Fazenda cultiva maconha ao som de rock, folk e blues nos EUA

Clipadão

hempadao 18 dezembro, 2017

São 5h de um dia de outubro no Estado do Oregon, na costa oeste dos EUA, e dois funcionários da fazenda Hifi já estão separando os pedidos do dia.

A jornada de trabalho dessa propriedade com o tamanho de 50 campos de futebol só acaba às 20h, quando as estufas externas são cobertas por um plástico escuro.

“Isso ajuda a acelerar o metabolismo e florescimento da maconha”, diz Richard Vinal, sócio da fazenda, visitada pela Folha em outubro.

A reportagem acompanhou por uma semana a colheita na Hifi Farms, propriedade de porte médio onde são produzidos anualmente 700 kg de maconha legalizada.

No período de colheita, dez funcionários temporários se juntam à equipe de 20 fixos.

Em meio aos sons de passarinhos, máquinas e cabras, é possível ouvir também clássicos de rock, folk e blues, sempre tocados numa vitrola. Música e cannabis são as duas paixões de Vinal e de seus dois sócios na Hifi, Lee Handerson e C.K. Koch.

Eles começaram seus negócios plantando e vendendo maconha ilegalmente em 2005, no Estado da Geórgia. O sonho de financiar bandas e produções musicais de maneira ilícita deu certo até 2010, quando agentes do DEA, o departamento americano de combate às drogas, prenderam Vinal após denúncia dos vizinhos.

Foram 18 meses atrás das grades –enquanto isso, os Estados do Colorado e de Washington discutiam legalizar a maconha para fins recreativos, o que ocorreu em 2012.

“Lembro-me de ver um programa de TV sobre o mercado da maconha. Era irônico saber que eu estava preso por uma razão pela qual outros ganhavam dinheiro em outros Estados”, conta.

REGULAMENTAÇÃO

Vinal plantou sua primeira semente de maconha legalizada em outubro de 2014, no Oregon. Desde que saiu da cadeia, o agora empresário segue à risca as regras do jogo. Sabe de cabeça que tem 2.236 pés de maconha ali.

Assim como bebês na maternidade, cada planta com mais de 61 cm ganha uma pulseirinha de identificação com tecnologia de radiofrequência com características, linhagem, data de nascimento e localização exata.

Essas informações são enviadas em tempo real para a OLCC (Comissão de Controle de Álcool do Oregon, na sigla em inglês), órgão estadual criado em 1933 para controlar a venda e distribuição de bebidas alcoólicas –desde 2014, faz o mesmo para a nova indústria da maconha.

Esse sistema ponta a ponta permite fazer o inventário de toda a cadeia produtiva de maconha no Estado.

Não há legalização de maconha nos EUA, o que há são leis estaduais que regulamentam produção, venda e consumo. Cada Estado libera ou não por meio de referendos, diz Mark Pettinger, porta-voz da OLCC.

Apesar da legalização estadual, a maconha ainda é ilegal no nível federal, tipificada como nível 1, ao lado da heroína, por exemplo.

Dos 50 Estados americanos, 29 mais o Distrito de Colúmbia já liberaram o consumo para uso recreativo ou medicinal, gerando um faturamento de US$ 6,8 bilhões (cerca de R$ 22,4 bilhões) em 2016. Até 2020, esse valor deve triplicar.

CABIDES E PISCINA

Caminhando pelas plantações da Hifi, Anne Daniel aponta para uma flor de maconha com os olhos apaixonados de uma mãe. Ela é a responsável técnica da fazenda, uma nerd da cannabis.

Veja como os terpenos estão desenvolvidos, diz, apontando para pequenos cristais brilhantes na planta do tipo Lemon Berry Kush, resina natural que confere sabor e protege a planta de insetos, fungos e parasitas.

Cuidamos do manejo de resíduos, da preparação do solo e do uso racional da água. Tudo aqui é orgânico, afirma Daniel, enquanto olha para a fazenda vizinha, que, segundo ela, usa pesticidas nas framboesas que produz.
A colheita é manual. Três rapazes se revezam na tarefa de cortar as plantas e levá-las à área de processamento.

Depois de pesada, a maconha é colocada numa piscina infantil circular estampada com peixinhos e caranguejos. Essa foi a melhor alternativa para que quatro funcionários pudessem cortar as plantas em ramos de cerca de 80 cm tamanho ideal para serem penduradas em cabides de roupa, onde ficarão secando por cerca de um mês.

A última e mais demorada etapa é o corte individual de cada flor. Com tesouras de jardinagem, funcionários aparam os buds como se lapidassem diamantes. Serão três meses fazendo isso.

Em paralelo, cada espécie ali colhida aguarda o resultado laboratorial que avalia potência, resíduos químicos de 25 pesticidas e traços de mofo. Por lei, toda maconha deve ser testada antes de ir às lojas. Só ervas com notas altas conquistam o varejo.

OPINIÃO PÚBLICA

“Você acha que o uso de maconha deveria ser legal ou não?” é a pergunta que o Instituto Gallup vem fazendo aos americanos desde 1969. No primeiro ano da pesquisa, 12% responderam sim. A consulta mais recente, divulgada em outubro, apontou que 64% apoiam a legalização.

Richard Vinal atribui o apoio popular aos resultados após a legalização. “O crime caiu, os produtos têm mais qualidade e o consumidor sabe exatamente o que está comprando e quais serão os efeitos”, diz. “Sem falar no dinheiro dos impostos.”

Segundo o New Frontier Data, maior fonte de informação do setor, US$ 655 milhões entrarão nos cofres dos Estados pró-cannabis até o final do ano. A projeção para 2020 é que os impostos gerados pela maconha alcancem US$ 1,8 bilhão. Essa arrecadação é revertida em educação, saúde, pesquisa, segurança pública e programas sociais.

Inicialmente contrário à legalização no Colorado, o governador do Estado, John Hickenlooper, mudou de opinião. “Se dependesse de mim, essa aprovação não teria passado”, admitiu no início do ano. “Estávamos preocupados com tudo. Que o consumo entre menores iria aumentar, que as pessoas iriam trabalhar sob o efeito da droga, que a imagem do Estado poderia piorar”, disse.

Cinco anos após seu Estado ter sido o pioneiro da legalização no país, Hickenlooper afirma: “Não temos visto nada de negativo”.

Portland, com 640 mil habitantes, possui 156 dispensários, mais do que as lojas Starbucks e McDonald’s somadas (139). Em média, o grama da maconha custa US$ 10 (R$ 33), já incluídos os 20% de impostos. Antes da legalização, o mesmo grama saía por US$ 15 (R$ 49), com qualidade inferior.



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