LSD: do medo à empatia

Portas da Percepção

hempadao 9 junho, 2016

Quem tem medo do LSD? Uma pesquisa de opinião nos EUA acerca da legalização de substâncias psicoativas ilícitas revelou que 51% dos estadunidenses apoiam a legalização da maconha, enquanto apenas 8% apoiam a legalização do LSD. Este número é menor do que os 11% que apoiam a legalização da cocaína e idêntico aos que defendem a regulamentação da metanfetamina. Obviamente que há um abismo entre os riscos reais de cada uma destas substâncias e a opinião pública nos EUA acerca da legalização.

por Fernando Beserra

O grande foco das ações de ativistas no campo da política de drogas nos EUA girou em torno da legalização do uso lúdico e médico da maconha. Surtiu efeito. A maconha tem um grande número de consumidores e houve um apoio da população a este tema, visto cada vez mais com menos preconceito. A guerra a maconha encontra-se em desmonte continuo. No caso dos psicodélicos, os avanços são mais lentos no que se refere o uso lúdico, afinal, não havia até pouco tempo atrás vozes organizadas na defesa da regulamentação destas substâncias. Uma das diretoras da Drug Policy Aliance, Stefanie Jones, fala um pouco sobre a situação neste vídeo: http://psymposia.com/magazine/preview/be-honest-is-your-psychedelic-use-purely-sacred, inclusive deixando claro que a Drug Policy Aliance não tratava do tema até o momento. Quem entrar no site da organização verá que, neste momento, a frente da página é estampada com a notícia: “É tempo de falarmos de verdade sobre drogas nos festivais de música”. Fica muito evidente que a defesa da legalização da maconha, que não estimule o debate sobre outras substâncias, não abre imediatamente as portas para uma nova política de drogas que supere, de uma vez por todas, a política de guerra às drogas.

Por outro lado, as pesquisas com psicoterapia com psicodélicos voltaram após quase 40 anos de paralisação. O LSD foi estudado entre os anos 50 e 70 em vários estudos clínicos, mas a proibição tornou inviável os estudos de campo com as substâncias psicodélicas tornadas ilícitas. Tenho divulgado constantemente novas pesquisas com psicoterapia com LSD aqui no Portas da Percepção, que incluem estudos clínicos, como o estudo Gasser e outros (2014) no tratamento de ansiedade em pacientes com doenças terminais, até os vários estudos experimentais acerca dos psicodélicos. Um novo estudo: “LSD acutely impairs fear recognition and enhances emotional empathy and sociality”, realizado na Suíça por Dolder e outros, abordou o uso clínico do LSD e foi publicado em 2016 na publicação Neuropsychopharmacology. Os estudos no campo da saúde com LSD, MDMA, psilocibina, dentre outros psicodélicos, têm apresentado excelentes resultados, inclusive com efeitos em médio e longo prazo. De acordo com Carhart-Harris e outros (apud DOLDER e outros, 2016) o LSD aumenta o otimismo e traços de abertura por duas semanas, enquanto a psilocibina produz mudanças na atitude, humor e comportamento por mais de um ano após a sua administração (GRIFFITHS e outros, 2011). Os traços de abertura da personalidade incluem uma ampla gama de traços cobrindo a apreciação estética e sensitividade, fantasia e imaginação, consciência dos sentimentos de si e dos outros e engajamento intelectual (op.cit). Tais efeitos seriam maiores na ocorrência de experiências místicas ou de pico (cf. Abraham Maslow).

A pesquisa de Dolder e outros (2016) foi desenhada como um estudo randomizado, duplo cego e com grupo controle (com placebo) que contou com o incrível número de 40 sujeitos (20 mulheres e 20 homens) entre 25 e 60 anos. Os participantes da pesquisa foram recrutados na Universidade da Basileia, Suíça, em uma propaganda online e seguiram diversos critérios de inclusão e exclusão para os participantes. Os pesquisadores analisaram os efeitos do LSD no processamento emocional e utilizaram, para tal objetivo, as seguintes escalas e testes:

· Face Emotion Recognition Task (FERT);

· Multifaceted Empathy Test (MET);

· Social Value Orientation (SVO) test – para analisar o comportamento social;

· Visual Analog Scales (VASs) – para análise dos efeitos no humor;

· Adjective Mood Rating Scale (AMRS) – idem.

Foram divididos dois estudos:

1. Foi utilizado 100ug de LSD para o grupo experimental e houve grupo controle, que recebeu placebo;

2. Foi utilizado 200ug de LSD para o grupo experimental e houve grupo controle, que recebeu placebo;

Os participantes dos grupos experimentais – os que utilizaram LSD – diminuíram o reconhecimento de imagens de medo e tristeza (FERT), sendo que a primeira redução foi estaticamente relevante. No teste de empatia (MET), o LSD aumentou a empatia emocional implícita e explícita, enquanto reduziu a empatia cognitiva. O LSD também produziu aumento da sociabilidade (SVO). Nos testes relacionados à análise dos efeitos no humor, observou-se que o LSD aumentou o bem-estar, a excitação emocional, a introversão, o devaneio e a inatividade (AMRS), além de ampliar sentimentos de proximidade com os outros, de abertura, de confiança e o desejo de estar com os outros (VASs).

Por fim, o estudo conclui que tais resultados no processamento da emoção e da sociabilidade são importantes para as pesquisas de psicoterapia com psicodélicos. Na pesquisa na qual se constatou bons resultados no uso de LSD por voluntários saudáveis. E, de fato, são. Pode-se ainda imaginar, por exemplo, a importância de tais efeitos da psicoterapia com LSD para pessoas acometidas pelo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou pelo transtorno da adaptação. De maneira geral, o estudo aproxima os efeitos do LSD aos do MDMA e da psilocibina. De acordo com Dolder e outros (2016, p. 12): “O agonista do receptor 5-HT2A, LSD, e o liberador de 5-HT, MDMA, podem produzir efeitos gerais similares no processamento da informação emocional”.

A ciência, cada vez mais, demonstra a robustez das evidências clínicas e de ciência base e reforça o papel e a utilidade dos psicodélicos na área da saúde. O campo para avanço é enorme e é preciso continuar esta progressão, para que as pessoas que poderiam se beneficiar destes fármacos em psicoterapia não permaneçam desassistidas. Para quem sofre, a regulamentação de tratamentos mais eficazes, que os atualmente disponíveis, é urgente e maior do que qualquer preconceito.

Referências:

DOLDER, Patrick; SCHMID, Yasmin; MULLER, Felix; BORGWARDT, Stefan; LIECHTI, Matthias. LSD acutely impairs fear recognition and enhances emotional empathy and sociality. Neuropsychopharmacology. 2016.

GRIFFITHS, Roland; JOHNSON, Matthew; MACLEAN, Katharine. Mystical Experiences Occasioned by the Hallucinogen Psilocybin Lead to Increases in the Personality Domain of Openness. J. Psychopharmacology. Nov. 2011.

Mais sobre LSD no Portas da Percepção:

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia com psicodélicos: uma história de sucessos e infundada proibição. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.com/psicoterapia-com-psicod-eacute-licos-uma-hist-oacute-ria-de-sucessos-e-infundada-proibi-ccedil-atilde-o-parte-1/

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia assistida com LSD. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.com/psicoterapia-assistida-com-lsd-novos-estudos/

BESERRA, Fernando Rocha. Psicoterapia com LSD: riscos e resoluções. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.com/psicoterapia-com-lsd-riscos-e-resolucoes/

BESERRA, Fernando Rocha. LSD e Psicodelia. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.com/lsd-e-psicodelia-portas-da-percepcao-ed-276/

BESERRA, Fernando Rocha. Breves palavras sobre o uso terapêutico do LSD. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.blogspot.com.br/2013/02/breves-palavras-sobre-o-uso-terapeutico.html

BESERRA, Fernando Rocha. Seu doce era LSD ou NBOMe? Hempadão. Disponível em: http://hempadao.com/seu-doce-acido-era-lsd-ou-nbome/

BESERRA, Fernando Rocha. Polêmica envolve morte na USP e falso LSD. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.com/polemica-envolve-morte-na-usp-e-falso-lsd-entenda/

BESERRA, Fernando Rocha. LSD no tratamento do alcoolismo. Hempadão. Disponível em: http://hempadao.blogspot.com.br/2012/11/lsd-no-tratamento-do-alcoolismo-portas.html



Uma resposta para “LSD: do medo à empatia”

  1. SHARKDIVER disse:

    parabéns pela matéria.

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