ConverSativa com o Editor do portal CANNABICA

ConverSativa

hempadao 17 junho, 2014

O Conversativa de hoje vai apresentar pra vocês a ACuCa, a Associação Cultural Canábica de São Paulo e que conversou com a gente foi o Rafael, editor do site que está marolando excelentes conteúdos originais de cultura canábica. Vale a pena visitar, incluir entre suas leituras diárias enfumaçadas e claro, conferir um pouco sobre a vida e história de luta do nosso lado camarada da militância informativa, confira:

1) Como foi sua experiência com o jornal A Planta? Conta como foi a história desse veículo contracultural…

 

A Planta brotou em 2008 da vontade de traduzir em palavras as práticas e discussões de um grupo de pessoas desenraizadas, vivendo em um mundo paralelo, que é a UNESP-Assis. Muita coisa rolou por lá, a história da luta politica pelo viés cultural durante a ditadura marcou muito a vida do lugar. Essa mistura de essência libertária inflamou com a ocupação do campus e greve geral em 2007 contra o governador José Serra. O clima virou, fincamos o pé e tomamos a dianteira: nasceu a Semana de Liberdade Criativa. O evento cresceu, causou e ampliou o uso do espaço universitário, devolvendo a academia o senso de comunidade, fazendo mostras de arte, festivais, sarais, espaços para literatura, grafites, um conjunto baseado em conceitos bem amplos, misturando tudo mesmo, seguindo de perto os dadaístas e depois, os Provos, Neoístas, sem falar nos beatniks, Bukowski e principalmente, o Dr. Hunter S. Thompson. E numa dessa, eu e o Eder Capobianco, que cria esses personagens fritos para a Cannabica, colou junto, e dai foi só encher o saco do pessoal para escreverem e ilustrarem. Contos, tirinhas, ensaios, charges, instruções de como fazer engenhocas para fumar maconha, tudo marcado pela contracultura, que tinha como política de vida plantar maconha, cheirar cocaína, exagerar no álcool, lisérgicos, além das temporadas de caça aos cogumelos. O lugar transpira essa contracultura, e A Planta foi nosso veículo, a liberdade nosso partido.

 

 

2) O que é a ACuCa e o Cannabica? Apresenta os projetos pra quem não conhece…

 

A ACuCa é uma Associação Cultural Cannabica que levanta a bandeira da livre associação de maconheiros, muito semelhante aos clubes de cannabis da Espanha. Nosso projeto começou em 2012 com uma Assembleia chamada pelas redes sociais. Pouca gente se conhecia, muita gente colou, mas ai uma galera dispersou, outras ficaram, outras chegaram junto do nada e agarraram o boi pelo chifre, como toda associação. Foi se formando um núcleo duro, mais administrativo, interligando pessoas pela solidariedade, pela recusa em aceitar a proibição da maconha. Esses dois anos de trabalhos, discussões e reuniões serviram para que pudéssemos entender o que é uma associação cannabica, esse tempo foi vital. Ainda bem que maconheiro é paciente. Elegemos uma diretoria e estamos em vias de registrar o estatuto interno da ACuCa. Uma nova fase se aproxima.

No momento, estamos trabalhando na produção de conhecimento, como a próprio editorial da Cannabica afirma: estamos misturando arte, ciência e ativismo nessa elaboração. Do ponto de vista jurídico, nosso advogado (Fernando da Silva, o Profeta Verde) está trabalhando na reunião de um dossiê sobre o caso do Rás Geraldo, que continua em cana. É um absurdo este homem estar preso, e se o ativismo não se movimentar, ele vai apodrecer lá. Pouco a pouco, acredito que advogados comprometidos com o ativismo social vão chegar e se agregar a luta. É do interesse de todos nós sua liberdade, não precisamos de mais mártires do que já temos. Estamos fazendo uma festa para arrecadar fundos para sua defesa e também organizando uma quaresma a começar no mês de Julho, por sua liberdade. Esperamos logo que a legislação avance para finalmente levantarmos o que nos interessa nisso tudo, que é a produção de maconha natural para consumo próprio. Enquanto nossa planta continua proibida, vamos alvejando esse mundo com informação, com cultura. A Cannabica é isso, veio para somar, para queimar mitos e acender fatos, como disse o Renato Filev.

 

3) Tenho que parabenizar você e toda equipe de colaboradores por um excelente conteúdo de contos e desenhos, material original sobre a ganja. Como é contribuir com esse registro da cultura canábica?

 

Bem, primeiramente obrigado. O objetivo da Cannabica é colocar todas as esferas possíveis do conhecimento a serviço do antiproibicionismo, tendo como centro a maconha. Acredito que apenas esta intensão explica a prática dos membros do conselho editorial e dos colaboradores rotineiros. Todos os que escrevem e desenham para a Cannabica já atuaram em diversas outras formas de luta, sejam elas culturais ou não, individuais ou coletivas, e isso agrega experiência, traz para o coletivo um olhar calibrado que agora se posiciona a serviço da maconha, uma dentre tantas outras lutas urgentes. Este é um entre outros sentimentos que marcam essa produção autoral. Esse sentimento coletivo está presente na sutiliza das palavras, no acento dos traços, na apresentação do material que procuramos irradiar. A grande maioria dos colaboradores não se conhece, mas através da Cannabica, percebo que pouco a pouco laços de solidariedade estão se formando, e isso é vital para o desenvolvimento do projeto.

 

4) O conselho editorial da Cannabica é pesado! Esse pessoal todo já tá produzindo pra lançamento de mais uma revista, em breve?

 

No momento, adotamos como estratégia editorial lançar um texto autoral por semana. Não dá para esperar o tempo editorial que uma revista leva para colocar a informação a disposição do público. No primeiro lançamento, que foi nossa pedra fundamental, abrimos oito colunas, e em dois meses somamos mais nove trabalhos, um por semana, mas pretendemos aumentar a periodicidade. Um exemplo de como um assunto tomou conta da Cannabica foi o IV Simpósio Internacional de Cannabis Medicinal, sobre sua história, os relatos dos pacientes de epilepsia e as desculpas furadas da ANVISA. A Cannábica se dedicou integralmente a questão nas últimas semanas, pela urgência do tema. Isso significa que matérias das outras colunas acabam tendo que esperar. O que encaminha a publicação é a urgência do tema, a necessidade de responder na esfera da mídia independente as mentiras da mídia convencional.

Temos como diferencial das outras revistas o modelo editorial que adotamos. Me inspirei muito na revista Blast, de São Francisco, que emprega o ensaio como modalidade narrativa, em que o escritor articula as informações entre si para compor uma grande constelação. Deste modo, quem escreve pode ter mais tempo para esmiuçar uma questão, leve quantas páginas levar. O leitor acaba não precisando ler tudo, porque diante da densidade dessas unidades que compõe o todo, a conclusão deixa de ser indispensável para que o conteúdo veiculado provoque reflexões. São textos que exigem pausas, e não um fluxo que escoa em direção a um final revelador. E para isso reunimos pessoas com títulos acadêmicos em áreas como Biologia, Biomedicina, História, Farmácia, mas também um programador de códigos abertos, alguns anarquistas, professores da rede pública, um advogado, tradutores e ilustradores, em suma, heterogêneos como os maconheiros.

 

5) A militância informativa não pode parar, quais são os próximos passos, e que caminhos explorar nesse sentido?

 

Bem, vocês são um exemplo disso. Não é de hoje que o Hempadão leva essa tocha. No momento estamos produzindo mais reflexões e as traduzindo textualmente, os ilustradores pincelando, os tradutores traduzindo. Nossa copa é outra e cheia de pistilos. Vamos levar a frente a campanha pelo Rás Geraldo, e é claro que a Cannabica vai acompanhar isso de perto. Estamos trabalhando na edição de um Suplemento Cannabico impresso, que vai contar com 16 páginas e tiragem de 5000 exemplares, com alguns textos já publicados no site e outros inéditos, além de ilustrações e quadrinhos especialmente produzidos. Em breve iniciaremos a captação de patrocínio, para financiar a arte, a impressão e a distribuição, além é claro de reforçar o caixa da Associação. Estamos crescendo em diversas frentes, mas estamos sem pressa, amadurecendo esse projeto, fortalecendo nossas bases enquanto coletivo, editorial e associativo.

 

6) Você faz parte também da Maconhabrás, diz aí como andam os trabalhos da instituição com nome mais explanado do Brasil.

É um verdadeiro prazer trabalhar com os pesquisadores da Maconhabras, a coisa funciona coletivamente, estamos nos fortalecendo individualmente trabalhando como coletivo, é aquela coisa de irmandade, de motivação, sem falar na biblioteca do professor Carlini, onde é possível sempre encontrar muita munição pesada. O CEBRID, ao qual estamos vinculados, acaba de organizar o IV Simpósio Internacional de Cannabis Medicinal na Cinemateca Brasileira, o que exigiu a concentração de todos.

Por iniciativa do professor Elisaldo Carlini, especialistas do Brasil e do mundo, políticos e pacientes de cannabis medicinal se reuniram para debater sobre seu emprego no tratamento de Esclerose Múltipla, Epilepsia, Câncer e Dores Neuropáticas. Estamos avançando, mas precisamos de um esforço geral para que as coisas mudem, e isso implica em irradiação de informação, ativismo aliado à pesquisa acadêmica. No mês de junho, estamos realizando pareceres sobre os projetos de lei que vão ser discutidos pelo Congresso Nacional, trabalhando para transformar o conteúdo produzido pelo Simpósio em livro, examinando estudos médicos de cunho científico publicados no exterior e debatendo-os em nosso boletim trimestral; acabamos de lançar seu segundo número, e lá debatemos trabalhos sobre o uso medicinal da cannabis para dor crônica, o mito sobre a esquizofrenia, o modelo holandês, a história do simpósio e minha coluna Medicina e Proibicionismo: Notas históricas de um discurso, onde demonstro que os médicos brasileiros proibiram a maconha para se afirmarem contra os herbalistas e curandeiros, consolidando-se enquanto os homens da saúde e substituindo os saberes tradicionais. Estamos atacando o mal na raiz, queimando mitos.

 

7) Qual mensagem você deixa para a galerinha que faz fumaça e quer ajudar na legalização da erva?

É indispensável a organização social, o ativismo. Precisamos de mais informações e de uma estratégia para aplica-las, criando modelos de gestão da cannabis para seus fins diversos, mas antes de tudo, cobrar a ANVISA para que retire a maconha da lista dos medicamentos proscritos, facilitando assim o acesso dos que precisam dos derivados da cannabis, algo que abrirá o caminho para o desenvolvimento de nossa produção nacional.



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