Enteógenos – Respeito e Consciência

Portas da Percepção

hempadao 10 janeiro, 2014

por Catiusia Gabriel

clip_image002Se existe um assunto tratado como um grande tabu no Brasil é o uso das substâncias psicoativas, sejam elas naturais ou sintetizadas em laboratório, com finalidades recreativas ou religiosas. De toda forma, o tema geralmente vem carregado de preconceitos. Salvo algumas grandes iniciativas de grupos universitários (já mencionados em outras colunas aqui no Hempadão) ou de ONG’s (Psicotropicus é um bom exemplo), que produzem material informativo e educativo destinado à usuários de drogas, na maioria das situações onde a educação deveria estar presente, como em festas, bares, etc. o assunto é completamente negligenciado. Devido à ausência de informação é que estamos caminhando para leis cada vez mais proibitivas e absurdas, como as discussões sobre a internação forçada, por exemplo, a qual tivemos o desprazer de assistir no ano passado. A falta de conhecimento sobre os efeitos do uso de psicoativos têm consequências como o incremento da lista de substâncias proibidas da ANVISA, onde a Salvia divinorum passou a figurar recentemente, seguindo a linha proibicionista em detrimento da informação e pesquisas científicas.

Para exemplificar, gostaria de abordar aqui um caso recente de uso de Argyreia nervosa que, com a ironia da frase, não serve como exemplo a ninguém. Um noticiário online do estado de Santa Catarina publicou na última semana uma notícia sobre um rapaz que teria ingerido uma quantidade considerável de sementes de Argyreia e, sob os efeitos da planta, teria sofrido um surto psicótico e causado diversos transtornos à vizinhança. A polícia interveio na ocorrência e, de acordo com a notícia, o rapaz também teria agredido os policiais. As autoridades não tinham conhecimento sobre a substância ingerida, seus efeitos ou sua origem. Foram informados por companheiros do rapaz de que se tratava da ingestão de uma quantidade exagerada de sementes alucinógenas, com efeitos semelhantes ao LSD. E basta. A confusão foi instaurada. A notícia vem classificada nas tags “drogas”, “polícia”. As autoridades locais agora estão cientes, da pior forma possível, da existência das “sementes alucinógenas com efeitos semelhantes ao LSD”.

A Argyreia nervosa não está na lista de substâncias proibidas da ANVISA, mas percebam que casos como este são um trampolim para que a planta passe a figurar como um perigo à sociedade, fazendo com que sua inclusão na lista seja apenas uma questão de tempo. Infelizmente a falta de informação nos leva a conclusões errôneas e superficiais. As autoridades da pequena cidade onde o caso foi registrado muito provavelmente incluirão a ocorrência como abuso de drogas, perturbação da ordem pública e outras classificações negativas. Talvez o caso seja motivo para uma investigação mais aprofundada por parte destes policiais, sobre as sementes até então desconhecidas, sua origem e efeitos, mas não tenho esperanças que as conclusões sejam positivas. Um policial relatou na matéria que “ela (semente) não está na lista de substâncias proibidas, pode até estar em análise pela ANVISA…”. Se ainda não estiver em análise, o registro de casos assim certamente contribuem para que isso aconteça.

Ervas e plantas, sejam elas utilizadas para fins recreativos ou mesmo considerando-se os medicamentos extraídos a partir destas, podem ter um amplo espectro de efeitos, dependendo da dosagem e do estado emocional do usuário. A facilidade em encontrar determinadas plantas, como as sementes de Argyreia, pode levar a um potencial abuso recreativo, tendo como consequências não somente os efeitos adversos ao usuário, mas também o incremento nos registros negativos de uso da planta, o que leva à sua proibição e elimina as chances de conhecermos seus potenciais efeitos benéficos. Nesse sentido, acredito que devemos reunir e compartilhar informação, sempre buscando a redução de danos. Enteógenos não devem ser subestimados. Devem ser respeitados. Um antigo conhecimento científico da humanidade, ditado por Paracelso, um alquimista do século XVI, diz que “a diferença entre o remédio e o veneno está na dose”. É preciso ter cautela sempre.

Links para as matérias citadas aqui e aqui.



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