Diário do Cárcere de Ras Geraldinho!

bONG

hempadao 4 abril, 2014

do blog Memórias do Cárcere

Penitenciária de Iperó, 23 de Março de 2014

Que a sabedoria divina ilumine nossos corações, dando-nos a compreensão da Real Verdade!

"A sabedoria edificou sua casa, lavrou com sete colunas. Matou seus sacrifícios, misturou seu vinho, e pôs sua mesa. Enviou seus criados para convidar desde o lugar mais alto da cidade.

Não repreendas o cínico, para que não te aborreça; repreende o sábio e ele te amará.

Dá ao sábio e será mais sábio; ensina o justo e o saber dele aumentará.

O princípio da sabedoria é o temor do Senhor, e a inteligência é o conhecimento do Santíssimo." (Provérbios 9-1,2,3,8,9,10)

Domingo de visita. Um dia nublado, que para os penitenciados do pátio é um refrigério. Clima de outono se faz presente no ar e no coração. Um saxofone chora melodiosamente. E podemos sentir a melancolia no ar…

É impressionante perceber como a clareza de nossas palavras são compreendidas neste vale de pedra e ferro.

Agradeço ao coração de pedra e ao espírito escuro dos operadores da injusta Justiça Paulista pela oportunidade de experimentar e conhecer a realidade do aparato opressor tucano.

Como tenho declarado: "Quanta injustiça na profissão da Justiça!"

Hoje sou testemunha, para a história, da insustentável situação do Sistema Carcerário Paulista, que é o ralo mais escancarado da corrupção estatal.

Se em setores como a Saúde e a Educação, que são de alta evidência pela mídia e sociedade, os recursos são dilapidados pelos abutres da política e do mau funcionalismo público, imaginem um setor apêndice e execrado como é a carceragem pública…

É pelo lugar que o pastor não vigia que o lobo entra…

Como o preso é uma figura odiosa para a sociedade, ninguém quer saber como estão as obrigações do Estado para com eles. A única coisa que nossas mentes registram é que na planilha governamental cada uma destas indesejáveis criaturas custa Xou dois X vezes mil reais, o que a sociedade sempre acha um absurdo.

O que ninguém sabe e nem quer saber é que os valores de custo de manutenção básica dos encarcerados é simples figura de retórica matemática, que circula tão somente nas planilhas eletrônicas de prestação de contas, sendo que a realidade das masmorras paulistas é lamentavelmente outra.

A matrix desta "Transição de Eras" conseguiu estruturar um organismo cruel, semelhante à uma dessas velhas máquinas de moer carne, onde se joga o execrado na boca de entrada e não importa o que vai sair no final do processo.

Fora o apenado, que é o único que cumpre com as obrigações de sua parte, pois preso preso está, nenhum outro ator desta complexa fonte de sustento institucional se honra ao dever imputado.

Desde os juízes e promotores, até os fornecedores, ninguém está nem aí com as obrigações.

Médico não atende, dentista mal e mal arranca dentes podres, assistente social não existe, defensor público – que deveria trabalhar em prol do apenado, faz menos do que o necessário para simular os trâmites da burrocracia judiciária.

Um sistema gigantesco, com centenas de milhares de cabides, dispostos e comprometidos unicamente com os próprios hollerits.

Atendimento penitenciário é piada e, infelizmente para nós que estamos do lado de cá das barras, é piada de mau gosto.

Se o capital humano é de tão baixa qualidade, o que dizer da parte material? Produtos básicos de sobrevivência mínima e de manutenção?

Material básico consumido aos montes somente nas planilhas de controle e prestação de contas.

Estamos falando de sabonete, sabão, creme dental, escova dental, papel higiênico, remédios, etc. que só existirão nos dígitos virtuais.
Início do terceiro milênio eclipsado pelas trevas do egoísmo, usura, ganância e falta de dignidade humana.

A verdade é que nas relações de Estado com o penitenciado, valem as regras do sistema prisional medieval.

O historiador ou antropólogo do futuro não encontrará diferença entre nossas penitenciarias e as masmorras romanas.

O termo "era das trevas" valerá para se contar o tempo presente.

Agradeço ao senhor juiz, ao promotor-menino e a todos os desembargadores que fizeram chacota do meu direito constitucional.

Quando usamos o termo "matrix", falamos do sistema operacional que faz a interface do nosso consciente/subconsciente com a plataforma planetária – exatamente como no filme.

Durante as audiências de minha condenação, o senhor promotor desdenhou de uma de minhas testemunhas, que afirmou estudarmos o filme matrix em algumas assembléias. Ele riu e gesticulou freneticamente, insinuando a insanidade de nossos trabalhos.

Curioso é encontrarmos a verdade no ponto de vista de cada um, pois, para o promotor nós somos loucos, porém, para nós o promotor é o próprio "senhor Smith".

"Inclina teu ouvido e ouve as palavras dos sábios, e aplica teu coração à minha sabedoria; porque, e´coisa deliciosa se as guardas dentro de ti e forem elas presentes em teus lábios. para que ponhas tua confiança no Senhor, eu te instruo hoje." (Provérbios 22-17,18,19)

Que a luz de Jah nos liberte das trevas!

Ras Geraldinho – por carta



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