, mas atento sobremaneira a diversos níveis de relação e complexidade. Como exemplo destas últimas, pode-se citar sem medo as pesquisas realizadas por Timothy Leary.

Por fim, pode-se notar que o LSD, embora ainda haja muito a ser conhecido sobre seu efeito em diversos níveis (biopsicossociais), é fisiologicamente bem tolerado e não há evidencias de efeitos de longa duração no cérebro ou em outras partes do organismo humano.

“A meia-vida de eliminação do LSD é de 3,6 horas. LSD e seus metabólitos são reportados como sendo detectados na urina por até 4 dias após a ingestão. Usando o teste de screening Radio Imuno Ensaio (RIA) (Cut-off em 0.1ng/mL) o limite de detecção para 100ug de LSD p.o. é usualmente próximo a 30 horas. Cada dobro da quantidade inicial utilizada vai aumentar aproximadamente 5 horas. LSD ou seus metabolitos de reação cruzada (cross-reactive) foram detectados por períodos de 34-120 horas na concentração de 2-28 ug/L na urina (n = 7,300ug LSD p.o.)”.

Apesar disso, como bem exposto por Tim Leary: “LSD é uma droga psicodélica que ocasionalmente causa comportamento psicótico em pessoas que NÃO a utilizaram”.

Sobre adulterações no LSD no Brasil e no mundo, sugiro as leituras:

http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/1238-seu-doce-acido-era-lsd-ou-nbome.html

http://hempadao.com/pt/infumacao/portas-da-percepcao/1263-ainda-sobre-lsd-ou-nbome-portas-da-percepcao-244.html

http://coletivodar.org/2010/04/nova-secao-do-dar-cacadores-de-narco-mitos-nosso-lsd-tem-anfetamina/



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