Bolos, chás, poções, cogumelos e redução de danos – Parte 2

Portas da Percepção

hempadao 5 novembro, 2015

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por Gabriel Vilella

Acesse a parte 1 AQUI

A lagoa de lágrimas

 

Por vezes durante a experiência psicodélica, mesmo com todos os cuidados e preparativos, nos deparamos com sentimentos e sensações não muito desejadas como tristeza, preocupações e medos. Tudo aquilo que já estava na superfície, mas que não conseguíamos sentir com tamanha intensidade, ou até sentíamos, mas não com a devida atenção e que agora, com o uso do psicodélico, está ali, bem presente. O que fazer? Parar a tripgeralmente não é possível… Então o que resta?

Bem, o primeiro ponto é lembrar que a trip em algum momento vai passar, ainda que seja difícil ter a precisão de que horas são e quanto tempo se passou desde seu começo. Alice cresce e Alice encolhe. É confiar que cedo, ainda que pareça tarde, irá passar. Outra coisa a se pensar é que a bad tripquando sentida, diz de algo que está se passando com você e não é sempre que temos a possibilidade de estar em contato com isso, com as coisas se apresentando assim tão claras ainda que doloridas. Enxergar isso como uma oportunidade de se conhecer melhor pode ser uma alternativa interessante, refletir e falar sobre os porquês dessas sensações e sentimentos pode ser de grande valor para sua vida. Mas, não entramos em contato com isso antes por certos motivos, o quanto antes passar, melhor! Nesse ponto os amigos serão, como sempre, de grande valia… Conversar com eles sobre as questões que estão aparecendo e ouvi-los pode ajudar.

Um guia psiconauta também é uma boa ideia. Esse é alguém que se possa confiar e que já teve outras experiências psicodélicas e que poderá, em determinados momentos, auxiliar quem precise. Não é simples estar nessa função e existem diversas maneiras de guiar, mas é muito importante um guia para a primeira experiência de alguém.

Conselho de uma lagarta

clip_image004Os conselhos do guia psiconáutico/psicodélico[1] para as primeiras sessões de um grupo/ indivíduo inexperiente são fundamentais. O guia ajuda a dar forma a tripe a torná-la mais aprazível, deixando as coisas mais fluidas, o que facilita todo processo. Esse é um papel de grande responsabilidade. Nas casas de ayahuasca esse papel geralmente é do mestre e daqueles que são iniciados.

O guia deve “ficar ali relaxado, sólido, receptivo, seguro”, mas de maneira alguma isso implica numa rigidez. Se este for inflexível, impondo regras e normas que, de maneira geral, são incompatíveis com experiências tão maleáveis como as psicodélicas, pode ser um grande causador de bad trip. O guia irá ser alguém que estará ali com você, presente, para que sua presença lhe cause conforto e quietude durante períodos de grande intensidade. Ele não está fora, num bote salva-vidas, mas está surfando a onda e não se afogando nela. Alguém que entenda sua trip, que esteja ligado em você.

Entender a viagemsem se deixar ser tragado pelas ondas violentas é um trabalho difícil já que estamos, geralmente, muito sensíveis e conectados uns aos outros nesses momentos. Para tanto é importante ter alguma experiência. É isso que vai dar a ele o manejo e as saídas possíveis para certos momentos, como também o manejo para potencializar as experiências positivamente. É a lagarta que fuma narguilé em cima do – icônico – cogumelo. A largarta está lá dando as dicas, não está desesperada como Alice, mas está na onda – alguém duvida? – e, ainda que meio ríspida, dando os conselhos que Alice precisa.

É também aconselhado que esse guia tome dosagens baixas em relação à inexperiência do grupo/individuo que está guiando. Quanto maior a dosagem, mais fácil é de ser tragado pelas ondas em mares tempestuosos e difícil de auxiliar outros participantes. Assim, isso deve ser pesado de acordo com outras diversas variáveis: número e inexperiência dos participantes, dosagens que irão consumir, set, setting e outras coisas a mais que devem ser planejadas, pensadas.


3 Baseio-me aqui no que Leary, Metzner e Alpert (1964) dizem do guia psicodélico. Também para pensar objetivos outros que não somente a “transcendência, libertação dos limites do ego e do espaço-tempo; alcance da união mística”.



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