Argyreia Nervosa – Uma Experiência Pessoal!

Portas da Percepção

hempadao 16 agosto, 2013

por Fernando Beserra

Encontrava-me lendo o livro The Antipods of the Mind do psicólogo Benny Shanon. No prólogo, Shanon relata como conheceu a ayahuasca, seus primeiro usos deste enteógeno e como esta descoberta mudou sua vida. Neste momento, algo aconteceu. Uma súbita intuição deveio claramente, circunscrita a um uso das sementes da trepadeira Hawaiian Baby Wood Rose que eu fizera anos atrás. Não se tratava de qualquer espécie de urgência em relatar a experiência, como se comumente praticado em fóruns sobre enteógeno, mas de um chamado à reflexão. Se conto esta história aqui para vocês hoje, é devido a esta intuição estar vinculada, ao menos parcialmente, a esta coluna: Portas da Percepção do site Hempadão.

 

Estava em um pequeno e aconchegante chalé na cidade de Mangaratiba quando fiz o uso de 8 sementes de argyréia, as quais naquela ocasião engoli apenas com a casca raspada, embora já conhecesse alguns métodos de extração do amido de ácido lisérgico. Cerca de 40 minutos depois comecei a observar as alterações que começaram a ocorrer na qualidade dos meus pensamentos, sentimentos, afetos e mesmo em minha atenção. Diante da constelação involuntária, no foco de minha atenção, de um conflito interno poderoso, que eu buscava fugir de uma solução, começou gradualmente a apresentar-se ao meu fragilizado ego uma sombra tão viva quanto intensa. Uma a uma minhas certezas foram quebradas de forma violenta por aquela volátil alteridade que psicologicamente se fazia presente. Nesta tensão, obviamente as imagens imprimiram à minha consciência um foco sobre meus estudos e escritos sobre enteógenos. Ora, se eu não “era” capaz de lidar com aquela peia, com aquela bad trip, se eu era sempre menor, sempre menos, diante da vasta imensidão do cosmos, como ousaria querer ministrar algum ensinamento, como pretenderia apresentar conteúdos e fomentar discussões sobre este imenso assunto?

Depois desta katabasis, como se diz da queda ao Hades na mitologia grega, após a noite sombria da alma, abre-se a possibilidade de renovação da consciência, a anábasis, a subida do Hades. Será que não foi isso que o psiquiatra tcheco Stanislav Grof quis dizer com a tal da emergência espiritual? O certo é que neste momento eu já tinha desistido de escrever aqui no Hempadão. Quando começava a voltar a mim, a tentar superar a sombra, a televisão, de 14 polegadas, que pegava 3 ou 4 canais – com dificuldades – foi ligada naquele exato momento por uma amiga. Esta mesma amiga, que tentava me tirar da peia e começara a entrar ela mesma em uma, ligou a televisão, que sem meias palavras soltou o verbo:

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo se mostraria ao homem tal como é: infinito”.

Após as poderosas palavras do místico e artista William Blake fiquei atônito. A televisão de 14 polegadas, que pegava 3 ou 4 canais – com dificuldade – em um chalé de Mangaratiba revelava um dos maiores clássicos da cultura enteogênica, assim, sem mais nem menos, e o programa logo em seguir escapou através do subterfúgio de um término precoce. Obviamente esta frase falava comigo, se comunicou imediatamente com meu estado psicológico, levando a enormes gargalhadas. Aliás, as gargalhadas são importantes modos de afastar, comumente, situações de mal estar e complexos autônomos. A via desta comunicação não era causal, nem eu nem mais ninguém teria causado espiritualmente, psicologicamente, a existência daquele programa naquele horário, tampouco teria criado a frase de Blake. Ocorrera, no entanto, uma potente sincronicidade, uma conexão a-causal, de relação significativa e afetiva entre os elementos (meu estado psicológico e meu diálogo interior com o conteúdo da televisão de 14 polegadas…). Não havia dúvidas que esta conexão sincrônica fora fundamental para alterar meu estado de espírito, ocupando-me de forma emancipatória e me permitindo rever minha posição original. (afinal, continuo escrevendo por aqui!!)

Era óbvio que eu não poderia aprisionar aquela frase, aquele fenômeno, aquele momento. Só poderia me relacionar com o mistério que se fez presente a partir de uma diversidade de interpretações, de interações e mudanças de comportamento. Trata-se de uma postura que o psicólogo estadunidense James Hillman chamou de “soul making”. Não deveria me colocar nem acima, nem abaixo, como um alquimista. O ritmo é a compensação. Não poderia tomar o caminho enteogênico como se minha vida se limitasse a ele, tampouco poderia, diante da nova evidência, da nova expressão do Self, escapar a este caminho. E, portanto, amigos, aqui estou.



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