Enteógenos e Psicologia Transpessoal

Portas da Percepção

hempadao 28 fevereiro, 2014

alexmacacodf0Galera,

Mais uma semana do Portas da Percepção e temos algumas notícias. A Catiusia, que escreveu esta Coluna comigo durante o período de 19 de abril de 2013 à 15 de fevereiro de 2014, infelizmente não participará mais como colunista regular da coluna Portas da Percepção por razões pessoais. Deixo aqui, publicamente, meus agradecimentos às excelente contribuições. Hoje vamos contar com um texto de um grande amigo, psicólogo, biólogo e especialista em psicologia junguiana, Luis Paulo Brabo. Luis é um grande estudioso dos enteógenos e da psicologia transpessoal e nos brindou com um excelente texto. Enjoy!

Por: Luis Paulo Brabo

A Psicologia Transpessoal, surgida nos anos 60, era inicialmente considerada como um desdobramento da Psicologia Humanista. No entanto, enquanto a Psicologia Humanista tinha como meta a auto-realização, a Psicologia Transpessoal trazia a ideia de auto-transcendência. Esta diferença é importante e revela um dos pressupostos básicos do pensamento transpessoal, a saber, de que a individualidade é somente um aspecto do Ser. Além da consciência e do inconsciente pessoal, a psique possui outros aspectos que transcendem a individualidade (daí o nome transpessoal); aspectos esses que podem ser vivenciados através de estados incomuns de consciência e cujo potencial heurístico e terapêutico são impressionantes. Apesar da relação histórica existente entre a Psicologia Humanista e a Transpessoal, em que Abraham Maslow participou ativamente de ambas, é possível afirmar que a Psicologia Reichiana e principalmente a Psicologia Junguiana já haviam construído um substrato sólido que posteriormente influenciaria de forma decisiva as teorias transpessoais. O conceito junguiano de inconsciente coletivo, por exemplo, viria a ser largamente utilizado nas cartografias da psique criadas pelos autores transpessoais, apesar de ter sofrido modificações.

Há uma série de abordagens distintas dentro da Psicologia Transpessoal, isso quer dizer que não se trata de uma “escola” psicológica, mas uma designação genérica, que agrupa modelos distintos de entendimento do homem e do mundo, assim como diferentes métodos terapêuticos. Há inúmeras cartografias da psique dentro da Psicologia Transpessoal, dentre as quais podemos citar como principais, a cartografia da Psicossíntese de Roberto Assagioli, a cartografia de Stanislav Grof e a cartografia de Ken Wilber. Todas essas cartografias incluem níveis transpessoais da psique além da consciência e do inconsciente pessoal. Tais mapas da alma levam em conta não somente os estados usuais de consciência, como a vigília e o sono, mas também os estados incomuns de consciência, induzidos por uma série de técnicas, como trabalhos respiratórios, danças e outras formas de movimento, isolamento social ou privação sensorial, meios fisiológicos como o jejum, meditação, orações, outras práticas espirituais, ingestão de drogas psicodélicas e plantas enteógenas.

dmt_spirit-moleculeSem dúvida nenhuma, as pesquisas de Stanislav Grof com a utilização de LSD na psicoterapia, levadas a cabo durante a década de 60, tiveram grande relevância para o estabelecimento da Psicologia Transpessoal no hall das psicologias. Grof observou que as experiências induzidas pelo LSD tinham não somente potencial de cura em situações específicas, mas também de catalisar profundas mudanças na personalidade global, facilitando o desenvolvimento do homem inteiro. Não se tratava, portanto, de mais um tipo de droga alopática, que age nos sintomas; mas de uma droga capaz de induzir experiências em que o indivíduo é confrontado diretamente com as “causas”, quer dizer, é confrontado com as questões mais íntimas de sua história pessoal assim como pode entrar em contato com aspectos que o transcendem (transpessoais), capazes de mudar completamente a forma como vê a si próprio e o mundo. No entanto, Grof, não atribuiu tal característica ao LSD em si, mas ao tipo de experiência induzida por ele, que denominou como estado holotrópico de consciência. O termo Holotrópico, cunhado por Grof, deriva do grego holos (totalidade) e trepein (ir em direção, orientado a), portanto descreve um estado de consciência orientado ao centro. Outras substâncias são capazes de induzir este mesmo estado de consciência, como a psilocibina, a mescalina, o DMT (dimetiltriptamina), a ibogaína, dentre outras; assim como diversas técnicas em que não são utilizadas quaisquer substâncias.

Os estudos dos estados de consciência induzidos por essas substâncias tiveram importância central para a criação de modelos psicológicos que viriam a integrar a Psicologia Transpessoal. Isto é, as experiências enteogênicas ampliaram o espectro psíquico observável e com isso, os antigos mapas da psique foram também largamente ampliados. Surgiu assim, no âmbito da psicologia, modelos mais abrangentes que reconheciam aspectos até então negligenciados pela civilização ocidental, mas que constituíam o cerne de filosofias espirituais orientais e culturas xamânicas. Este alargamento dos limites da psicologia permitiu também que a espiritualidade ocidental pudesse ser vista com novos olhos, não mais a partir do dogma, mas da experiência mística. Assim sendo, a Psicologia Transpessoal leva a sério os estados incomuns de consciência, designados por Grof como holotrópicos. Considera-os importantes para o processo de desenvolvimento individual; fundamental para a auto-transcendência e para o desenvolvimento de uma ética superior, mais abrangente, que abarca a humanidade e nosso planeta como um todo.

No entanto, em 1969 aconteceu algo que mudaria completamente o rumo das pesquisas com enteógenos. Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, propôs ao congresso americano o endurecimento das leis para combater as drogas. Com a guerra às drogas declarada por Nixon, o LSD e as demais drogas psicodélicas viriam a ser enquadradas, em 1970, na categoria das drogas mais perigosas. O que significava proibição não somente para o consumo, mas também para a pesquisa. A proibição das drogas psicodélicas foi um golpe para os estudos que vinham sendo realizados por uma série de pesquisadores no campo da psicoterapia. No entanto, embora as abordagens da Psicologia Transpessoal que utilizavam experiências induzidas por drogas psicodélicas tivessem recebido um golpe, algumas continuaram seus estudos através de outras técnicas capazes de induzir estados incomuns de consciência. Meditação, exercícios de visualização, hipnose, renascimento e técnicas oriundas do Psicodrama, da Gestalt, da terapia reichiana e da imaginação ativa junguiana foram utilizadas para acessar as regiões transpessoais da psique. Stanislav Grof e sua esposa Christina Grof desenvolveram a respiração holotrópica, técnica que associa respiração controlada, música, trabalho corporal focalizado e arte, com resultados impressionantes, capazes de induzir profundos estados holotrópicos de consciência.

Atualmente o interesse pelo estudo das drogas psicodélicas vem ganhando novo fôlego e reconquistando espaço no âmbito acadêmico. Há diversos estudos recentes mostrando a eficácia terapêutica dessas substâncias, ou melhor, das experiências induzidas por essas substâncias, no campo da psicoterapia. De um modo geral, os estudos recentes não estão associados ao campo da Psicologia Transpessoal, mas demonstram resultados positivos no tratamento de várias patologias específicas, como distúrbios alimentares, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e uso abusivo de álcool e outras drogas, por exemplo. Tais estudos são extremamente importantes e preparam terreno para uma possível utilização, no futuro, dessas substâncias associadas à psicoterapia. Tal fato é animador, principalmente em nossa sociedade que tende a patologizar ou ver como indesejável qualquer estado incomum de consciência, e, portanto, negligencia estados de consciência extremamente apreciados em outras culturas por seus potenciais de cura e transformação.

A utilização de tais estados de consciência, com métodos adequados, pode ser importante não somente para os indivíduos que os vivenciam, mas para a sociedade como um todo. Já que seu potencial de cura não se relaciona a sintomas específicos, mas ao desenvolvimento do homem inteiro. Isso quer dizer que, a transformação individual no sentido da totalidade não está associada exclusivamente à cura de patologias, mas também ao desenvolvimento de um profundo senso de ética, que inclui responsabilidade pessoal, social e ecológica; uma maior consciência do lugar do homem no mundo.



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